http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=22928

 

8/6/2009

Indústria do fumo e do veneno. Entrevista especial com Sebastião Pinheiro
"A indústria do fumo é uma máfia", atesta o engenheiro agrônomo, engenheiro florestal e ex-analista do Laboratório de Resíduos de Agrotóxicos do Meio Ambiente, e funcionário do Núcleo de Economia Alternativa (NEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Confira a entrevista.
A IHU On-Line conversou, por telefone, com o agrônomo Sebastião Pinheiro, responsável, junto com outros pesquisadores gaúchos, pela pesquisa divulgada em 1996, que avaliava a relação entre o índice de suicídio, o cultivo de fumo no município de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul e os agrotóxicos. Pouco mais de dez anos depois de realizar um trabalho denunciando casos de suicídios na região, Pinheiro diz que novos estudos não chegaram a nenhuma conclusão, e relata que crianças em idade escolar, no município de Santa Cruz do Sul, até recentemente tomavam medicamentos para curar a depressão. Segundo ele, a justificativa para a aumento da doença na região é clara: os jovens “colhem fumo com as mãos, o veneno que está nas folhas da planta entra no corpo deles e provoca uma depressão”.
De acordo com o pesquisador, o negócio financeiro mais rentável, atualmente, é transformar petróleo em medicamento ou veneno. “Não é possível, através de remédios, fazer com que toda uma população fique doente, mas é fácil criar uma agricultura deficiente”, alerta. A invasão dos agrotóxicos não se restringe apenas à agricultura. Sebastião Pinheiro conta que, no Rio de Janeiro, estão vendendo uma mistura tóxica conhecida como “chumbinho”, que tem na sua base um dos inseticidas mais perigosos do mundo, o TEMIK. “Os traficantes misturam esse TEMIK com cocaína, e essa combinação faz o efeito do tóxico aumentar muito. A pergunta é: Misturar veneno com cocaína é um conhecimento que traficante, analfabeto tem condições de saber? De onde vem essa ideia? Não será de uma fábrica gigantesca?”, questiona.
O pesquisador enfatiza ainda que o “índice de envenenamentos, de nascimento de crianças com distúrbios neurológicos, com alterações hormonais chamados de disrupção endócrina, é a maior catástrofe que existe nesse planeta fora a contaminação dos alimentos, dos rios”.
Sebastião Pinheiro é engenheiro agrônomo, engenheiro florestal e ex-analista do Laboratório de Resíduos de Agrotóxicos do Meio Ambiente, e funcionário do Núcleo de Economia Alternativa (NEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O senhor participou de uma pesquisa em 1996 que advertia, entre outras coisas, que o uso de agrotóxicos pela indústria do fumo induzia a suicídios no município de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. Como está a questão atualmente?
Sebastião Pinheiro – Após aquela pesquisa inicial, o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ) financiou um novo estudo com médicos e doutores, da qual eu não participei. Nessa análise, eles fizeram alguns levantamentos e, ao que me consta, não chegaram a nenhuma conclusão. Suicídio não tem uma origem única, cartesiana, direta; ele pode ter uma série múltipla de fatores. Assim, um grupo de médicos não tem condições de analisar alterações no campo eletromagnético de pessoas expostas a praguicidas ou agrotóxicos. No momento em que eles não têm capacidade de avaliar isso, o resultado do trabalho não condiz com a realidade.
Hoje, sabemos que a maioria dos agrotóxicos altera o campo eletromagnético das pessoas, levando a uma série de fatores, entre eles a pré-disposição ao suicídio. No entanto, se analisarmos qualquer documento, seja ele civil ou militar, percebemos que uma das causas mais importantes é a depressão causada pela intoxicação, a qual desencadeia os suicídios. Como o assunto é complexo, necessitaria uma equipe multidisciplinar com amplo conhecimento de venenos para investigar o caso. Entretanto, não há, no hemisfério sul, nenhuma equipe com esse gabarito. 
Fumageiras no RS
Em Santa Cruz do Sul, a prefeitura tinha, até recentemente, um serviço de dar às crianças remédios faixa-preta. Crianças com idade escolar não podem tomar esses medicamentos. Por que os jovens do município têm depressão? Porque eles colhem fumo com as mãos. O veneno que está nas folhas da planta entra no corpo deles e provoca uma depressão; a nicotina por si só já é um depressivo. As empresas de agrotóxicos conseguem derrubar um presidente em algumas horas. Então, não podemos ser ingênuos e pensar que esses assuntos serão esclarecidos rapidamente.  
IHU On-Line – Que fatores favorecem a contaminação através de agrotóxicos?
Sebastião Pinheiro – No Rio Grande do Sul, existem duas grandes bacias hidrográficas. Quase toda a água que chove sob o estado vai para a Bacia do Jacuí ou para a Bacia do Ibicuí. Assim, os herbicidas, inseticidas e fungicidas contaminam as pessoas, primeiramente através da água. Além disso, a contaminação se dá também pelo ar e, pior ainda, através dos alimentos ingeridos. Quando comemos, estamos ingerindo resíduos tóxicos de elementos aplicados no campo, e esses resíduos chegam um milhão de vezes mais tóxicos nos alimentos do que quando aplicados na agricultura. Isso acontece porque a molécula química sofre uma alteração pela luz do sol, pela oxidação química, pelo calor etc. Então, o veneno utilizado nas lavouras se transforma em uma substância mais perigosa.
IHU On-Line - Há quanto tempo somos contaminados por essas substâncias?
Sebastião Pinheiro – Os primeiros venenos foram inventados na Europa e começaram a ser utilizados a partir de 1900. Eles foram inventados para serem usados nas guerras e também para matar pragas, ou seja, começaram a ganhar destaque a partir da Primeira Guerra Mundial. Com isso, a atividade militar passou a ser uma atividade civil.
O negócio mais rentável, atualmente, é transformar petróleo em medicamento ou veneno. Não é possível, através de remédios, fazer com que toda uma população fique doente, mas é fácil criar uma agricultura deficiente. Assim, o negócio financeiro do veneno é muito mais importante e rentável do que o do remédio. Todos os países precisam ter um estoque de armas químicas, e ele é obtido mais barato conforme mais veneno se usa. Essa é uma questão econômica. Por isso, todos os países procuram ter um complexo industrial para fabricação de armas químicas.
Quando Saddam Hussein brigou com Bush, os americanos foram buscar no Iraque fábricas de veneno, vendidas em 1981 pelos alemães. Se fosse uma coisa criminosa, os alemães não teriam vendido. Venderam porque ganharam seis bilhões de dólares e depois ainda invadiram o país. Então, essas questões de agrotóxicos são estratégicas do ponto de vista econômico, político e ideológico.
Contaminação no Brasil
O rio mais importante do Brasil, Paraíba do Sul – entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais –, está localizado na maior área de PIB do país, pois nessa região se concentram grandes empresas. Há um mês, caíram 300 mil litros de um veneno proibido em todo o mundo, chamado Ensosulfan. Essa informação não saiu na grande imprensa porque as empresas de veneno não deixam que isso venha a público. Nessa região extremamente estratégica, quantas pessoas estão tomando água contaminada? Quantos casos de câncer e leucemia irão existir? Mas esses questionamentos não representam um problema para a indústria do agrotóxico; pelo contrário, é lucro, porque a mesma empresa que faz o veneno fabrica o antídoto e vende o tratamento de desintoxicação.
Hoje, no Rio de Janeiro, estão vendendo um tal de “chumbinho”, um inseticida chamado Temik, um dos mais perigosos do mundo. Os traficantes misturam esse Temik com cocaína, e essa combinação faz o efeito do tóxico aumentar muito. A pergunta é: Misturar veneno com cocaína é um conhecimento que traficante, analfabeto tem condições de saber? De onde vem essa ideia? Não será de uma fábrica gigantesca?
O problema do uso de venenos, hoje, é mil vezes pior do que em 1980, quando não existia lei. Isso porque vivemos uma ditadura econômica, e antes havia uma ditadura militar. Naquela época, os generais eram gerentes das fábricas de agrotóxicos e ganhavam propina sobre as vendas. Atualmente, a comercialização está aumentando de 12 a 15% ao ano. Qual é a função desse crescimento? É por necessidade ou por que é um negócio sem controle?
IHU On-Line – Como e onde são feitos os testes com agrotóxicos? Os países subdesenvolvidos estão mais susceptíveis a contaminação?
Sebastião Pinheiro – A Suíça, um país extremamente rico, tem a primeira maior empresa de agrotóxicos do mundo, chamada Ciba-Geigy. Essa companhia, na década de 80, utilizou crianças latino-americanas como cobaias para testar um agrotóxico comprovadamente causador do câncer em seres humanos. Na Suíça – já estive lá –, existe um movimento muito forte de jovens e ambientalistas para que as empresas não usem animais em pesquisas laboratoriais. Não querem usar animais, mas utilizam crianças. Eu estava na Alemanha quando isso foi denunciado, e o gerente da empresa suíça disse que, a partir daquele momento, as pesquisas deles não usariam mais papel timbrado, porque os relatórios foram feitos nesses papéis e ali estavam registradas todas as pesquisas feitas com crianças na América Latina.
Os venenos deixaram de ser utilizados em grandes quantidades na Europa, e os europeus, a partir de 1970, passaram a transferir todas as fábricas de agrotóxicos do território europeu e norte-americano para a Índia, Brasil, Argentina, o México e a China. As empresas montaram as mesmas fábricas em países periféricos. Os governos corruptos brasileiros aceitam essas empresas, oferecem terrenos e condições para que elas funcionassem aqui. Com dinheiro público, foi instalada em Camaçari, Bahia, uma fábrica de herbicidas.
Um grupo de pessoas que não tem um objetivo para seus filhos e netos não forma um país, uma sociedade; é um grupo de bandoleiros que espera para levar vantagens. O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo, o mais rentável.
Danos à saúde
O desastre que aconteceu em Bhopal, na Índia, em 05 de dezembro de 1984, revela o perigo que os agrotóxicos representam para a sociedade. Nessa data, cerca de 40 toneladas de metil isocianato e outros gases letais vazaram da fábrica de agrotóxicos da Union Carbide Corporation, e mais de 15 mil pessoas foram intoxicadas. Durante mais de 10 anos, as crianças nasceram sem o globo ocular.
O índice de envenenamentos, de nascimento de crianças com distúrbios neurológicos, com alterações hormonais chamados de disrupção endócrina, é a maior catástrofe que existe nesse Planeta, fora a contaminação dos alimentos, dos rios. No fundo do oceano Atlântico, existem 120 milhões de toneladas de DDT depositadas na lama. Hoje, não existe um ser vivo que não tenha em suas células resíduos de DDT. Não há leite materno que não tenha DDT - essa substância é o maior causador de câncer de próstata e de mama. Sempre que denunciei isso, fui levado para o FMI ou punido pelo Ministério da Agricultura; segundo eles, eu era contra o progresso.
IHU On-Line - Na cultura do fumo, qual é a média de agrotóxicos utilizada nas lavouras?
Sebastião Pinheiro – Em um ano de muita seca, há cerca de 10 anos, se chegou a utilizar 30 quilos de agrotóxicos por hectare, e alguns dados dizem que já se utilizou 100 quilos por hectare.
Fumo é um cultivo muito raro e um dos mais recentes do mundo, e não existia antes de 1452. Cristovão Colombo, quando chegou a América, descobriu uma coisa rara: os índios cultivavam uma planta que secavam, enrolavam, faziam o charuto, fumavam e ficavam muito relaxados. Imediatamente, sementes foram levadas para a Espanha. A partir daí, a cultura do fumo é uma cultura que  passa a ser oferecida pela Coroa Espanhola. Como o negócio do fumo virou um vício, os ingleses também queriam dominar esse comércio. Então, a Inglaterra invadiu a colônia Espanhola na América do Norte e instalou uma colônia de imigrantes para plantar fumo. Hoje, todo o negócio do fumo pertence à Coroa Inglesa, que aluga a terra de forma barata, e não paga o que deveria. Além disso, tem no agricultor uma pessoa descartável e que, quando fica doente, joga fora. Empresas como a Souza Cruz são fachada. O maior negócio do mundo é vender fumo, porque esse é um narcótico legalizado.
Aqui no Brasil, quando um agricultor quer plantar fumo, ele é obrigado a ir a uma empresa fumageira, e a comprar a semente, o fertilizante e o agrotóxico dessa companhia. Além disso, precisa a entregar toda a sua produção. Além do mais, deve pedir um crédito no Banco do Brasil em nome da fumageira, que recebe esse crédito e o revende ao agricultor.
IHU On-Line – Como compreender que a indústria fumageira seja apontada como modelo de tecnologia e ao mesmo tempo exponha os trabalhadores desse ramo a péssimas condições de trabalho?
Sebastião Pinheiro – Quando vejo essas informações na mídia, fico assustado. Qual é o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, onde se cultiva fumo? Eles não estão entre os cem primeiros, porque toda a riqueza criada pelo fumo não é uma riqueza que se divide entre a população, em desenvolvimento social e humano. Isso é uma forma de roubo concedido. 73% de um maço de cigarro são impostos federais. Então, o maior beneficiário disso é o governo na arrecadação de impostos. Por isso, administrações como a de Yeda Crusius estão subordinadas a essas empresas. As fumageiras são as responsáveis no Brasil por todo o contrabando de fumo. Existem empresas aqui que foram compradas com dinheiro da primeira Guerra do Golfo.
Plantações no RS
No Rio Grande do Sul, existem 500 mil plantadores de fumo. As taxas de juros seriam baixas se esses agricultores se reunissem e tirassem um empréstimo só, como a Souza Cruz faz. No momento em que a Souza Cruz é responsável por esse intermédio, ela fica com parte das taxas, ou seja, ganha dinheiro ao revender o crédito. As empresas de fumo arrecadam com antecedência os impostos, mas, para isso, exigem que o banco dê crédito para seus agricultores plantarem o fumo. Então, eles oferecem o pagamento do imposto adiantado e abatem o valor das taxas sobre esse pagamento. Isso não é democrático, mas tributariamente é legal. 

