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04/7/2011

O Código Florestal e a violência no campo


por Dom Tomás Balduíno*
Em média, por ano, 2.709 famílias são expulsas de suas terras e 63 pessoas são assassinadas no campo brasileiro na luta por um pedaço de terra A violência é parte essencial da história dos pobres da terra: índios, negros, camponeses. Ela, por sua vez, é alimentada pela impunidade – fenômeno sociopolítico conscientemente assimilado pela nossa instituição judiciária.
1391 O Código Florestal e a violência no campo
No mês de maio deste ano, desabaram sobre a sociedade brasileira cenas de uma dupla violência: a aprovação do Código Florestal pela maioria da Câmara dos Deputados, tratando do desmatamento, e os assassinatos de líderes camponeses que se opunham ao desmatamento na Amazônia.
A ninguém escapa o protagonismo da bancada ruralista pressionando a votação deste Código por meio de mobilizações de pessoal contratado em Brasília e de sessões apaixonadas na Câmara dos Deputados. Por outro lado, as investigações dos assassinatos vão detectando poderosos ruralistas por trás destas e de outras mortes de camponeses.
O Código tem, de ponta a ponta, um objetivo maior inegável: ampliar o desmatamento em vista do aumento da produção. Um estudo técnico sobre as mudanças aprovadas em Brasília assinala que elas permitem o desmatamento imediato de 710 mil km², mais que o dobro do território do Estado de Goiás.
É impressionante a fúria com que este instrumento legal avança sobre as áreas de preservação dos mananciais destinadas a criar uma esponja à beira dos rios, defendendo-os das enxurradas e impedindo o seu assoreamento. A legislação anterior, embora tímida, exigia uma faixa de 30 metros de cada lado. A atual legislação a reduz para ridículos dez metros.
A reserva legal, religiosamente mantida pelas pequenas e médias propriedades, é o que ainda hoje dá uma visível cobertura de vegetação nativa em nossos diversos biomas, em razão do grande número de médios e pequenos estabelecimentos. Isto também desaparece. Aliás, o Código não cuida da agricultura familiar que é responsável por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro.
O Código se ajusta muito mais às áreas desmatadas a perder de vista e destinadas a gigantescas monoculturas. A grande expectativa com relação a esse Código é que se consolidasse a proposta já transformada em lei, de recuperação das áreas devastadas. Para nossa decepção, deixa-as como estão. Nós, do Centro Oeste, estávamos sonhando com a recuperação das áreas de preservação permanente do Rio Araguaia, nosso Pantanal, sobretudo das suas nascentes, desmatadas em 44,5%. O sonho virou pesadelo. Com efeito, a nova Lei deixa tudo como está.
Até hoje, a grande queixa com relação aos desmatamentos no Cerrado e na Amazônia se prendia à falta de fiscalização. Entretanto, é justo reconhecer que muito esforço se fez buscando garantir a lei. Por exemplo, a varredura das áreas via satélite. Infelizmente, tornou-se uma prática nefasta na Amazônia os proprietários aguardarem dias nublados para procederem à queima das árvores. Ao se abrir o céu, o desmatamento já é fato consumado.
Em um dos Fóruns do Cerrado foram ouvidos depoimentos de camponeses denunciando outro tipo de crime: o desmatamento rápido à noite de importantes áreas de Cerrado com o uso de máquinas possantes, sem o risco de fiscalização.
Agora, com a flexibilização do novo Código, não há mais  necessidade de fiscalização. Mais ainda, alguns proprietários, sabendo com antecedência das permissividades e anistias a serem introduzidas por este Código nas áreas devastadas ilegalmente, partiram logo para a criação de fatos consumados derrubando a cobertura verde. O título do brilhante artigo de Washignton Novais em O Popular, de 2 de junho, na página 7, é o seguinte: “Código de florestas ou sem?”. A nova lei foi apelidada também de “Código da Desertificação”.
País do latifúndio
O que estaria por trás de tanta devastação e de tanta lenha acumulada?  É o seguinte: apesar da apregoada excelência dos avanços técnicos e econômicos do agronegócio brasileiro, os dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), referentes ao ano de 2009, em relação à produção por hectare, puseram a nu o fato, por exemplo, de que o Brasil está na sofrível 37ª posição na produção de arroz, atrás de países como El Salvador, Peru, Somália e Ruanda.
