Desastres climáticos levam à falta de água e comida no mundo
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O aquecimento do planeta, chuvas além do normal no Brasil e em outros continentes e desastres naturais revelam um reflexo preocupante das mudanças climáticas: falta de água e comida para milhões de pessoas.
Nos últimos anos, têm sido cada vez mais frequentes protestos isolados por causa do preço dos alimentos. Especialista em agronegócios, o britânico Richard Warburton diz que a guerra do futuro pode ser para conseguir água e comida e não, como se pensava, a disputa por petróleo e territórios.
Em Nova York, nos Estados Unidos, as Nações Unidas estudam os efeitos do aquecimento global. As pesquisas indicam uma reação em cascata. As mudanças climáticas afetam a produção agropecuária. Com isso, a oferta diminui e os preços dos alimentos disparam.
Em Teresópolis, no Rio de Janeiro, as chuvas destruíram 80% da produção agrícola. O Quênia acaba de enfrentar a terceira pior estiagem em mais de uma década. Nessa época do ano, era para o capim estar verde e alto, mas os produtores locais reclamam que perderam centenas de cabeças de gado porque não havia o que comer.
Mesmo em países onde o clima é favorável à agricultura, os efeitos do aquecimento global são sentidos pelos produtores. Os recursos naturais estão diminuindo e a explosão da população mundial indica que o problema pode se agravar nas próximas décadas.
O chefe do painel da ONU sobre mudanças climáticas, Rajendra Pachauri, prevê um futuro sombrio. “Inicialmente os preços vão subir. Depois haverá escassez de produtos no mundo”, disse ele. As fontes naturais para produção de alimentos estão sob ameaça. Do petróleo também se tira o plástico usado para processar e empacotar a comida.
A alternativa, o biocombustível, ainda provoca polêmica. Nos Estados Unidos, a estimativa é de que um terço do plantio de milho seja usado para produzir etanol. O risco é que a produção de biocombustível consuma o que poderia servir de comida e inflacione o preço dos alimentos.
A falta de água também preocupa. Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água limpa, e o consumo deve dobrar nos próximos 20 anos. Em Punjab, na Índia, o uso da água para irrigar plantações de trigo secou parte dos rios. Os fazendeiros antes cavavam poços rasos e logo encontravam água. Agora estão se endividando para comprar equipamentos que consigam perfurar poços profundos. Nem assim têm encontrado água. Os recursos naturais são limitados.
A população do mundo dobrou nos últimos 40 anos para quase sete bilhões de pessoas. Especialistas alertam que, usando as técnicas atuais de agricultura, não vamos conseguir produzir para tanta gente. Em 2050, precisaremos ter o dobro da quantidade de comida que é produzida agora. É como se criássemos uma fazenda do tamanho do Brasil apenas para alimentar a nova população mundial.
Nos mares e rios, as previsões também são pessimistas. A pesca predatória está levando peixes e mariscos à extinção. Especialistas acreditam que os estoques acabariam a partir de 2048. “Precisamos mudar nossos hábitos alimentares. A quantidade de comida consumida em países ricos não é sustentável, e o consumo em países em desenvolvimento vai continuar aumentando”, diz Pachauri.
(Fonte: Globo Natureza)
Estudo aponta corais como provas de mudança ‘radical’ em correntes atlânticas
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A prova de uma mudança “radical” nas correntes oceânicas do Atlântico, que começou no início dos anos 70, pode ter sido encontrada nos corais, informaram cientistas nesta terça-feira (4), preocupados com as consequências climáticas.
Bioquímicos e oceanógrafos da Suíça, Canadá e Estados Unidos puderam observar que a corrente oceânica fria do Labrador, que desce ao longo da Costa Oeste dos Estados Unidos, perdeu sua influência para a corrente quente do Golfo, que vai em direção ao norte.
Esta mudança começou no “início dos anos 1970″ e “é única nos últimos 1.800 anos”, escreveram os cientistas no jornal da Academia Americana de Ciências (PNAS, em inglês).
Durante 2 mil anos, a Labrador foi mais forte do que a do Golfo, contou Carsten Schubert, do Instituto de Pesquisa da Água das Escolas Politécnicas Federais (Eawag).
“Agora, a corrente do sul está no topo, é verdadeiramente uma mudança radical”, declarou à AFP.