A Souza Cruz, no passado, comprava 18 navios de agrotóxicos da Alemanha. Ela não pagava taxa nenhuma e vendia o produto a preço de varejo. Quanto ela ganhou? De 400 a 600% sobre a venda. Isso mostra que o negócio do fumo é financeiro. No entanto, não existe um centro nacional de pesquisa sobre esse produto. A Embrapa tem centros de pesquisas sobre vários produtos, menos de fumo. Por quê? É proibido! É proibido nas faculdades de agronomia se estudar esse modelo de cultivo.
IHU On-Line - Como a lavoura do fumo e o uso de agrotóxico que ela exige  ajudam a solidificar a monocultura e extinguir a agricultura familiar?
Sebastião Pinheiro – O cultivo do fumo é muito débil, cada pé da planta chega a 1,80 de altura e necessita de um cuidado fantástico. Além disso, esse plantio precisa de uma mão-de-obra gigantesca. Uma família rural com dez pessoas não pode tomar conta de mais de 30 mil pés de fumo. O trabalho é maciço, é preciso cuidar de pé por pé para que não nasça inço. Como necessita de uma grande quantidade de mão-de-obra, a indústria do fumo destrói a agricultura familiar, porque o agricultor familiar é obrigado a plantar tudo que necessita. O agricultor do fumo, por sua vez, não pode ter outros cultivos dentro da sua propriedade, porque a fumageira não permite. Então, esse homem passa a ser um assalariado na área rural. Ele trabalha na terra, é dono dela, mas o vínculo que tem com essa terra é de salário. Descendentes de plantadores de fumo não querem dar continuidade a essa atividade e saem da propriedade para trabalhar de operário em uma fábrica de calçados. O modelo econômico das fumageiras é uma das causas incidentes dos suicídios.
IHU On-Line – Que percentual de terras do estado é destinado a esse plantio?
Sebastião Pinheiro – Um terço dos municípios do Rio Grande do Sul tem áreas plantadas de fumo. Planta-se fumo no estado em aproximadamente 200 municípios; desses, alguns plantam de 30 a 40% da área de todo o município. Por volta de 1960, a Rodésia, uma região da África no período da colonização, tinha um regime racista e não permitiam que os negros vivessem no país. Hoje, a região da Rodésia em que existia fumo se transformou em Zimbábue, Zâmbia, Uganda. Essa gente emigrou porque os árabes passaram uma moção às Nações Unidas dizendo que, em função do racismo, nenhum país poderia comprar fumo da Rodésia. Por isso, houve uma grande migração de capitais ingleses da Rodésia para o Brasil, que passou a produzir fumo principalmente no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná.
IHU On-Line - O que mais choca nesse tipo de trabalho?
Sebastião Pinheiro – O mais dramático é o trabalho final. O ponto mais grave é que, depois de plantar o fumo, precisa secá-lo num forno e isso obriga as pessoas a trabalharem dia e noite. Não podem dormir, porque qualquer descuido pode incendiar toda a produção. Outro problema dramático é a venda. Quem determina a qualidade e o preço do produto são as fumageiras. Elas fazem uma pesquisa e averiguam como está a produção em outros países. Então, alteram a classificação aqui no Brasil. Todo o fumo de alta qualidade é comprado como de segunda categoria para aumentar a margem de lucro delas, que ganham sobre o trabalho dos agricultores. Então, a concentração de suicídios nos municípios é sempre próxima à comercialização da safra, logo depois da colheita. O trabalhador imagina que irá receber por uma classificação máxima, e recebe menos. Assim, se acha incompetente e acaba se suicidando. A indústria do fumo é uma máfia.

Para ler mais:

 

Lisa P. Jackson, Administrator
U.S. Environmental Protection Agency
Ariel Rios Building
1200 Pennsylvania Avenue, N.W.
Washington, DC 20460

Jan 5, 2010

 

Cara Diretor Sra. Lisa Jackson:

 

Escrevemos-lhe como organizações que representam família de agricultores, trabalhadores rurais e pessoas preocupadas quanto à integridade científica nos processos de registro.

Estamos fortemente preocupados quanto à segurança do herbicida atrazina e como a Syngenta, sua fabricante original nos EUA, continua a promover seu emprego junto aos agricultores como completamente seguro. Estamos também preocupados a respeito da manipulação da Syngenta no processo de seu registro.

Muitos agricultores membros das organizações abaixo firmadas usam herbicidas e agrotóxicos como parte de suas operações agrícolas. Muitos trabalhadores rurais trabalham em propriedades onde estas substâncias químicas são aplicadas. Eles confiam de que a USEPA utiliza no registro de agrotóxicos um processo transparente e guiado pela ciência e coloque a proteção da saúde humana e no ambiente acima dos interesses de lucro das corporações. Fazendeiros, trabalhadores rurais e suas famílias podem estar entre os primeiros a serem lesados quando agrotóxicos não seguros são aprovados por sua Agência.

Não acreditamos que a corporação Syngenta pode legitimamente declarar que representa os interesses dos agricultores. Como o maior fabricante mundial de agrotóxicos, inseticidas e herbicidas, e um dos maiores fornecedores de sementes, a Syngenta adotou uma estratégia de realização de seus lucros que muitas vezes se fundamenta no aumento dos preços aos agricultores e na integração vertical. Sua trajetória é uma das que seleciona fortemente seus interesses em longo prazo do que o bem-estar das famílias dos agricultores.