No milho, ocupamos a 64ª posição. No trigo, um vexame, na 72ª posição. Na soja, o badalado carro-chefe do agronegócio brasileiro, um modesto 9º lugar, atrás do Egito, da Turquia e da Guatemala. Com relação ao boi, motivo de tanta soberba, de ostentação, de riqueza nas festas agropecuárias, ocupamos a humilde 48ª posição, atrás do Chile, do Uruguai e do Paraguai. (Confiram mais dados no substancioso artigo de Gerson Teixeira, Brasília, 19/5/11, “As Mudanças no Código Florestal: Alternativa para a Ineficiência Produtivista do Agronegócio”).
A produção agropecuária sofre pelos altos gastos devido ao viciado uso do fertilizante e do agrotóxico. Os dados da FAO atestam que, a partir de 2007, nos transformamos no principal país importador de agrotóxico do mundo. Como essa tecnologia, em geral, tem se revelado ainda ineficaz na sonhada superprodução, pensou-se logo na liberação de áreas cada vez maiores de terras destinadas à produção. Se não vencemos em tecnologia, somos imbatíveis no latifúndio. E, para a tranquilidade deste avanço predatório sobre o que resta de cobertura verde, buscou-se um instrumento garantido: justamente esse tal Código Florestal.
Apesar da complexidade deste tema, de pesadas consequências para o futuro da nossa terra, da nossa biodiversidade, dos recursos hídricos, da vida sustentável do solo, causou muita estranheza o fato destes legisladores não terem convidado em momento algum a nossa SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a ABC (Academia Brasileira de Ciências), o FBM (Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas) para os debates. Pois bem, aí está o desastroso resultado: saiu um Código elaborado por ruralistas a serviço de seus colegas ruralistas. Restou-nos, como disse Paulo Afonso Lemos, “um Código que não é claro, não é preciso, não é seguro”.
Mortes no campo
Em dezembro de 1988 caiu Chico Mendes, tal como uma pujante seringueira cortada pela raiz. No início de 2005, caiu a irmã Dorothy Stang, atirada pelas costas com a sua Bíblia na mão, sua pomba mensageira da Paz. Na manhã do dia 24 de maio deste ano, derrubaram o casal Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio Ribeiro da Silva, cuja orelha foi cortada pelos pistoleiros como prova do serviço feito. Logo em seguida, foi assassinado Eremilton Pereira, na mesma área. Supõe-se que tenha sido queima de arquivo por estar presente na hora do primeiro crime. Foi morto também Adelino Ramos, em Rondônia, um sobrevivente de Corumbiara.
Há uma lógica perversa por trás destas e de outras mortes, desde a morte de Zumbi dos Palmares e de Antônio Conselheiro de Canudos, até a morte de José Cláudio da Silva, de Nova Ipixuna. Esta lógica consiste na eliminação seletiva de lideranças vistas como obstáculo aos grandes projetos do agronegócio. A senadora Kátia Abreu, arvorando-se em advogada dos criminosos, declarou, no mesmo dia 24, que estas mortes se devem à invasão de terras. A senadora ou é desinformada ou foi leviana na sua fala. Ao contrário, eles são legítimos assentados do Incra. Mais ainda, são dois heróicos pioneiros da criação da reserva extrativista do Assentamento Praialta Piranheira, em 1997.
Fazendo coro conivente com a parlamentar ruralista, alguns deputados vaiaram o deputado José Sarney Filho quando este leu no plenário da Câmara a chocante notícia das mortes destes camponeses. A nota da Comissão da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para o serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, faz justiça aos assassinados, fornecendo-nos uma preciosidade, a saber, a declaração de José Cláudio, em um plenário de 400 pessoas reunidas para estudarem a qualidade de vida do planeta:
“Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito, por isso vivo com a bala na cabeça a qualquer hora porque vou pra cima, eu denuncio. Quando vejo uma árvore em cima do caminhão indo pra serraria me dá uma dor. É como o cortejo fúnebre levando o ente mais querido que você tem, porque isto é vida pra mim que vivo na floresta e pra vocês também que vivem nos centros urbanos.”