Para chegar a esta conclusão, os cientistas estudaram a assinatura isotópica do nitrogênio dos recifes de coral, que se alimentam de partículas orgânicas trazidas pelas correntes, analisando o crescimento de seus anéis coloridos em 700 anos.
As águas da corrente do Golfo são salgadas e ricas em partículas orgânicas, enquanto que as águas árticas da corrente do Labrador são pobres em alimentos para os corais.
Os pesquisadores acreditam ainda que “existe uma relação direta entre as variações de correntes oceânicas no Atlântico Norte e o aquecimento global causado pelas atividades humanas”, advertiu a Eawag, em comunicado.
Essas correntes possuem um papel importante no clima mundial, já que estão ligadas a uma oscilação do Atlântico (AMO).
A AMO é uma variação cíclica em grande escala da corrente atmosférica e oceânica no Atlântico Norte que aumenta e baixa alternativamente a temperatura da superfície do oceano e traz efeitos para as condições meteorológicas na Europa e nos Estados Unidos.
(Fonte: Yahoo!)
La Niña atinge auge e deve durar todo o semestre, dizem EUA
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O fenômeno climático La Niña está perto de seu auge e durará até o fim do primeiro semestre, com a ameaça de expandir a seca nas Américas e levar mais chuvas excessivas à Austrália, disse o Centro de Previsões Climáticas (CPC) dos Estados Unidos na quinta-feira (7).
O CPC, uma agência da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, em inglês) dos EUA, disse que o fenômeno La Niña ‘está agora perto de seu ponto mais alto e a previsão é de que dure até a primavera de 2011 no hemisfério norte, com uma intensidade menor.’
La Niña, um fenômeno inverso ao El Niño, causa o esfriamento anormal das águas do oceano Pacífico equatorial, provocando transtornos nos padrões climáticos ao longo da região da Ásia e o Pacífico.
Chuvas relacionadas ao La Niña levaram a Austrália a registrar em 2010 seu terceiro ano mais úmido da história, enquanto que o fenômeno inspirou temores de secas nas zonas cerealistas no sul dos Estados Unidos, além de Brasil e Argentina. O El Niño produz o efeito contrário.
O CPC disse que a principal pergunta é até quando durará o La Niña e acrescentou que ‘persiste uma incerteza considerável sobre se o fenômeno persistirá até o verão no hemisfério norte (segundo semestre).’
Se o La Niña durar até o verão boreal, poderá provocar uma série de furacões na vulnerável zona petrolífera do Golfo do México. O La Niña estimularia a formação de tempestades porque suprime os ventos que, em geral, desfazem as tempestades nas bacias atlântica e caribenha.
O CPC disse que o impacto do La Niña nos EUA inclui chuvas superiores à média no Noroeste Pacífico, que depende de fontes hidrelétricas, e um maior acúmulo de neve nas montanhas rochosas do norte, nos Grandes Lagos e no vale de Ohio.
(Fonte: G1)
Órgão das Nações Unidas classifica 2010 como o ano mais quente desde 1998
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O ano de 2010 foi classificado como o mais quente, considerando a média registrada de temperatura, desde 1998. Também foi um ano marcado por desastres naturais – vulcões, terremotos e enchentes, assim como variações de alta e baixa temperaturas. A conclusão é da Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada às Nações Unidas. Pelos dados da organização, no ranking de anos com temperaturas mais elevadas estão 2010, 2005 e 1998.
Para o OMM, outra caraterística de 2010 foi o elevado número de registros climáticos extremos. O estudo considera e menciona a primeira semana de 2011 como exemplo de continuidade deste processo, como as enchentes na região serrana do Rio de Janeiro.
“[As] enchentes nas zonas de montanha perto da cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, na segunda semana de janeiro, resultaram em mais de 700 mortes, muitas delas causadas por deslizamentos de terra”, diz o relatório.
Em seguida, o documento acrescenta que no ano passado, houve ainda registros de calor na Rússia, inundações no Paquistão, no Sri Lanka e nas Filipinas, além da Austrália.
Em 2010, as temperaturas mais elevadas foram registradas em grande parte da África e nas regiões Sul e Oeste da Ásia. Proporcionalmente, regiões cujas temperaturas são baixas também registraram elevações, como a Groenlândia e o Canadá.
Segundo a OMM, em 2010 a temperatura média foi de 0,53°C acima da média de 1961 a 1990. A elaboração deste levantamento é baseado em dados do Centro de Meteorologia da Grã-Bretanha, no Centro Nacional de Clima dos Estados Unidos e nos estudos da agência espacial norte-americana, a Nasa.