A atrazina é um dos agrotóxicos mais comumente detectado no solo e nas águas superficiais dos EUA. Um programa monitorado coordenado pela USEPA em 10 estados entre 2003 e 2005 detectou que 94 dos 136 sistemas de fornecimento público de água testados apresentavam concentrações de atrazina acima dos padrões federais de água potável de 3 partes por bilhão (ppb) em suas águas não tratadas por pelo menos um período de 90 dias. (1)

Herbicidas precisam ser projetados para permanecer nos campos. Esta contaminação dispersa indica um problema com esta substância, não como ela é aplicada. Além disso, é preocupante que um vasto e crescente volume de pesquisas científicas demonstrem que a atrazina está conectada com defeitos no nascimento, câncer de mama, câncer de próstata e outras preocupações sobre a saúde humana. (2)

Os antecedentes da Syngenta na questão da atrazina são preocupantes.

Alguns dos eventos que considerados os mais notórios incluem:

  • Em 2003, enquanto a atrazina estava sendo revista pela USEPA, a Syngenta participou em aproximadamente 50 encontros a portas fechadas com os regulamentadores da própria EPA. Estes encontros não foram anunciados publicamente e os documentos sobre os encontros foram somente tornado públicos depois que o Natural Resources Defense Council moveu uma ação judicial. (3)
  • A Syngenta tentou impedir a publicação de pesquisa científica conduzida pelo Dr. Tyrone Hayes, que mostrou que a atrazina mesmo em dose em baixos níveis que feminizam sapos e age como um disruptor endócrino. (4)
  • Os estudos financiados pela Syngenta e submetidos em 2003 para o Painel de Assessoria Científica da EPA sobre os efeitos da atrazina sobre anfíbios foram identificados como imprecisos e imperfeitos. (5) – Pesquisas publicamente financiadas devem ter uma consideração acurada.  
  • Trabalhadores homens na fábrica da Syngenta em Lousiana onde a atrazina é fabricada experimentaram um aumento significativo  nos níveis de câncer de próstata. (6)

 

Estamos extremamente encorajados de que o USEPA, sob sua direção, está reexaminando a atrazina e abriu oficialmente uma nova revisão. Para assegurar a integridade do processo e refazer a confiança dos agricultores nos esforços da Agência, nós fazemos as seguintes solicitações.

  • Que o processo seja 100% transparente. Não deve ser haver encontros a portas fechadas de nenhum tipo, especialmente com representantes da indústria. Sumariar todas as interações entre a USEPA e os envolvidos neste tópico possam ser incluídos na memória oficial (ou seja, a súmula) e tornada acessível e pública.
  • Pesquisas financiadas pela Syngenta sejam desconsideradas no processo de revisão. As pesquisas que a corporação submeteu no passado estavam profundamente falhas e dificultaram a chegada da melhor decisão. Trabalhos científicos financiados por recursos  públicos e por peer reviewed devem ser considerados prioritariamente.
  • Todas as pesquisas científicas de suporte ao registro contínuo da atrazina devem ser disponibilizadas para o escrutínio público ou desconsideradas. À Syngenta e às outras registrantes da atrazina não deve ser permitido esconderem dados críticos originários de análise científica independente, por alegadas "informações comerciais confidenciais." Por uma questão de transparência e garantir a confiança dos agricultores e trabalhadores rurais em suas decisões, USEPA só deve recorrer a estudos que estiverem disponíveis ao público.
  • Se depois da revisão os aspectos científicos indicarem que é a atrazina representa uma ameaça à saúde humana e do ambiente, a USEPA deve tomar medidas rápidas e claras para proteger os agricultores e o público em geral.

 

Nossa saúde – e mais importante, a saúde de nossas crianças e dos filhos de nossos filhos - arcará com as conseqüências de sua decisão. Obrigado por sua consideração de nossos pontos de vista.

 

Sinceramente,

 

Mark Schultz
Policy and Organizing Director
Land Stewardship Project
821 E. 35th Street, Suite 22
Minneapolis, MN 55407

Kathryn Gilje
Executive Director
Pesticide Action Network North America
49 Powell Street #500
San Francisco, CA 94102

Hugh Espy
Executive Director
Iowa Citizens for Community Improvement
Chris Petersen
President
Iowa Farmers Union

Paul Willis
Manager
Niman Ranch Pork Company
Lorette Picciano
Executive Director
Rural Coalition/Coalición Rural

Dan Nagengast
Executive Director
Kansas Rural Center

John Peck
Executive Director
Family Farm Defenders

Tirso Moreno
General Coordinator
Farmworker Association of Florida, Inc.

Melissa Hughes
General Counsel
CROPP Cooperative/Organic Valley

Rudy Arredondo
President/CEO
National Latino Farmers & Ranchers Trade
Association

Wes King
Policy Coordinator
Illinois Stewardship Alliance

James Ennis
Executive Director
National Catholic Rural Life Conference

Ron Doetch
President
Michael Fields Agricultural Institute

Holly Waddell
Chairperson
Dakota Rural Action

Georgia Good
Executive Director
Rural Advancement Fund

___________________________________
1. Mae Wu et al., Poisoning the Well: How the EPA is ignoring atrazine contamination in surface and drinking water in Central United States, (San Francisco, CA: Natural Resources Defense Council, 2009), http://www.nrdc.org/health/atrazine/default.asp (accessedDecember 4, 2009).
2. a) Jennifer Sass and Paul Brandt-Rauf, “Cancer Incidence Among Triazine Herbicide Manufacturing Workers,” Journal of Occupational and Environmental Medicine. Vol. 45, No. 4 (April 2003), 343-344 b) M.A. Kettles, et al., “Triazine exposure and breast cancer incidence:An ecologic study of Kentucky counties,” Environmental Health Perspectives, Vol. 105, No. 11 (1997), 1222-1227 c) R. Munger, et al,“Intrauterine growth retardation in Iowa communities with herbicide-contaminated drinking water supplies,” Environmental Health Perspectives. Vol. 105, No. 3 (March 1997), 308–314 d) T.E. Arbuckle, et al., “An exploratory analysis of the effect of pesticide exposure
on the risk of spontaneous abortion in an Ontario farm population,” Environmental Health Perspectives, Vol. 109, No. 8 (2001), 851-857 e) S. Swan, et al., “Semen quality in relation to biomarkers of pesticide exposure,” Environmental Health Perspectives, Vol. 111, No. 12 (September 2003): 1478-84 f) Also see: Land Stewardship Project and Pesticide Action Network North America, The SyngentaCorporation & Atrazine: The Cost to the Land, People & Democracy, (January 5, 2010), 17.
3. Jennifer B Sass and Aaron Colangelo, “European Union Bans Atrazine, While the United States Negotiates Continued Use,” International Journal of Occupational and Environmental Health, Vol. 12, No. 3 (July/September 2006): 260. 4. a) Tyrone Hayes, Presentation at Land Stewardship Project event, (Minneapolis, MN: LSP, October 10, 2007) b) Goldie Blumenstyk, “The Story of Syngenta & Tyrone Hayes at UC Berkeley: The Price of Research,” The Chronicle of Higher Education, October 31, 2003,
www.mindfully.org/Pesticide/2003/Syngenta-Tyrone-Hayes-31oct03.htm (accessed November 29, 2009) c) Gitanjali Deb, “Atrazine: A Case Study in the Difference Between Regulation of Endocrine Disrupting Chemicals in the EU and the US,” Temple Journal Of Science,Technology and Environmental Law Vol. 25 No. 2 (Fall 2006).
5. Rick Weiss, “ ‘Data Quality’ Law is Nemesis of Regulation,” Washington Post, August 16, 2004, http://www.washingtonpost.com/wpdyn/articles/A3733-2004Aug15.html (accessed December 2, 2009).
6. Jennifer Sass and Paul Brandt-Rauf, “Cancer Incidence Among Triazine Herbicide Manufacturing Workers,” Journal of Occupationaland Environmental Medicine, Vol. 45, No. 4 (April 2003), 343-344.

 

Tradução livre de Luiz Jacques Saldanha, Janeiro de 2011.

 

http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2011/01/22/65503-futuro-de-vinicolas-do-planeta-depende-de-novas-variedades-de-uva.html

 

Futuro de vinícolas do planeta ‘depende de novas variedades de uva’