Em média, por ano, 2.709 famílias são expulsas de suas terras pelo poder privado e 63 pessoas são assassinadas no campo brasileiro na luta por um pedaço de terra! 13.815 famílias são despejadas pelo Poder Judiciário e pelo Poder Executivo por meio de suas polícias! 422 pessoas são presas por lutar pela terra!  765 conflitos acontecem diretamente relacionados à luta pela terra! 92.290 famílias são envolvidas em conflitos por terra!
Carlos Walter Porto Gonçalves, professor do programa de pós-graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao analisar anualmente os Cadernos de Conflitos no Campo da CPT, introduziu a preocupação com a geografia dos conflitos. Comparando e ponderando o número de conflitos com o número de habitantes na zona rural de cada Estado, trouxe à tona a importante constatação de que o aumento da violência acontece em função do desenvolvimento do agronegócio.
A violência não acontece, pois, só nas áreas do atraso, acontece, sobretudo, nos centros mais progressistas do país. “A violência”, diz ele, “é mais intensa nos Estados onde a dinâmica sociogeográfica está fortemente marcada pela influência da expansão dos modernos latifúndios (autodenominados agronegócio). É no Centro Oeste e no Norte que as últimas fronteiras agrícolas são conquistadas às custas do sofrimento e do sangue dos trabalhadores e dos que os apoiam” ( Caderno da CPT, 2005, pág. 185).
Diz ele: “O agronegócio necessita permanentemente incorporar novas terras e para isso lança mão de todos os mecanismos de que dispõe: os de mercado, os políticos e a violência”. A violência é parte essencial da história dos pobres da terra: índios, negros, camponeses. Ela, por sua vez, é alimentada pela impunidade, fenômeno sociopolítico conscientemente assimilado pela nossa instituição judiciária.
A CPT tem a famosa tabela dos assassinatos e julgamentos de 1985 a 2011:
Assassinatos:  1580.
Casos julgados: 91
Executores condenados: 73
Executores absolvidos: 51
Mandantes absolvidos: 7
Mandantes condenados: 21
Mandantes hoje presos:  1
Conclusão: de 1580 assassinados, só um mandante condenado se encontra na prisão! Esta é a medida da impunidade!
Encerrando esta análise da dupla violência do agronegócio, consubstanciada na violência contra a terra e na violência contra a pessoa humana, não posso deixar de destacar a contrapartida deste modelo, a saber, a nova busca do “cuidado” como lição que nos é dada pelos povos tradicionais. As comunidades indígenas vivem isto como algo que está profundamente entranhado na alma, leva-as a se entrosarem harmoniosamente com a Mãe Terra, a se entrosarem pessoas com pessoas, com a memória dos antepassados e com o próprio Deus.
A Terra, como se diz, está doente e ameaçada. Hoje, felizmente, vai se desenvolvendo a cultura ecológica que consiste no cuidado não só com o ser humano, mas com o planeta inteiro. O planeta não cuidado, como ensina Leonardo Boff, pode entrar num processo de enfermidade, diminuir a biosfera com consequências de que milhares vão desaparecer, não excluída a própria espécie humana.
Uma outra luz nos vem destes povos e de suas culturas. É o “bem viver”. É uma vida voltada para os valores humanos e espirituais e não presa às coisas, às riquezas, ao consumismo.
Na minha juventude, tive a chance de conviver com um grupo indígena, bem primitivo, no coração da Amazônia. Fiquei encantado ao descobrir, entre outras joias, que, na língua deles, não existe o verbo TER. Um povo que vive feliz e que, no entanto, não acumula. Gente que faz do necessário o suficiente. A melhor prova desta felicidade está na constatação da alegria espontânea das crianças. Elas são o melhor espelho do povo.
* Dom Tomás Balduíno é assessor da Comissão Pastoral da Terra, teólogo e bispo dominicano.