“Os dados confirmam que há uma tendência a partir de 2010 de aquecimento significativo na Terra em um período a longo prazo”, disse o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud. “Os dez anos mais quentes já registrados ocorreram todos desde 1998.”
Nos últimos dez anos, no período de 2001 a 2010, a média global de temperaturas é de 0,46°C acima do registrado na década anterior. O mês de dezembro foi “excepcionalmente quente”, informa o relatório da OMM, no Leste do Canadá e na Groenlândia.
Porém, também em dezembro, houve registros de temperaturas abaixo da média na maior parte da Europa, em países como a Noruega e a Suécia. Também neste período, na Inglaterra, foi registrado o dia mais frio desde 1890. A Rússia e os Estados Unidos também sofreram com as baixas temperaturas no final do ano passado.
(Fonte: Renata Giraldi/ Agência Brasil)
Pântanos, os subestimados salvadores do clima
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“Infelizmente, as pessoas ainda não têm consciência sobre a importância dos pântanos no combate ao aquecimento global”, lamenta John Couwenberg, pesquisador da Universidade de Greifswald, na Alemanha. Embora os pântanos correspondam a apenas 3% da superfície da Terra, eles têm papel importante no ajuste da temperatura do planeta, pois capturam mais gás carbônico do que todas as florestas do mundo juntas.
As áreas pantanosas estão localizadas principalmente nas regiões frias das zonas boreais, entre as latitudes 50 e 70 do hemisfério norte. A Rússia sozinha abriga mais de um quinto dos pântanos em todo o mundo. Outras grandes regiões pantanosas existem também no Canadá e na Escandinávia, além da bacia amazônica e do sudeste asiático. Mesmo na África, segundo Couwenberg, estimam-se significativas áreas pantanosas na bacia do Congo e no Delta do Níger.
Os pântanos se formam quando o solo permanece sob a água durante muito tempo, como por exemplo nas regiões próximas a margens de rios ou em áreas onde há derretimento de neve. Devido à falta de oxigênio embaixo d’água, as plantas mortas decompõem-se mais lentamente do que as que crescem por cima da água.
Com isso, formam-se as turfas (material parcialmente decomposto), que absorvem o gás carbônico armazenado nas plantas. O solo formado pelas turfas, chamado de turfeira, cresce em média 1 milímetro por ano, e retém até 250 milhões de toneladas de CO2.
Faca de dois gumes – Há séculos, os pântanos são drenados para dar lugar a terras cultiváveis ou para extrair material para construção ou combustível. Através dessa drenagem, as turfas começam a se decompor e liberam o dióxido de carbono que haviam absorvido. E assim o armazenador acaba se transformado em disseminador de gás carbônico.
“Em todo o mundo, cerca de 10% dos pântanos foram degradados por causa das drenagens”, explica Couwenberg. Isso leva a uma emissão de gás carbônico de 2 milhões de toneladas por ano, porque as turfas são decompostas por microorganismos.
Diferente do que ocorre com o desmatamento de uma floresta, as emissões de gases causadores do efeito estufa nos pântanos não acontecem apenas uma vez, mas durante todo o tempo em que a turfa se decompõe. Dependendo da turfeira, esse processo pode durar séculos.
Nos últimos 20 anos, a emissão de gás carbônico causada pela drenagem dos pântanos cresceu 20%, em grande parte nos países em desenvolvimento. A degradação dos pântanos é especialmente extensa na Indonésia, onde grandes florestas de turfeiras foram drenadas para o cultivo de azeite de dendê, arroz ou aloe vera.
Além da decomposição das turfeiras, as queimadas nos pântanos, que ocorrem facilmente na turfa seca, fazem da Indonésia o maior emissor mundial de gás carbônico provindo da degradação dos pântanos.
Redescoberta do potencial – Enquanto isso, muitos países têm reconhecido o significado dos pântanos para o clima do planeta e começaram a restaurar suas áreas pantanosas. Existem projetos, por exemplo, na República de Belarus, nos Estados Unidos, no Canadá e na Alemanha. Na Rússia, a área de pântanos protegidos é de cerca de 50 hectares.