Por clipping

O futuro das vinícolas do mundo depende do desenvolvimento de novas variedades de uvas, dizem cientistas. E, segundo eles, mapas do genoma da uva poderão ser úteis nesse sentido. Pragas que atacam as plantações são um problema constante para vinicultores. Ainda assim, novas leis deverão proibir o uso de certos pesticidas.
Pesquisadores americanos mapearam o genoma de mais de mil amostras de uvas. Em artigo publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS), os especialistas dizem que esse tipo de conhecimento abre caminho para a criação de variedades de uva resistentes a doenças.
As variedades de uva cujo vinho nós gostamos de beber – merlot, chardonnay, semillon ou riesling, por exemplo – foram, de maneira geral, desenvolvidas a partir de uma espécie, a Vitis vinifera.
Acredita-se que esta uva tenha sido “domesticada” há cerca de cinco mil anos, em uma região próxima do que hoje é a Turquia.
Desde então, a espécie se tornou o pilar da fabricação do vinho em lugares tão distantes um do outro como Austrália, Chile, Estados Unidos e África do Sul.
A Vinifera foi manipulada para produzir centenas de variedades, pretas e brancas, mas as uvas pertenciam à mesma espécie, com poucos cruzamentos entre variedades diferentes.
“[Cruzamentos entre diferentes variedades] parecem ter sido feitos em grau extremamente limitado”, disse Sean Myles, principal autor do estudo. “Quando encontramos bons cultivos que funcionavam para nós, passamos a adotá-los e eles se tornaram alvos para patógenos (organismos causadores de doenças)”, disse Myles à BBC.
Myles trabalha na Stanford University School of Medicine, na Califórnia, mas desenvolveu esse projeto na Cornell University, em Nova York.
Fungicidas – As uvas viajaram da Europa para o mundo. As pragas, por sua vez, viajaram na direção oposta. Uma delas, o míldio da videira, por exemplo, surgiu na América do Norte.
As uvas vinifera não têm resistência natural contra essa praga. Só na Austrália, o combate a ela custa por volta de US$ 100 milhões por ano. O dinheiro é gasto em fungicidas usados para proteger as videiras.
Nos Estados Unidos, 70% dos fungicidas usados na agricultura são borrifados nas plantações de uva.
Mas à medida que a União Europeia – que produz 70% do vinho do mundo – tenta melhorar o impacto negativo do seu setor agrícola sobre o meio ambiente, o bloco tenta reduzir também o uso dessas substâncias químicas.
Por exemplo, uma proposta da Comissão Europeia em consideração no momento restringiria o uso de pesticidas em culturas ‘não essenciais’ a partir de 2013.
Cientistas de várias instituições vêm tentando desenvolver novas variedades de uvas que sejam imunes a infecções, seja por meio de cruzamentos com espécies resistentes ou através da manipulação de genes que tornam as plantas suscetíveis a infecções.
Mas técnicas convencionais de cruzamento custam caro e dão muito trabalho. As novas plantas demoram entre três e quatro anos para dar frutos. Só então o vinho pode ser feito, provado e avaliado para que os vinicultores decidam se o produto é viável. Mesmo quando o vinho é aprovado, não há garantia de que o consumidor vai gostar do novo produto em relação às suas variedades preferidas.
A equipe de especialistas mapeou os genomas de mais de mil amostras de uvas, associando a presença de “marcadores” genéticos (sequências de DNA) a traços como acidez, quantidade de açúcar ou resistência a doenças.
“Se você conhece os marcadores genéticos associados a essas características, pode plantar mudas, analisar seus DNAs assim que obtiver o primeiro fragmento de folha e dizer, por exemplo: vamos manter esses cinco porque sabemos que seus perfis genéticos estão associados aos traços em que estamos interessados”, disse Myles. “Isso vai economizar uma quantidade imensa de tempo e dinheiro”.
“Você precisa ter dados de genomas de muitas plantas individuais”, acrescentou. “Por outro lado, isso está ficando cada vez mais barato, então, comparado ao método que usamos, você pode fazer a mesma coisa cem vezes mais barato”.
Embora fatores comerciais tendam a fazer da produção de vinhos uma profissão conservadora, ele disse que a mudança precisa acontecer.
“Não podemos apenas seguir usando as mesmas variedades de cultivo nos próximos mil anos”. A boa notícia é que mais experimentação deve, em princípio, resultar em uma variedade maior de vinhos.
(Fonte: G1)

http://noticias.ambientebrasil.com.br/exclusivas/2011/01/20/65416-registro-de-defensivos-agricolas-para-a-mandioca-comeca-a-se-concretizar.html

Registro de defensivos agrícolas para a Mandioca começa a se concretizar

Por ambientebrasil
O registro de herbicidas, inseticidas e fungicidas utilizados nas lavouras de mandioca começa a se concretizar com o compromisso assumido por indústrias fabricantes desses itens de legalizar suas formulações para o setor. O comprometimento das empresas começou a ser solidificado em reunião realizada na última sexta-feira, dia 14, na sede da Andef (Associação Nacional de Defesa Vegetal), com a participação de técnicos, produtores de mandioca; empresas revendedoras; indústrias processadoras de mandioca; pesquisadores; e, membros do Governo.
Após o encontro, a Sumitomo Chemical do Brasil Ltda. já encaminhou à Comissão Técnica de Registro de Agrotóxicos para Mandioca ofício assumindo compromisso de registrar a mandioca nas instruções de uso de três de suas formulações para o setor. A Iharabras S.A. Indústrias Químicas e a Syngenta Proteção de Cultivos Ltda., se comprometeram, verbalmente, que encaminhariam os registros de seus produtos. O encontro contou, ainda, com a participação das indústrias Dow AgroSciences Industrial Ltda; Monsanto do Brasil Ltda.; Bayer CropScience; e, Basf S.A. que também assumiram compromisso de levar o assunto para suas empresas, afim de definirem os registros dos itens que fabricam para a cultura.
A Comissão Técnica, constituída em reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Mandioca e Derivados, realizada em Brasília, no dia 19 de novembro do ano passado, que é coordenada pelo Pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas – BA), Rudiney Ringenberg, se comprometeu a protocolar os pedidos de extensão de LMR (Limite Máximo de Resíduo) para agrotóxicos até o meio do mês que vem, e a repassar às indústrias informações sobre os dados produtivos da mandioca, bem como, área plantada (o que já foi feito). Além disso, se responsabilizou por negociar junto às fabricantes a necessidade de novos encontros que objetivem a regularização de seus produtos.
A busca pela regulamentação dos defensivos agrícolas para a mandioca vem de longa data – entre 15 e 20 anos – sendo que o setor produtivo conta com poucos produtos registrados para o controle de insetos, pragas e plantas daninhas. A regulamentação possibilitará ao produtor, conforme o Diretor da ABAM (Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca), Helio Minoru Oyama, a minimização de custos de produção e de  perdas resultantes de plantios nos sistemas convencionais de cultivo da raiz. Também favorecerá a produção integrada, fundamentada em boas práticas agrícolas, e, a redução dos impactos ambientais, propiciando maior ganho socioeconômico ao setor produtivo.
A Comissão Técnica de Registro de Agrotóxicos para Mandioca conta com integrantes do Instituto Agronômico de Campinas, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, Instituto Agronômico do Paraná, Cooperativa Agroindustrial do Noroeste Paraense, Yoki Alimentos, C. Vale Cooperativa Agroindustrial, Cooperativa dos Produtores de Amido Modificado de Mandioca do Estado da Bahia, Associação dos Produtores de Mandioca do Noroeste do Paraná, e, Associação Técnica das Indústrias de Mandioca do Oeste do Paraná. Conta, também, com apoio das Câmaras Setoriais da Mandioca e Derivados dos Estados do Paraná e Santa Catarina.
Jornalista responsável: Silvana Porto – Mtb 6.716

http://www.ecodebate.com.br/2011/01/25/ibama-lanca-o-primeiro-relatorio-sobre-comercializacao-de-agrotoxicos-no-pais/

Ibama lança o primeiro relatório sobre comercialização de agrotóxicos no país

Ibama lança o primeiro relatório sobre comercialização de agrotóxicos no país
A partir de 2008 o Brasil assumiu o posto de maior mercado consumidor de agrotóxicos no mundo. As vendas do produto somaram U$$ 7, 125 bilhões, diante U$$6, 6 bilhões do segundo colocado, os Estados Unidos, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag). O uso de agrotóxicos é parte fundamental do modelo agrícola que apresenta elevados índices de produtividade. Seu impacto social e ambiental demanda constante preocupação por parte da sociedade, esclarece o texto do relatório sobre comercialização de agrotóxicos lançado recentemente pelo Ibama.
A publicação Produtos agrotóxicos e afins comercializados em 2009 no Brasil é um novo instrumento de gestão pública e de informação para a sociedade sobre quais são os produtos mais usados, onde estão sendo comercializados e os índices de toxicidade ao meio ambiente dos princípios ativos autorizados. Organizado pela Coordenação Geral de Avaliação de Substâncias Químicas da Diretoria de Qualidade Ambiental, o relatório é uma obrigatoriedade legal estabelecida no art. 41 do Decreto 4.074 de 2002.
A sistematização e divulgação dessas informações são fundamentais para o conhecimento do emprego dos agrotóxicos pela agricultura e pelo setor produtivo brasileiro. Os dados agora acessíveis vão auxiliar o governo nas decisões regulatórias, na fiscalização e na autorização de estudos para o registro de alternativas menos impactantes. O relatório também vai permitir uma melhor definição de prioridades na escolha das substâncias para avaliação de impactos ambientais, como contaminação das águas e efeitos adversos na fauna.
O Coordenador Geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do Ibama, Márcio Freitas, atribui ao relatório dois aspectos fundamentais: “São informações que auxiliam tanto o usuário como o pesquisador e que vão permitir ao poder público uma maior capacidade de regulação sobre a indústria”.
Histórico
Desde 1998, três órgãos estão envolvidos no processo de comercialização de produtos agrotóxicos no Brasil. Cada um deles faz uma avaliação distinta: cabe ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) verificar a pertinência e eficácia do produto, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avaliar os impactos do produto sobre a saúde humana e ao Ibama compete analisar as implicações do agrotóxico no meio ambiente.
O Ibama desenvolveu uma metodologia para definir a ecotoxicidade de cada ingrediente ativo de um produto. Por meio de ensaios físicos, químicos e biológicos são avaliados a mobilidade (em terra, ar e água), a persistência e a capacidade de acúmulo do agrotóxico e então é estabelecida uma classificação de periculosidade que varia em quatro níveis: I, II, III, IV, em ordem descrente, sendo o quarto nível o de mais baixa periculosidade. Há ainda as características impeditivas de registro determinadas pela legislação, as quais são avaliadas e quando presentes no produto impedem que o pedido de registro seja deferido e a comercialização não é autorizada.
Compete ainda ao Ibama fazer a reavaliação de produtos em uso quando há indícios de dano ao meio ambiente, procedimento de reanálise que pode culminar seja na restrição de uso ou até no banimento do produto. A iniciativa para a reavaliação de um princípio ativo poderá partir de várias fontes, como de um dos três órgãos envolvidos, de uma pesquisa universitária, de um episódio de contaminação que suscite uma nova investigação, da observância de resistência ao produto comprometendo sua eficácia, entre outros fatores. A reavaliação será conduzida pelo Ibama quando a motivação for relativa a aspectos ambientais.
Os procedimentos para o processo de reavaliação no Ibama estão regulamentados pela Instrução Normativa n° 17 de maio de 2009. O primeiro passo é a abertura de um processo público em que é declarado que determinado produto está sendo reavaliado. Durante trinta dias os interessados podem se manifestar. Após avaliar as contribuições e justificativas, o Ibama conclui em parecer técnico elaborado por uma comissão conjunta com Mapa e Anvisa sobre a viabilidade ou não da permanência de um agrotóxico no mercado brasileiro.
Recentemente foi banido do país o ingrediente ativo Metamidofós após pesquisas concluírem haver risco sobre a saúde humana. A Resolução determinando o phase out (banimento) do produto foi publicada no Diário Oficial da União em 14 de janeiro de 2011. Um outro ingrediente ativo, o Acefato, também está passando por processo de reavaliação.
As empresas detentoras de registro são obrigadas a apresentar semestralmente ao Ibama e aos demais órgãos envolvidos no registro de agrotóxicos as informações sobre a comercialização do produto. Os dados relativos ao segundo semestre de 2010 podem ser entregues até 31/01/2011. Portanto, o próximo relatório, referente ao ano de 2010, deverá estar concluído no decorrer deste ano.
O relatório pode ser acessado na página eletrônica do Ibama: http://www.ibama.gov.br/qualidade-ambiental/relatorios-de-agrotoxicos/
Texto de Janete Porto, Ascom/Ibama publicado pelo EcoDebate, 25/01/2011