                                              

 

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Representantes da comunidade científica reafirmam que reforma do Código Florestal traz prejuízos ambientais
Publicado em julho 8, 2011
Representantes da comunidade científica deixaram um recado simples e direto no Senado Federal na manhã desta terça-feira (5): o texto de reforma do Código Florestal aprovado pela Câmara dos Deputados, que agora tramita no Senado, “traz prejuízos ambientais ao povo brasileiro”. “Em alguns trechos, os prejuízos são muito intensos”, afirmou o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Ricardo Rodrigues.
Ele foi um dos seis cientistas que representaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) em audiência no Senado para discutir a reforma do Código Florestal. A audiência se deu em sessão conjunta de duas comissões permanentes do Senado: a Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle e a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária.
A SBPC e a ABC divulgaram estudo no começo do ano – O Código Florestal e a Ciência, Contribuições para o Diálogo – em que fazem análise detalhada dos impactos que traria a reforma proposta, mas a análise não foi considerada no texto aprovado pela Câmara dos Deputados.
O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Antônio Donato Nobre disse que o estudo ajudou a derrubar a ideia de que as áreas de preservação permanente ocupam grandes áreas nas propriedades rurais. Segundo ele, o estudo mostrou que apenas 7% do total estão protegidos em APPs.
Nobre também salientou que as faixas de proteção da mata nativa às margens dos rios, da forma como estão estabelecidas no atual Código Florestal, ainda não atendem a necessidade orgânica de preservação. “O código atual não protege o brejo, por exemplo”, disse o pesquisador.
Os brejos, assim como os mangues, as várzeas e demais áreas úmidas, são importantes pela sua rica biodiversidade e pelas funções ecológicas. A biodiversidade das áreas úmidas inclui, por exemplo, os anfíbios, grupo no qual o Brasil é “vice-campeão” mundial e que mais vem sendo ameaçado pelas mudanças climáticas. Dentre as funções ecológicas das áreas úmidas estão a sua importância para o ciclo de vida aquática e como retardo de enchentes, com a retenção das águas.
O chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, Celso Manzatto, disse que o Código Florestal precisa enfrentar o que ele chamou de “nosso principal vilão”: a erosão de solos. “Este é o principal impacto decorrente da agricultura”, explicou o pesquisador aos senadores.
“Nossos solos levaram muitos milhares de anos para se formar. Perdê-los e deixar no seu lugar áreas degradadas, de baixa produtividade agropecuária deveria até ser considerado um crime contra o patrimônio nacional”, completa Claudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF.
Alguns ambientes e tipos de vegetação, como as localizadas ao longo dos corpos d’água e nas encostas mais íngremes, são particularmente importantes para evitar a erosão. “Devem ser protegidas pelo proprietário rural que também deve cuidar das terras com boas práticas como nivelamento do plantio, manutenção da biota do solo, rotação de culturas, cuidados com a drenagem etc”, explica Maretti.
A reforma do Código Florestal, em tramitação no Senado Federal, foi aprovada na Câmara dos Deputados em maio. O texto dos deputados contrasta com as críticas da comunidade científica, das organizações sociais e ambientais e da própria opinião pública, como demonstrou pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em junho. A pesquisa de percepção pública mostrou que a maioria da população não concorda com os principais pontos do texto. Para 85% dos entrevistados, a prioridade deve ser para a proteção das florestas e dos rios, e não para a produção agropecuária.
A pesquisa mostrou também que apenas 5% da população concordam com o perdão a desmatadores em relação à reposição da vegetação natural, mesmo que tenham derrubado florestas para produzir.
A população tampouco concorda com a proposta de anistiar as multas aplicadas. Uma das propostas do novo Código Florestal é que todos os proprietários de terra que desmataram ilegalmente até junho de 2008 fiquem isentos de multas e punições. O Datafolha perguntou se o entrevistado era “a favor ou contra que esses proprietários de terra sejam perdoados das multas”, e 79% das pessoas ouvidas disseram ser contra perdoar as multas.
O mesmo percentual de brasileiros também considera que se a anistia for aprovada pelo Congresso, a presidente Dilma deveria vetar o perdão.
A pesquisa mostrou, ainda, que os eleitores não estão dispostos a votar novamente em parlamentar que votar a favor da isenção de multas e de punições aos proprietários de terra que desmataram ilegalmente. Entre os entrevistados, 84% disseram que não votariam novamente nesses parlamentares.