Para recuperar um pântano, basta preencher as valas de drenagem, explica a professora Vera Luthardt, da Sociedade Alemã de Estudo das Turfas. “Plantas nativas como juncos, caniços e musgos voltam a crescer normalmente depois de dois ou três anos”, diz ela. Mas até que a turfa volte a crescer, no entanto, são necessários até 15 anos. Para manter o efeito protetor dos pântanos no futuro, segundo Luthardt, é importante buscar alternativas para o uso do solo.
A proteção dos pântanos não descarta seu uso econômico. Os juncos que crescem nas áreas pantanosas podem, por exemplo, servir como fonte para energia de biomassa. “Existem aplicações suficientes para os pântanos, e também já temos tecnologia disponível. O problema está na execução e na vontade dos políticos”, diz Luthardt. São problemas que precisam ser resolvidos rapidamente, já que as turfas drenadas liberam mais gás carbônico por ano do que as emissões causadas pelo trânsito em todo o mundo.
(Fonte: Folha.com)
Pioneiro no estudo do clima fala sobre a era em que o homem desregulou a Terra
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Há 200 anos a Terra vive uma nova era geológica, o Antropoceno, que começou quando o homem tomou o controle do planeta, acelerou as emissões de C02 e “desregulou a máquina do mundo”, afirma o glaciólogista francês Claude Lorius, um pioneiros dos estudos sobre o clima, em seu novo livro “Voyage dans l’Anthropocène” (“Viagem ao Antropoceno”, em tradução livre).
Escrito em parceria com o jornalista Laurent Carpentier, a obra discorre sobre a modificação do clima, a acidificação dos oceanos, a erosão dos solos e a biodiversidade ameaçada.
“O homem é um agente determinante da vida sobre a Terra”, explica o especialista de 78 anos que, em 2008, recebeu o prêmio Blue Planet por seu trabalho.
“Se existe um indicador da atividade humana, esse é o gás carbônico. Se queimamos uma floresta, fazemos uma fábrica funcionar, dirigimos um carro, tudo isso é CO2″, assinala Lorius.
Período - O conceito de Antropoceno foi desenvolvido em 2002 pelo geoquímico holandês Paul Crutzen e desde então abriu um espaço na comunidade científica, indica Lorius.
Para Crutzen, o Antropoceno começa no ano 1784, quando James Watt inventou a máquina a vapor.
O Antropoceno poderia ser acrescentado oficialmente à tabela dos tempos geológicos no 34º Congresso Internacional de Geologia que será realizado de 5 a 10 de agosto de 2012 em Brisbane, Austrália, indica Lorius.
“Para nós, no entanto, esta nova era já é uma realidade”, acrescenta o especialista em geleiras, que contribui desde os anos 50 para o estudo da evolução do clima mediante a análise das bolhas de ar presas no gelo há milênios.
Lorius foi um dos primeiros a vincular o aumento das temperaturas e a crescente concentração de CO2.
“Tivemos uma sorte extraordinária. Acontece que a Antártida era o melhor lugar para se dar conta de que havia um problema global com o clima”, explica.
Mais de 50 anos depois, o cientista admite, no entanto, que se sente pessimista quanto ao modo que a humanidade está se organizando.
“Os cientistas podem demonstrar que o planeta é uno e indivisível, que só há uma atmosfera, um oceano, mas não podem demonstrar aos homens que é de interesse comum preservar o planeta”, assinala.
“Reunir interlocutores com interesses tão diversos não é uma questão de ciência e sim de educação e filosofia”, conclui Lorius.
(Fonte: Folha.com)
‘Negar as mudanças climáticas é como negar a evolução das espécies’, entrevista com o biogeógrafo Jared Diamond
Alerta que vem da lama – Em entrevista ao ‘Aliás’, biogeógrafo Jared Diamond afirma que estamos sob risco de suicídio ecológico.
Rubbish! É a resposta – em bom inglês – do biogeógrafo americano Jared Diamond para a pergunta sacada com frequência pelos “céticos do clima” no afã de congelar o debate ambiental: o aumento da temperatura do planeta, ao qual se atribui a intensificação dos ciclos de calor e frio testemunhada hoje por toda a parte, pode ser o resultado de um ciclo natural da Terra? Rubbish – lixo, besteira. “A ideia de que as mudanças climáticas que estamos presenciando hoje são naturais é tão ridícula quanto a que nega a evolução das espécies”, fustiga o autor de Colapso (Record, 2005), um tratado multidisciplinar de 685 páginas na edição brasileira que analisa as razões pelas quais grandes civilizações do passado entraram em crise e virtualmente desapareceram. E a questão assustadora que emerge de seu olhar sobre as ruínas maias, as estátuas desoladoras da Ilha de Páscoa ou os templos abandonados de Angkor Wat, no Camboja, é: será que o mesmo pode acontecer conosco? Entrevista realizada por Ivan Marsiglia e Carolina Rossetti, em O Estado de S.Paulo.