Sobre o mesmo tema leiam, também:

 

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=40235
26/1/2011
Segundo Ibama, todos os defensivos são perigosos

Levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra que os defensivos agrícolas usados no Brasil ainda são, no mínimo, perigosos. O primeiro relatório sobre a comercialização de agrotóxicos no país lançado pelo Ibama indica que 88% dos produtos vendidos em 2009 estavam classificados entre perigosos, muito perigosos e altamente perigosos. Os 12% restantes estavam classificados como pouco perigosos.
A reportagem é de Alexandre Inacio e publicada pelo jornal Valor, 26-01-2011.
Apesar de todos os produtos terem algum tipo de perigo, todos estavam legalmente registrados e passaram pela análise de três ministérios - Agricultura, Saúde e Meio Ambiente - antes de serem liberados para comercialização. "Nosso objetivo é tornar pública as características dos produtos usados no Brasil e saber como esses produtos estão sendo usados", afirma Márcio de Freitas, coordenador de avaliação e controle de substâncias químicas do Ibama.
Um dos motivos que justifica a elevada taxa de periculosidade dos defensivos usados no Brasil é a grande aplicação de herbicidas no país, em especial o glifosato, incluído na classe III (perigoso). Sozinhos, os herbicidas representaram em 2009 quase 45% das vendas totais da indústria, sendo que 52% das marcas foram classificadas como perigosas, 46% como muito perigosas e 2% como altamente perigosas.
O coordenador do Ibama reconhece, no entanto, que existe uma tendência na indústria de defensivos de procurar moléculas menos agressivas. Ele lembra, contudo, que em números de registros essa tendência ainda não aparece. Com a queda da patente de produtos mais antigos aumenta o número de pedidos de registros para formulações de genéricos.
Em novembro de 2010, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag) informou ao Valor que, nos anos 60, o Brasil usava 2,1 quilos de herbicida e 1,1 quilo de inseticida por hectare. Quarenta anos depois, o uso médio de herbicida caiu para 242 gramas e o de inseticidas para 69,75 gramas por hectare.
Márcio de Freitas faz uma ponderação em relação aos riscos de cada um dos produtos. "Estamos avaliando até agora apenas o perigo do produto e não o seu risco. Uma arma de fogo é algo sempre perigoso, mas o risco de uma morte ser causada por ela é maior por alguém que anda com ela constantemente do que por quem a deixa em casa", exemplifica Freitas.
Nos próximos relatórios, afirma o coordenador, deve haver também o cruzamento de informações sobre o uso dos defensivos por Estado com as culturas predominantes em cada um deles.

Para ler mais:

 

http://www.ecodebate.com.br/2011/01/18/portaria-do-ministerio-da-agricultura-anuncia-retirada-gradual-do-agrotoxico-metamidofos-do-mercado/

Portaria do Ministério da Agricultura anuncia retirada gradual do agrotóxico metamidofós do mercado

O metamidofós, agrotóxico usado nas lavouras brasileiras, principalmente nas de cana-de-açúcar, soja e algodão, vai sair do mercado gradualmente, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria publicada ontem (17) no Diário Oficial da União informa que o uso do produto será proibido a partir de dezembro de 2012.
De acordo com a portaria, em 120 dias estará proibida a importação e produção do inseticida. Sua formulação, no entanto, será permitida por mais um ano e a comercialização, até novembro de 2012. A decisão do governo foi tomada depois que uma reavaliação do agrotóxico, feita pelo ministério, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), constatou que seus benefícios não compensam os riscos à saúde.
Desde 2004, o inseticida foi proibido para pequenas culturas, nas quais é mais comum o uso de aplicador costal, manualmente. “A medida segue uma tendência mundial de suspensão de uso do produto. O governo tem dado prioridade aos defensivos menos tóxicos e que, ao mesmo tempo, sejam eficientes no controle de pragas”, afirmou o coordenador-geral de Agrotóxicos do Mapa, Luís Eduardo Rangel, por meio de nota. Segundo ele, o produtor já pode optar por outros agrotóxicos com a mesma finalidade do metamidofós, autorizados pelos órgãos sanitárias do país.
Atualmente há seis produtos registrados no Mapa com o agrotóxico metamidofós: Metafós, Matamidofós Fersol 600, Metasip, Stron, Stron 600 SL e Tamaron BR. O site do Mapa, na página de consulta de ingrediente ativo, informa que o inseticida é autorizado para as culturas de algodão, amendoim, batata, feijão, soja, trigo e tomate – no caso deste último, ele é empregado apenas para o tipo rasteiro, com fins industriais.
Ainda de acordo com informações veiculadas no site do ministério, “para todas as culturas, o uso [do inseticida] deverá ser exclusivamente via trator, pivô central ou aérea”.
Reportagem de Danilo Macedo, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 18/01/2011

Sobre o mesmo tema leiam, também:

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,
LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS
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Número 523 - 21 de janeiro de 2011

 

Pesquisa na USP mostra efeitos negativos do glifosato sobre a própria soja transgênica
 
Pesquisa recém publicada na revista Ciência Rural mostra que as doses crescentes de glifosato exigidas pela soja RR prejudicam a absorção de micronutrientes, reduzem a nodulação responsável pela fixação biológica de nitrogênio e a produção de massa seca.
 
“Com o desenvolvimento da soja resistente ao glifosato, Roundup Ready (RR), observa-se um aumento considerável no uso desse herbicida, com aplicações de três a quatro vezes durante o ciclo da cultura. Dessa forma, essas aplicações podem estar influenciando a nutrição mineral da cultura”, diz o resumo da pesquisa.
 
Nas conclusões do estudo está dito que a aplicação do glifosato prejudicou a absorção de nitrogênio e ferro, bem como o uso de nitrogênio, ferro e cobre pela planta. Além disso, diminuíram os teores totais de todos os micronutrientes analisados (N, Mn, Zn, Cu e Fe).
 
Ainda segundo a conclusão do estudo, “a utilização de glifosato nas condições de casa de vegetação causou redução no número de nódulos na soja” (que favorecem a absorção de nitrogênio) e “a produção de massa seca reduziu-se com o aumento das dosagens de glifosato”.
 
O fato de o estudo afirmar objetivamente, logo no seu resumo, que o plantio de soja transgênica leva ao aumento do uso do herbicida evidencia que este fato já não pode ser negado -- apesar da copnstante propagandas em sentido contrário.

 

 

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84782011000100013&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Cienc. Rural vol.41 no.1 Santa Maria  2011
Influência do glifosato na eficiência nutricional do nitrogênio, manganês, ferro, cobre e zinco em soja resistente ao glifosato

Glyphosate influence on nitrogen, manganese, iron, copper and zinc nutritional efficiency in glyphosate resistant soybean 
Ademar Pereira SerraI, 1; Marlene Estevão MarchettiII; Ana Carina da Silva CandidoII; Ana Caroline Ribeiro DiasIII; Pedro Jacob ChristoffoletiIII
IPrograma de Pós-graduação em Produção Vegetal, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), Universidade de São Paulo (USP), 79800-000, Dourados, MS, Brasil. E-mail: ademar.serra@hotmail.com
IIPrograma de Pós-graduação em Produção Vegetal, UFGD, Dourados, MS, Brasil
IIIPrograma de Pós-graduação em Fitotecnia, ESALQ, USP, Piracicaba, SP, Brasil


RESUMO
Com o desenvolvimento da soja resistente ao glifosato, Roundup Ready (RR), observa-se um aumento considerável no uso desse herbicida, com aplicações de três a quatro vezes durante o ciclo da cultura. Dessa forma, essas aplicações podem estar influenciando a nutrição mineral da cultura. Objetivou-se realizar este experimento para avaliar a influência do glifosato na eficiência nutricional de N, Mn, Cu, Zn e Fe pela soja transgênica cv. 'P98R31 RR'. O experimento foi realizado em casa de vegetação, na ESALQ/USP, Piracicaba (SP), em 2009. A unidade experimental foi constituída por vaso contendo 11kg de substrato (NITOSSOLO VERMELHO Eutroférrico latossólico), com duas plantas por vaso. Os tratamentos foram arranjados em um esquema fatorial 5X5, com cinco níveis do fator Mn (0, 20, 40, 60 e 80mg dm-3) e cinco de glifosato (0; 0,648; 1,296; 1,944 e 2,592kg i.a. ha-1), sendo que o Mn foi fornecido a partir do sulfato de manganês (MnSO4.H2O). O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com quatro repetições. Não houve influência na resposta das plantas com relação ao fator Mn. A aplicação de glifosato interferiu de forma negativa na eficiência nutricional da planta e nos teores totais de N, Mn, Cu, Zn e Fe. A utilização de glifosato causou redução ao número de nódulos e redução na produção de massa seca.
Palavras-chave: nutrição mineral, soja, herbicida.