A reforma do Código Florestal segue em tramitação nas comissões do Senado. Nesta quarta-feira, 6/7, está prevista mais uma audiência pública, desta vez na Comissão de Ciência e Tecnologia. Esgotada a fase de debates nas comissões, o projeto de lei irá à votação em Plenário. Os senadores esperam concluir o processo até o final do ano. Caso haja alterações no texto original, a matéria volta à Câmara para análise dos deputados.
“Esperamos que o Senado Federal ouça a sociedade e dê melhor espaço para discussões construtivas, baseadas no conhecimento científico, olhando para o bem do Brasil, que poderá ter um grande futuro como líder de um desenvolvimento verde, garantindo a produção de alimentos, mas buscando os melhores mercados, com produtos de alta qualidade sanitária e ambiental. Além disso, o Código Florestal serve a outros interesses da sociedade brasileira, como o potencial da exploração florestal sustentável, do ecoturismo, da defesa de nossa cultura e da minimização dos impactos pelos eventos climáticos mais drásticos”, conclui o líder da Iniciativa Amazônia Viva.
Link para o livro ‘Código Florestal e a Ciência‘ (no formato PDF)
Fonte: WWF Brasil

 

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20/6/2011 

Código Florestal: Aldo Rebelo e a visão míope do desenvolvimento e do agronegócio


por Erika Guimarães*
O artigo do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) na edição de 14 de junho da Folha de São Paulo é a revelação da manipulação de informações e da sua obtusa visão de desenvolvimento sob um mal estruturado discurso defensor da produção agropecuária brasileira.
1269 Código Florestal: Aldo Rebelo e a visão míope do desenvolvimento e do agronegócio
O debate sobre a revisão do Código Florestal é polêmico desde sua concepção, uma vez que envolve temas muito sensíveis como a produção de alimentos, o crescimento econômico e a conservação do nosso patrimônio natural. Mas não é possível ignorar dados concretos. Existem inúmeras evidências de que o gargalo para o aumento da produção no Brasil não é a expansão das áreas de produção, como defende o deputado em seu texto.
Atualmente o Brasil dispõe de 200 milhões de hectares para a produção de 200 milhões de cabeças de gado, com a altíssima média de um boi por hectare. Só para a soja, utilizamos hoje mais de 20 milhões de hectares. É importante a sociedade ter em mente que mais de 80% de toda a área plantada hoje no Brasil é destinada à produção de commodities, em especial carne bovina, milho e soja, que vão virar farelo para alimentar frangos e suínos nos Estados Unidos, China e Europa.
Como conseqüência, menos de 20% de tudo o que se planta no Brasil são alimentos, como mandioca, batata, hortaliças, frutas, e outros cultivos, que na sua maioria provém da agricultura familiar ou da pequena agricultura. Daí, vem a pergunta: as alterações o Código Florestal vão favorecer aos pequenos agricultores e a produção de alimentos? Os números me mostram que esse argumento não se sustenta. Afinal, a quem essas mudanças na alteração ao Código vão servir? Até que ponto elas vão ajudar a promover o desenvolvimento do nosso país?
O agronegócio, a meu ver o principal beneficiário dessa proposta, certamente tem um papel importante para o crescimento econômico do país e promove um impacto determinante na balança comercial brasileira. Porém, um olhar mais agudo e atento vai observar que toda essa produção não é isenta de impactos socioambientais. Um exemplo é a pequena oferta de emprego e a fragilidade das condições de trabalho relacionadas a muitas dessas atividades. A pecuária, por exemplo, é a atividade agropecuária que menos gera emprego: apenas um emprego a cada 500 hectares (lembra dos 200 milhões de hectares mencionados lá em cima?).