A resposta de Diamond, infelizmente, é sim. Ganhador do Prêmio Pulitzer por sua obra anterior, Armas, Germes e Aço (Record, 1997), em que focaliza as guerras, epidemias e conflitos que dizimaram sociedades nativas das Américas, Austrália e África, o cientista americano há anos nos adverte sobre os cinco pontos que determinaram a extinção de civilizações inteiras. O primeiro, é a destruição de recursos naturais. O segundo, mudanças bruscas no clima. O terceiro, a relação com civilizações vizinhas amigas. O quarto, contatos com civilizações vizinhas hostis. E, o quinto, fatores políticos, econômicos e culturais que impedem as sociedades de resolver seus problemas ambientais. Salta aos olhos em sua obra, portanto, a centralidade que tem a ecologia na sobrevivência dos povos.
Foi na semana subsequente à pior catástrofe natural da história do País, na região serrana do Rio de Janeiro – a mesma em que um arrepiante tornado surgiu nos céus de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense -, que Jared Diamond falou por telefone ao Aliás. Às vésperas do lançamento no Brasil de um de seus primeiros livros, O Terceiro Chimpanzé (1992), o professor de fisiologia e geografia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, fala das providências cruciais que o ser humano deverá tomar nos próximos anos para garantir sua existência futura. Diz que as elites políticas, seja nos EUA, na Europa, nos países pobres e nos emergentes, tendem a tomar decisões pautadas pelo retorno em curto prazo – até um ponto em que pode não haver mais retorno. Avalia que o Brasil dos combustíveis verdes tem sido “uma inspiração para o mundo”, mas também um “mau exemplo” na preservação de suas florestas tropicais. E fala da corrida travada hoje, cabeça a cabeça, entre “o cavalo das boas políticas e aquele das más”, que vai determinar o colapso ou a redenção das nossas próximas gerações.
O Brasil enfrentou tempestades de verão que mataram mais de 700 pessoas. Debarati Guha-Sapir, do Centro de Pesquisas sobre a Epidemiologia de Desastres da ONU, disse que o tamanho da tragédia é indesculpável, pois o País tem apenas um desastre natural para gerenciar. Como evitá-lo no futuro?
Precisamos estar preparados para um número cada vez maior de tragédias humanas relacionadas a mudanças climáticas. O clima se tornará mais variável. O úmido será mais úmido e o seco, mais seco. A Austrália, por exemplo, acaba de sair da maior seca de sua história recente e agora enfrenta o período mais úmido já registrado no país. Em Los Angeles, onde moro, recentemente tivemos o dia mais quente da história e, há algum tempo, o ano mais chuvoso e também o mais seco que a cidade já viu.
Em seus escritos, o sr. aponta a Austrália como um país com estilo de vida antagônico às suas condições naturais. Mas, em comparação com o Brasil, os australianos se saíram melhor: enfrentaram a pior enchente em 35 anos, mas contabilizaram apenas 30 mortos. Como explicar isso?
É verdade que o modo de vida dos australianos não está em harmonia com suas condições naturais. Mas o estilo de vida dos americanos e dos brasileiros tampouco. O modo de vida do mundo não está em harmonia com as condições naturais deste próprio mundo. No caso da Austrália, o país fica no continente que tem o meio ambiente mais frágil, o clima mais variável e o solo menos produtivo. Mas a Austrália é um país rico e dispõe de mais dinheiro que o Brasil para criar uma infraestrutura que gerencie tais problemas. Em Los Angeles, onde as enchentes são recorrentes, não resta um rio em seu leito natural: todos receberam canais de concreto para reduzir o risco de enchentes. A minha casa fica literalmente em cima de um córrego coberto por uma estrutura de concreto. Nos 34 anos em que vivi nessa casa, apenas duas vezes a água invadiu o porão.
Em Colapso, o sr. lista cinco razões que explicam o declínio das sociedades. Elas continuam as mesmas?