ABSTRACT
After development of glyphosate-resistant (GR) soybean, there is a considerable raise in the use of this herbicide, with three to four applications during the culture cycle. Thus, these applications may be influencing the mineral nutrition of the crop. So, the aim of this research was evaluate the glyphosate influence on uptake, translocation and use efficiency of N, Mn, Cu, Zn and Fe by (GR) soybean 'P98R31' cultivar. The experiment was conducted in the greenhouse at ESALQ/USP, Piracicaba, State of São Paulo, Brazil, in 2009. The experimental unit was formed by 11kg vase-1 of soil (Rhodic Paleudult) with two plants in each vase. The treatments have been arranged in a factorial pathway 5X5, with five levels of the factor Mn (0, 20, 40, 60 and 80mg dm-3) and five of glyphosate drifts (0; 0,648; 1,296; 1,944 e 2,592kg e.a. ha-1) and the Mn was supplied by the manganese sulfate (MnSO4.H2O). The experimental design was randomized blocks, with four repetitions. There was no influence on response from plants concerning the levels of Mn used into the experiment. The application of glyphosate interfered on mineral nutrition of soybean and the total contents of N, Mn, Cu, Zn and Fe. The use of glyphosate has caused reduction of the nodules number and reduced the output of dry mass.
Key words: mineral nutrition, soybean, herbicide.


INTRODUÇÃO
Com o desenvolvimento da soja [Glycine max (L.) Merr.] geneticamente modificada, resistente ao glifosato [N-(phosphonomethyl)glycine], tem-se observado aumento considerável na utilização desse herbicida aplicado, principalmente em pós-emergência, aplicando-se de três a quatro vezes durante o ciclo da soja. Essas sucessivas aplicações de um único produto interferem negativamente na nutrição da planta. Em estudos anteriores observou-se que o uso do herbicida glifosato em pós-emergência afeta o teor de micronutrientes nas plantas de soja Roundup Ready (RR) (EKER et al., 2006; NEUMANN et al., 2006). Resultado semelhante foi observado por CAKMAK et al. (2009) em soja convencional, observando que o glifosato interfere na absorção e translocação de Ca, Mg, Fe e Mn. A frequência de aplicações de glifosato pode levar à indução de deficiências de ferro (Fe), zinco (Zn) e manganês (Mn). SANTOS et al. (2007) observaram que N, Ca, Fe e Cu tiveram redução em seu teor na planta de soja RR, quando as mesmas foram tratadas com glifosato, sendo essas amostragens foliares realizadas no período de florescimento. No entanto, nem todos os nutrientes tiveram essa resposta, sendo que o Mg apresentou elevação em seu teor foliar mediante a aplicação de glifosato.
A resistência ao herbicida pela soja transgênica foi obtida pela inserção de um gene (AroA) oriundo do genoma da Agrobacterium sp., estirpe CP4, a qual codifica uma variante da enzima 5 enolpiruvilchiquimato-3-fosfato sintase (EPSPS), sendo a CP4 EPSPS especialmente resistente à inibição pelo glifosato (PADGETTE et al., 1995). Sob tratamento com esse herbicida, as plantas de soja não são afetadas, em virtude da ação continuada e sistemática dessa enzima alternativa, insensível ao produto. No entanto, o glifosato é prejudicial à fixação biológica do N, pois o Bradyrhizobium sp. tem a EPSPS suscetível ao glifosato (ZABLOTOWICZ & REDDY, 2007). Além desse fato, ZOBIOLE et al. (2010a) relatam que o glifosato pode afetar a fixação biológica do N, devido à redução do teor de níquel, sendo esse micronutriente essencial para os microrganismos simbióticos.
Dessa forma, a realização deste experimento teve como objetivo avaliar a influência do glifosato na eficiência nutricional de N, Mn, Cu, Zn e Fe pela soja transgênica cv. 'P98R31', resistente ao glifosato em condições de casa de vegetação. 
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi desenvolvido em condições de casa de vegetação, no Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (ESALQ), na Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba (SP), em 2009, localizada entre as coordenadas geográficas de 22°42'30" de latitude Sul e 47°38'00" de longitude Oeste, encontrando-se a uma altitude de 456m. Foi utilizado, como substrato, material de um NITOSSOLO VERMELHO Eutroférrico latossólico (EMBRAPA, 2006), coletado na camada de 20-40cm, na área experimental da fazenda "Areão", sendo realizadas quatro amostragens com peso aproximado em 500g cada, que foram secadas ao ar ambiente, destorroadas e passadas em peneira com malha de 4mm, para a determinação das características químicas e físicas: pHCaCl2=4,8; MO=6,5g dm-3; P=3mg dm-3; S=16mg dm-3; K=0,3mmolc dm-3; Ca=17,5mmolc dm-3; Mg=6mmolc dm-3; H+Al=20mmolc dm-3; Al=4,8mmolc dm-3; SB=23,5mmolc dm-3; T=43,5mmolc dm-3; V(%)=54 e m(%)=2; Cu=1,4mg dm-3; Fe=52mg dm-3; Zn=0,55mg dm-3; Mn=46,4mg dm-3; B=0,24mg dm-3; Argila=217,5g kg-1; Silte=108g kg-1; Areia=674,5g kg-1; textura média.
Com base nos resultados da análise química do solo, foi realizada a calagem para a correção da acidez do solo, utilizando-se o calcário dolomítico finamente moído (PRNT=100%), cuja composição apresentou 34,5% de óxido de cálcio (CaO) e 18% de óxido de magnésio (MgO). Calculou-se então a quantidade necessária para elevar a saturação por bases a 65%, sendo aplicados 245mg dm-3. Os vasos foram mantidos úmidos com água destilada para manter a umidade equivalente a 60% do volume total de poros. O volume de água a aplicar foi estimado com base na densidade aparente (Dap) e no volume de poros (Vp) (EMBRAPA, 1997), permanecendo os vasos incubados por 30 dias. Após esse período, efetuou-se a adubação, sendo em seguida realizada a semeadura. As sementes foram tratadas com fungicida (Thiram®) na dose proporcional a 100g i.a por 100kg de semente. Anteriormente à semeadura, foi realizada a adução de potássio (K2O) e fósforo (P2O5), com a adição correspondendo a 13,9mg dm-3 e 41,7mg dm-3, respectivamente. Aos 30 dias após a semeadura, foi realizada a aplicação de K2O em cobertura com 27,8mg dm-3.
A cultivar de soja utilizada foi a 'P98R31 RR', com 98% de germinação e pureza. As sementes de soja foram inoculadas 45 minutos antes da semeadura com inoculante à base de turfa, contendo as bactérias Bradyrhizobium elkani (Estirpe Semia 5019) e Bradyrhizobium japonicum (Estirpe Semia 5079), com concentração mínima de 5x109 células viáveis por grama de inoculante, na dosagem de 100g de inoculante em 50kg de semente de soja. Foram semeadas cinco sementes de soja por vaso, sendo realizado o desbaste cinco dias após a emergência, deixando-se duas plantas por vaso, uniformes e equidistantes.
A unidade experimental foi constituída por vaso, contendo 11kg de substrato. Os tratamentos foram arranjados em um esquema fatorial 5x5, com cinco níveis do fator manganês (Mn) (0, 20, 40, 60 e 80mg dm-3) e cinco de glifosato (0; 0,648; 1,296; 1,944 e 2,592kg i.a. ha-1). O Mn foi fornecido pelo sulfato de manganês (MnSO4.H2O). O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com quatro repetições.
O Mn foi aplicado antes da semeadura. A aplicação do glifosato se deu no período vegetativo (V3), sendo tal aplicação realizada com pulverizador costal pressurizado por CO2 à pressão constante de 2,5kgf cm-2, equipado com barra de aplicação com ponta do tipo leque, modelo Teejet XL 110.02 VS, calibrado para volume de calda proporcional a 200L ha-1.
As avaliações foram efetuadas no estágio V8 (20 dias após a aplicação), separando-se a planta em parte radicular (raízes) e parte aérea (caule e folhas). O material colhido foi lavado com água destilada, secado em estufa com circulação forçada de ar a 65°C, até atingir massa constante, sendo em seguida pesado a fim de que não ocorresse ganho de umidade e triturado em moinho tipo Willey. A seguir, as amostras do material vegetal seco foi digerido em solução nítrico-perclórico (HNO3:HClO4) na proporção 3:1. O teor de Mn, Cu, Zn e Fe nas amostras foi determinado em espectrofotômetro de absorção atômica modelo PGI 990.