Quanto aos impactos ambientais, além da degradação e contaminação do solo – o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo! – uma questão central e que pouco tem sido discutida é a exportação da água virtual, isso é, os milhares de litros de água utilizados no processo produtivo que são exportados junto com as commodities e não são contabilizados nos custos de produção. Para se ter uma idéia, dados da UNESCO apontam que para produzir um quilo de carne são utilizados entre 14 a 16 mil litros de água. Para a soja a estimativa é de 2 mil litros de água para cada quilo produzido. Com esses números, fica fácil compreender porque no Brasil, mais de 50% de toda a água consumida tem origem na agricultura. Mais que o consumo industrial, que gira em torno de 24% e mais que o consumo urbano, que é da ordem de 22%. Com todo esse consumo, os aquíferos brasileiros começam a dar sinais de exaustão. E dentre as propostas aprovadas na revisão do Código Florestal, está exatamente a redução das Áreas de Preservação Permanente, dentre elas a redução das matas ciliares, que tem justamente a função de… proteger e “produzir” água. Não parece um tiro no pé?
Não há dúvidas de que a produção agropecuária brasileira precisa prosperar. Esse é um imperativo para todo o mundo. E o caminho que o Brasil deve escolher para fazer isso é aumentar a sua produtividade, isso é, produzir mais utilizando menos terra. Existem caminhos para isso. A Embrapa tem desenvolvido técnicas interessantes que demonstram que é possível aumentar a produtividade e o lucro, compatibilizando culturas, como no caso da integração lavoura-pecuária. Outro estudo recém pela ESALQ demonstra que produzir um pé de tomate em uma área completamente desmatada custa ao produtor R$ 5. Já o mesmo pé de tomate produzido em associação a uma floresta custa apenas R% 0,50. Como isso acontece? Simples: a presença da floresta melhora a qualidade do solo, da água e a oferta de polinizadores. Ou seja, os “serviços” que a floresta oferece ajudam a melhorar e a reduzir custos de produção.
Aldo Rebelo e muitos outros congressistas não conseguem enxergar que o próprio agronegócio é diretamente dependente da rica biodiversidade brasileira e dos serviços ambientais que ela nos oferece: solo, água, polinizadores, regulação do clima, controle das inundações, de doenças e pragas, e assim por diante. E quanto menos floresta, menores são as garantias de que a natureza vai continuar nos oferecendo esses serviços, fazendo com que, a longo prazo, a pujança desse mesmo agronegócio que eles defendem hoje, tenda a entrar em colapso no futuro.
O deputado menciona que “o Brasil perdeu mais de 23 milhões de hectares de agricultura e pecuária, em dez anos, para unidades de conservação, terras indígenas e expansão urbana”. Curiosamente, ele escreve isso no mesmo mês em que o Programa das Nações Unidas lançou um estudo dizendo que as 700 unidades de conservação brasileiras podem render ao país cerca de R$ 6 bilhões por ano, se forem bem implementadas. Qual negócio pode ser mais interessante para o Brasil?
Não podemos ainda ficar paralisados no discurso de que aos países desenvolvidos pouco importa o tamanho da nossa Reserva Legal ou da “metragem” da mata ciliar – como mencionou o deputado em seu artigo. Os países desenvolvidos não têm e nem nunca tiveram a riqueza biológica que um país “megadiverso” como o Brasil detém. A responsabilidade de pensar em um modelo de desenvolvimento econômico que valorize o agronegócio e outras atividades que respeitem o nosso patrimônio natural, que é a nossa maior fonte de riqueza, é nossa.
Anistiar quem desmatou, permitir o avanço do desmatamento sobre áreas sensíveis e diminuir a cobertura florestal das propriedades agrícolas significa não enxergar o verdadeiro valor e o potencial do nosso imenso patrimônio natural. Falta ao agronegócio a ousadia de buscar, investir e implantar técnicas para aumentar a produtividade e diminuir a demanda por novos desmatamentos.
Espero que a sociedade brasileira tenha um olhar mais sensível do que tiveram os nossos deputados para tratar dessa questão. Espero que a nossa sociedade se mobilize, se informe, se indigne e ajude a influenciar as próximas etapas desse processo!
* Erika Guimarães é bióloga, consultora na área ambiental, mãe do Théo, que tem dois anos e anda bastante preocupada com a possibilidade de o seu filho crescer sem poder conhecer o que é uma floresta…
** Publicado originalmente no site Agência Carta Maior.
(Agência Carta Maior)