Sim. Os cinco fatores que levo em consideração ao tentar entender por que uma sociedade é mais ou menos propícia a entrar em colapso são, em primeiro lugar, o impacto do homem sobre o meio ambiente. Ou seja, pessoas precisam de recursos naturais para sobreviver, como peixe, madeira, água, e podem, mesmo que não intencionalmente, manejá-los erradamente. O resultado pode ser um suicídio ecológico. O segundo fator que levo em conta é a mudança no clima local. Atualmente, essa mudança é global, e resultado principalmente da queima de combustíveis fósseis. O terceiro fator são os inimigos que podem enfraquecer ou conquistar um país. O quarto são as aliados. A maioria dos países hoje depende de parceiros comerciais para a importação de recursos essenciais. Quando nossos aliados enfrentam problemas e não são mais capazes de fornecer recursos, isso nos enfraquece. Em 1973, a crise do petróleo afetou a economia americana, que dependia da importação do Oriente Médio de metade dos combustíveis que consumia. O último fator recai sobre a capacidade das instituições políticas e econômicas de perceber quando o país está passando por problemas, entender suas causas e criar meios para resolvê-los.
O colapso da sociedade como hoje a conhecemos é evitável ou apenas prorrogável?
É completamente evitável. Se ocorrer, será porque nós, humanos, o causamos. Não há segredo sobre quais são os problemas: a queima exagerada de combustíveis fósseis, a superexploração dos pesqueiros no mundo, a destruição das florestas, a exploração demasiada das reservas de água e o despejo de produtos tóxicos. Sabemos como proceder para resolver essas coisas. O que falta é vontade política.
O Brasil tem feito sua parte?
Nunca estive no Brasil, portanto não posso falar a partir de uma experiência de primeira mão. Mas pelo que entendo, vocês adotaram uma solução imaginativa para a questão energética, com a produção de etanol. O Brasil é uma inspiração para o resto do mundo em relação aos carros flex. Por outro lado, mesmo que o País esteja consciente dos riscos de se desmatar a maior floresta tropical do mundo, muito ainda precisa ser feito. A Amazônia é muito importante para os brasileiros, pois ela regula o clima do país. Se a destruírem, o Brasil inteiro sofrerá com as secas.
De que maneira as elites tomadoras de decisão podem encabeçar a solução dos problemas ou ser responsáveis por conduzir sociedades à autodestruição?
Uma elite que foi competente em solucionar problemas é a composta por políticos dos Países Baixos, que têm grandes dificuldades com o manejo de água, já que um terço da área desses países está abaixo do nível do mar. A Holanda investiu uma quantidade enorme de dinheiro no controle de enchentes. Uma coisa que motivou os políticos holandeses é que muitos deles vivem em casas que estão sob o nível do mar. Eles sabem que se não resolverem a coisa vão se afogar com os demais. Outra elite razoavelmente bem-sucedida é a realeza do Butão, nos Himalaias. O rei butanês disse ao seu povo que o país precisa se tornar uma democracia quer queira, quer não. Ele também anunciou que a meta do país não é aumentar o PIB, mas elevar o índice que mede a felicidade nacional. Isso é verdadeiramente uma meta maravilhosa. Nos EUA, temos políticos poderosos com uma visão curta e destrutiva. Acho que contamos com um bom presidente, mas temos uma oposição cujos objetivos no presente momento se resumem a ganhar a próxima eleição presidencial e, repetidamente, tem negado a existência da mudança climática e do aquecimento global.
De que forma o declínio de sociedades antigas pode nos servir de lição?
Algumas sociedades do passado cometeram erros decisivos, outras agiram com sabedoria e tiveram longos períodos de estabilidade. Um vizinho de vocês, o Paraguai, é um exemplo de país que cometeu um erro crucial, há 120 anos: lutar simultaneamente contra Brasil, Argentina e Uruguai. Isso resultou na morte de 80% dos homens e um terço da população. Tomando como exemplo o Paraguai, precisamos aprender a adotar metas realistas. Podemos aprender também com os países que manejam bem seus recursos, como a Suécia e a Noruega, ou tomar como mau exemplo a Somália – que desmatou suas florestas e hoje sofre com a seca. Em defesa da Somália, podemos argumentar que o país não conta com um grande número de ecologistas capacitados, ao contrário de Brasil e EUA.
O sr. estudou a ascensão e queda de sociedades no passado, mas o que se discute agora é o futuro da própria humanidade. Sua teoria é capaz de explicar os desafios do mundo globalizado?