A partir da massa seca e do conteúdo dos nutrientes na planta, foram calculados os índices: (a) eficiência de uso de nutriente (g2 mg) (EFU) = (massa seca total produzida)2/(conteúdo total do nutriente na planta) (SIDDIQI & GLASS, 1981); (b) eficiência de absorção (mg g-1) (EFA) = (conteúdo total do nutriente na planta)/(massa seca de raízes) (SWIADER et al., 1994); (c) eficiência de translocação (%) (EFT) = [(conteúdo do nutriente na parte aérea)/(conteúdo total do nutriente na planta)].100 (LI et al., 1991).
Os dados foram submetidos à análise de variância pelo teste F. Para o caso de diferenças significativas, foi realizada a análise de regressão, até o nível de 5% de probabilidade, utilizando-se o aplicativo computacional SAEG 9.1.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As dosagens de glifosato, acima de 0,648kg i.a ha-1, apresentaram sintomas de injúria nas plantas de soja, sendo a severidade do dano maior à medida que as dosagens do herbicida eram elevadas, apresentando, na dosagem de 0,648kg i.a ha-1, o menor dano nas plantas, com pouco amarelecimento e necrose nas folhas, seguindo a severidade da injúria com o aumento das dosagens. A mesma cultivar foi semeada ao campo, como lavoura comercial com 350.000 sementes ha-1 da cv. 'P98R31 RR'. Aplicando-se 1,944kg i.a. ha-1 de glifosato, as plantas apresentaram, após a aplicação (24 horas), sintomas de injúria. Os sintomas visíveis de injúria foram observados, nas plantas, no dia seguinte à aplicação, na casa de vegetação, com amarelecimento das folhas novas seguido de necrose. O herbicida foi aplicado no estádio vegetativo V3. Decorridos 20 dias da aplicação, houve, aparentemente, recuperação das plantas. A injúria ocorrida nas folhas foi local ao tecido que recebeu o herbicida, sendo que, nas folhas desenvolvidas posteriormente, não houve sintoma de injúria.
Resultados semelhantes foram relatados por BELLALOUI et al. (2006), que, após aplicação com glifosato na dosagem comercial em soja RR, observaram sintomas de injúria nas plantas. As injúrias iniciaram com cloroses seguida de necrose, em todos os estágios de crescimento da planta, em folhas novas, seguido da aplicação do glifosato. REDDY & ZABLOTOWICZ (2003) observaram que, após aplicação do glifosato, ocorreu injúria no tecido foliar. Segundo esses autores, essa injúria é provocada pela proporção de sal que está presente nas formulações comerciais de glifosato e não pelo produto glifosato. REDDY et al. (2004) notaram que, após a aplicação de glifosato em soja RR, a maior concentração de ácido aminometilfosfônico (AMPA), nas folhas, ocorreu um dia após o tratamento (DAT) (42mg g-1 de massa seca), sendo que, após esse período, ocorreu redução gradual em sua concentração no tecido, de 42mg g-1 de MS para 1mg g-1 de MS, aos 22DAT. Os sintomas de injúria gerados nas plantas dependem das doses de glifosato utilizadas, sendo que as maiores concentrações de glifosato levam a maiores formações do composto secundário AMPA, que pode causar injúria às plantas (ZABLOTOWCZ & REDDY, 2007). Após duas semanas da aplicação do glifosato, os sintomas de amarelecimento desapareceram, em folhas de soja RR (ZOBIELA et al., 2010b).
Os níveis de manganês (Mn) aplicados no experimento não proporcionaram efeito significativo (P>0,05) na eficiência nutricional de N, Mn, Zn, Cu e Fe, no número de nódulos, na massa seca [raiz (MSR), na parte aérea (MSA) e total (MST)] e no teor total de nutrientes na planta.
Não houve efeito significativo (P>0,05) das dosagens de glifosato na EFA de Mn, Cu e Zn (Figura 1A, 1B e 1C). Com o estudo de diferentes formulações comerciais de glifosato aplicadas 25 dias após a semeadura (estádio V2-V3), com 2kg i.a. ha-1, SANTOS et al. (2007) não observaram alterações nos teores de Zn e Mn, no tecido foliar da cv. 'CD 219 RG', no período de florescimento.
A EFA de N e Fe aumentou com as dosagens de glifosato, observando-se que houve uma resposta linear na EFA de N, com eficiência máxima de absorção para o N de 120,4mg g-1, quando aplicou-se 2,592kg i.a. ha-1 de glifosato (Figura 1A). Dessa forma, observa-se que, para a produção de 1g de massa seca (MS), foram necessários 120,4mg de N, sendo na ausência de glifosato, com 80mg de N produziu 1g de MSR. A cv 'P98R31 RR' obteve melhor rendimento na absorção de N e Fe quando não utilizou glifosato (Figura 1A e 1B). Isso se deve à menor produção de MSR pelas plantas, com a aplicação de glifosato. Assim, o menor rendimento da absorção de Fe pode estar relacionado com a menor eficiência da redutase férrica, pois BELLALOUI et al. (2009) obtiveram resultado negativo na eficiência da redutase férrica com as aplicações de glifosato em soja RR, tendo como resultado menor concentração de Fe foliar e nas sementes.
Observou-se que a EFT de Cu, Zn, Mn, Fe e N não diferiram significativamente (P>0,05) com as dosagens de glifosato em estudo. Dessa forma, não se ajustaram equações de regressão para essas variáveis, sendo o valor estimado das variáveis dependentes igual à média aritmética obtida no ensaio (Figura 1D).
A EFU de Mn e Zn não se diferenciou significativamente (P>0,05) com a aplicação de glifosato (Figura 1E e 1F). Assim, pode-se inferir que a concentração de Mn e Zn na planta estava sob níveis adequados, mesmo havendo redução dos teores de Mn e Zn na planta, quando se aplicou o glifosato (Figura 2A e 2B). No entanto, essa redução não se deve à influência direta do glifosato sobre o micronutriente, e sim do glifosato sobre a produção de MS.
Já para a EFU de N, Fe e Cu, houve efeito significativo (P<0,01), evidenciando que, à medida que aumentaram as dosagens de glifosato, reduziu-se a EFU desses nutrientes (Figura 1E, 1F e 1G). Esse efeito se deve à redução do conteúdo total de N, Fe e Cu na planta e à redução da massa seca quando aplicado o glifosato (Figura 2A, 2B, 2C e 2D). Com isso, a relação entre produção de massa seca e teor de nutriente reduziu-se, devido ao efeito das dosagens de glifosato aplicadas.
Com a aplicação de glifosato nas dosagens estudadas, houve diferenças significativas (P<0,05) para o teor de Mn, Fe, Zn, Cu e N total na planta e no número de nódulos (Figura 2A, 2B e 2C). Observou-se que as dosagens de glifosato reduziram o conteúdo total desses nutrientes. Essa redução possivelmente se deve à depressão no crescimento da planta causada pela aplicação do glifosato. As dosagens de glifosato acarretaram redução na produção da MSR, MSA e MST (Figura 2D), podendo tal fato ser explicado pela possível redução da fotossíntese, quando da aplicação do herbicida.
Ao estudar a concentração de micronutrientes nas folhas jovens em soja RR cv. 'Valiosa', BOTT et al. (2008) não encontraram diferenças significativas nas dosagens de glifosato utilizadas (0,9kg i.a ha-1 e 1,8kg i.a ha-1). Segundo REDDY et al. (2004), a toxidez de AMPA é responsável pela depressão do crescimento. Os mesmos autores concluíram que a injúria causada quando da aplicação do glifosato em soja RR se deve à produção do AMPA, que se forma como produto da degradação do glifosato. A dosagem de AMPA de 0,12kg ha-1 reduziu o conteúdo de clorofila nas folhas de soja RR, havendo também diferenças na sensibilidade ao AMPA na soja RR e não RR, sendo essas devidas às diferentes cultivares utilizadas. O nível de AMPA de 4-7µg g-1 de massa seca causou redução no conteúdo de clorofila, tanto em plantas RR, quanto em plantas não RR, mediante a aplicação de AMPA nessas plantas o chiquimato não foi afetado, o que indica que não age como o glifosato na inibição da EPSPS, sendo o AMPA um composto fitotóxico às plantas, que causa a redução do conteúdo de clorofila e produção de massa seca aérea da planta, com um mecanismo de ação desconhecido (REDDY et al., 2004).
Nos resultados obtidos, pode-se observar que o número máximo de nódulos (22 nódulos planta-1) foi obtido na ausência de glifosato. Com a aplicação de glifosato, o número de nódulos reduziu-se em 50%, em média, na dose máxima de glifosato, sendo essa variação significativa (P<0,01), quando comparada com o controle (Figura 2C). REDDY et al. (2000) constataram que a aplicação de 2,24kg i.a ha-1 em estádio vegetativo de soja RR promoveu redução de 30% no número de nódulos, de 39% na massa de nódulos e de 14% no conteúdo total de N na parte aérea. Com a aplicação de 3,36kg i.a. ha-1 de glifosato, BELLALOUI et al. (2008) observaram redução na atividade da redutase do nitrato (RN), nos nódulos, nas raízes, nos caules e nos trifólios da planta de soja RR, sendo essa avaliação realizada uma semana após a aplicação do glifosato. REDDY et al. (2010) obtiveram como resultado que a redução da atividade da RN está relacionada com a concentração da dose de glifosato aplicada, sendo que, ao se aplicar duas vezes a dose 840g i.a ha-1, reduziu-se entre 5-19% a atividade da enzima, e, com duas aplicações de 1.360i.a ha-1, a atividade da mesma variou entre 8-42%.
Devido à sensibilidade da (EPSPS) presente no Bradyrhizobium sp, possivelmente um dos fatores que possibilitou a redução do conteúdo total de N na planta, com aumento das dosagens de glifosato no presente trabalho, deva-se a ação inibitória do glifosato, na EPSPS. Esse resultado pode ainda estar associado à redução do número de nódulos nas plantas tratadas e a injúria provocada na planta quando se aplica o herbicida, que pode reduzir a eficiência fotossintética. DE MARIA et al. (2005) observaram que o glifosato causa alteração no metabolismo nodular devido à limitação do fornecimento de carboidrato das folhas e caules para os nódulos. O glifosato pode levar à redução do Ni, que é um elemento essencial aos microrganismos fixadores de N e, dessa forma, reduzir a fixação simbiótica desse elemento (ZOBIELA et al., 2010a). Ao avaliar a influência do glifosato nos microrganismos no solo, GOMEZ et al. (2009) constataram que doses acima das recomentadas (>1,92L i.a ha-1) causam redução na biomassa microbiana, sendo tal efeito temporário.
A redução na MS da planta (Figura 2D) possivelmente deve ter ocorrido devido ao estresse fisiológico que as plantas passaram quando da aplicação de glifosato, pois as mesmas apresentaram sintomas de injúrias, logo após a aplicação do glifosato. Os sintomas se intensificavam à medida que aumentavam as doses de glifosato. Mesmo as plantas tendo se recuperado após 20 dias, o estresse pelo qual passaram pode ter resultado na menor produção de massa seca e na redução do conteúdo total de Fe, Mn, Cu, Zn, N e do número de nódulos (Figura 2A, 2B, 2C e 2D). BELLALOUI et al. (2008) relataram que a presença de sintomas de injúria foi reduzindo com o passar do tempo, com as plantas recuperando-se completamente após 14 dias da aplicação com glifosato. ZABLOTOWICZ & REDDY (2007) expuseram que a produção de biomassa de raízes de soja com aplicações de glifosato 2,52kg i.a. ha-1 foi 20-25% inferior que o controle, sem aplicação de glifosato, em 7 e 8 semanas após semeadura, respectivamente. Em estudos anteriores, com a aplicação de glifosato de 1,68kg i.a. ha-1 (REDDY et al., 2000) e 6,3kg i.a. ha-1 (KING et al., 2001), constatou-se a redução de MSA e MSR, em experimentos realizados em condições controladas de casa de vegetação. 
CONCLUSÃO
Não houve influência na resposta das plantas com relação aos níveis de Mn utilizados no experimento. A aplicação de glifosato interferiu de forma negativa na eficiência de: absorção de N e Fe, uso de N, Fe e Cu na planta e nos teores totais de N, Mn, Zn, Cu e Fe. Não houve efeito na eficiência de translocação dos nutrientes avaliados na planta, mediante os tratamentos utilizados. A utilização de glifosato nas condições de casa de vegetação causou redução no número de nódulos na soja cv. 'P98R31 RR'. A produção de massa seca reduziu-se com o aumento das dosagens de glifosato. 
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http://www.ecodebate.com.br/2011/01/11/uruguai-trabalhadores-florestais-e-uso-de-agrotoxicos/

Uruguai: trabalhadores florestais e uso de agrotóxicos

Uma das promessas das empresas florestais para obter sua aceitação- por parte do governo e das comunidades locais- é a geração de emprego. O que não é esclarecido com antecedência é qual o tipo de emprego e sob quais condições salariais e de saúde será realizado o trabalho.
A maioria dos trabalhos vinculados com o florestamento - exceto a poda- implica o uso de agrotóxicos em alguma etapa. Nos viveiros são aplicados fungicidas principalmente de forma permanente; na preparação do campo para plantar são aplicados herbicidas, fertilizantes químicos e formicidas; após realizada a plantação durante o primeiro ano continua a aplicação de agrotóxicos para o controle das ervas daninhas. Por último, ao realizar raleamentos ou quando são cortadas as árvores mais uma vez se usam os herbicidas para eliminar os rebrotes.
Um estudo recente da organização RAPAL-Uruguay sobre os trabalhadores nas plantações florestais e o uso de agrotóxicos (vide “Uruguay: trabajo y agrotóxicos en la forestación” em http://www.rapaluruguay.org/agrotoxicos/Uruguay/FOSA.pdf) apresenta interessantes elementos para o debate. A pesquisa é baseada no caso da FOSA (Forestal Oriental S.A.), empresa transnacional que pertence à UPM (ex- Botnia) e que entre outras coisas está certificada pelo FSC (Forest Stewardship Council).
O estudo oferece um detalhado resumo dos diferentes herbicidas (Acetoclor, Glifosato, Oxifluoren, Haloxifop metil), do formicida Fipronil e os diversos fertilizantes (sulfato de amônio, fosfato de amônio) utilizados, alertando que estas substâncias são potencialmente cancerígenas e que provocam alterações hormonais, entre outros efeitos na saúde. Desses dados infere-se que se bem é certo que as substâncias usadas nas plantações estão autorizadas pelo Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca e pela certificadora Forest Stewardship Council (FSC), não deixa de ser certo que todas são altamente tóxicas, tanto para os trabalhadores que as manuseiam quanto para o ambiente.
A aplicação de agrotóxicos implica que os trabalhadores estejam expostos às substâncias químicas de forma constante, prolongada no tempo e todo dia. A isso acrescenta- se que alguns lugares de trabalho não contam com suficiente água potável para consumo nem condições adequadas para a higiene, o que agrava a exposição aos agrotóxicos. A meia hora do almoço resulta breve para tirar os trajes e menor ainda para higienizar-se, e assim os trabalhadores ou trabalhadoras geralmente tiram apenas as luvas e o tapa-boca para comer.
Os trabalhadores comentam que “a modalidade que a empresa usa para escolher pessoal é através de convocações e quem quiser trabalhar se inscreve”. Na primeira visita ao campo, o trabalhador “comprova” ele próprio se está apto ou não para realizar as tarefas solicitadas já que se passa mal (dor de cabeça, vômitos, enjôos) por causa do produto que está sendo usado, fica evidente que é uma pessoa que não pode realizar esse trabalho. Tal é a toxicidade dos produtos usados que leva a uma “auto-seleção” do pessoal de acordo com sua resistência física. Uma das esposas dos trabalhadores acrescenta que “quando eu lavava o macaco jogava a água na grama que ficava marrom como se tivesse sido queimada”.
Outro ponto importante para salientar é que o trabalho de aplicação com mochila- colocado na categoria peão comum apesar de exigir uma especialização- é por tarefa, o que implica altos níveis de exigência e rendimento para chegar a receber um jornal digno no final do dia, e que os dias de tempo ruim não se trabalham (e não são pagos). Caminhar com as mochilas que pesam cerca de 16 quilos entre sulcos e ervas daninhas e em longas extensões de campo, faz com que seja quase impossível suportar- principalmente no verão- os trajes protetores.
Uma mulher conta que “cada trabalhadora devia cobrir uma ‘melga’ (largura de sulco a sulco). Era preciso se apressar já que tudo estava programado para realizar o trabalho em um tempo determinado sem levar em conta a temperatura nem a ‘sujeira’ dos terrenos”.
De acordo com o testemunho de outro trabalhador, as temporadas de calor são as piores, “quando tiramos o macaco parece que tenha saído de um balde com água, ensopado de suor”. “Depois de ter caminhado 30 metros você ‘sente’ que não ‘pode’ caminhar mais. Contudo caminham-se quilômetros; os terrenos não são planos, têm subidas e descidas, isso te esgota, entre o peso que se carrega e as chircas altas é difícil caminhar. Este esforço te produz uma intensa dor nos joelhos. As caminhadas são longas e com peso, se formam bolhas e calos de tanto caminhar”.
“As ervas são altas e algumas têm espinhos, como o arrebenta-cavalo, o cardo e o picão- preto que tem espinhos pequenos que se aderem ao macaco à altura dos joelhos. Também você tem que ter muito cuidado com os espinhos para que não rasguem a mangueira. No caso que aconteça, você tem que continuar trabalhando, se parar significa que não haverá pagamento. Como tem que cumprir com um mínimo, é preciso caminhar depressa e em alguns casos até correr. Às vezes, por causa da pressa a tampa da mochila fica solta e goteja sobre o corpo”.
A isso tudo é preciso acrescentar o fato de o sistema de contrato ser através de empresas terceirizadas ou empreiteiras. Este sistema e o regime de mobilidade dos grupos de trabalhadores tendem a dificultar a sindicalização já que os trabalhadores ficam isolados em grupos pequenos, sob a ordem e as normas da empreiteira. Esta situação conspira contra reivindicações salariais, de saúde laboral e outros direitos dos trabalhadores.
Um trabalhador esclarece que “não existe organização sindical na Forestal Oriental. Além de haver uma pressão social muito forte contra os sindicatos, a própria modalidade de contratação dos trabalhadores, que é através de empreiteiros, faz com a tarefa de nos organizar seja muito difícil”.
Os produtos químicos usados afetam também a fauna, vão se acumulando na terra e chegam às correntes de água por filtração ou por escoamento nos dias de chuva. Algumas conseqüências da poluição: morte de lebres, e também tatus e mulitas entre outras espécies de fauna nativa; degradação do solo que sofre importantes perdas de matéria orgânica e um aumento de acidez, associados por sua vez à alteração dos valores normais de outras propriedades físico-químicas; poluição da água de poços e algibes usada para consumo humano e mortandade de peixes em rios de água doce.
Por outra parte, o estudo da Rapal- Uruguay traz à tona que a Forestal Oriental junto com a Bio- Uruguay (organização privada) realizaram uma pesquisa sobre o controle biológico de formigas cortadoras (principal inseto que afeta o florestamento) com fungos entomopatogênicos (vide http://www.biouruguay.org/noticias/photos/informefinal%20hormigas2.pdf). O que isso significa? Que diante do uso de um inseticida como o Fipronil- cuja toxicidade é atualmente reconhecida não apenas para as abelhas como também para a saúde humana- pesquisou-se e encontrou-se uma alternativa não poluente para o controle das formigas cortadoras usando um fungo nativo considerado inócuo para o pessoal envolvido na tarefa e para o ambiente. Apesar de a pesquisa ter finalizado em maio de 2008 a empresa FOSA ainda não o está usando em suas plantações.
A despeito de tudo o exposto, a empresa se escuda no selo verde outorgado pelo FSC (selo desprestigiado internacionalmente, entre outras coisas por avalizar práticas como esta) e que certifica suas plantações como “ambientalmente apropriadas, socialmente benéficas e economicamente viáveis”. Tudo o anteriormente dito é prova mais do que contundente de que as plantações de monoculturas de árvores não podem estar certificadas porque impactam no meio ambiente, dificultam a sindicalização, colocam em risco a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, e economicamente só beneficiam as empresas plantadoras.
Artigo baseado em “Uruguay: trabajo y agrotóxicos en la forestación”, uma publicação conjunta das organizações Rap-Al Uruguay (http://www.rapaluruguay.org) e Rel-UITA (www.rel-uita.org), por María Isabel Cárcamo, e-mail: coord@rapaluruguay.org. A publicação está disponível em http://www.rapaluruguay.org/agrotoxicos/Uruguay/FOSA.pdf

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