Sim. É verdade que esta é a primeira vez na história que enfrentamos o risco de o mundo inteiro entrar em colapso. No passado, o colapso do Paraguai, por exemplo, não teve nenhum efeito na economia da Índia ou da Indonésia. Hoje, até mesmo quando um país remoto, como a Somália ou o Afeganistão, entra em colapso isso repercute ao redor do mundo. Mas, por analogia, é possível tirar conclusões semelhantes.
O geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001) enfatizou aspectos socioculturais para explicar os dilemas da sociedade, enquanto seu trabalho é considerado por alguns como geodeterminista. Aspectos culturais não teriam mais influência sobre o futuro das sociedades que os naturais?
Com frequência as pessoas me perguntam se isso ou aquilo é mais importante para explicar o declínio das sociedades. Questões como essas são ruins. É o mesmo, por exemplo, que perguntar sobre as causas que levaram ao fracasso de um casamento. O que é mais importante para manter um casamento feliz? Concordar sobre sexo ou dinheiro, ou crianças, ou religião, ou sogros? Para se ter um casamento feliz é preciso estar de acordo a respeito de sexo e crianças e dinheiro e religião e sogros. O mesmo se dá no entendimento do colapso de sociedades. Fatores culturais são importantes, mas diferenças ambientais não podem ser ignoradas. Por exemplo, as regiões Sul e o Sudeste do Brasil são mais ricas que a Norte. Isso é por causa do meio ambiente, não porque as pessoas no norte sejam burras e as do sul mais inteligentes ou cultas. A explicação é que o norte do país é mais tropical e áreas tropicais tendem a ser mais pobres porque têm menos solos férteis e mais doenças. O mesmo é verdade nos EUA, onde até 50 anos atrás o sul foi sempre mais pobre que o norte. Ao redor do mundo, esse padrão é repetido: países tropicais tendem a ser mais pobres que os de zonas temperadas.
Que sociedades estão em colapso hoje?
Todas as sociedades do mundo estão em risco de colapso. Se a economia mundial colapsar isso afetará todos os países. Nós vimos o que houve dois anos atrás, quando o mercado financeiro americano quebrou, afetando todas as bolsas do mundo. Então, embora todos os países estejam em risco de colapso, alguns estão mais próximos dele do que outros – por uma maior fragilidade ambiental, porque são menos maduros política ou ecologicamente ou por qualquer outro motivo. Por exemplo, o Haiti, que retornou agora às manchetes com a volta do ditador Baby Doc, viu seu governo virtualmente colapsar e continua em grande dificuldade. O México enfrenta dificuldades gravíssimas relacionadas a problemas ecológicos, com a aridez de suas terras, e políticos, com a onda de assassinatos ligada ao tráfico de drogas. Paquistão é um exemplo óbvio, Argélia, Tunísia, que também estão no noticiário… Do outro lado, dos países com menos risco de colapso estão a Nova Zelândia, o Butão e, na América Latina, a Costa Rica. Chile também vai bem. E o Brasil tem melhores perspectivas que vizinhos como a Bolívia, claro.
Países podem se recuperar do colapso?
O colapso normalmente não é definitivo. Houve colapsos no passado que foram sucedidos por retomadas. O Império Romano caiu e, apesar disso, a Itália é hoje um país de Primeiro Mundo.
A Europa, onde o debate a as leis de proteção ambiental mais avançaram, também entrou em crise. Quando isso ocorre, há risco de retrocesso nas políticas ambientais?
É possível. Muita gente sustenta que, quando a economia está fraca, não se consegue investir como se deve no meio ambiente. O colapso econômico de fato põe em risco os avanços em sustentabilidade. Só que os problemas ambientais só são fáceis de resolver nos estágios iniciais. Nesse ponto custam menos, mas se aguardamos 20 ou 30 anos, eles se tornarão muito caros ou impossíveis de solucionar.
Nos EUA, quando o presidente Obama condicionou empréstimos às montadoras americanas ao investimento em carros mais baratos e menos poluentes, a crise não ajudou?
Tanto as crises econômicas podem ter bons efeitos para a política ambiental como fazê-la retroceder. Nos EUA, antes do crash financeiro, estava muito em moda o Hummer, um jipe de 3 toneladas, versão civil de um veículo militar utilizado no Iraque. Era caríssimo e gastava horrores em combustível. Aparentemente, suas vendas despencaram e isso é um efeito positivo da crise econômica. Ainda assim, há americanos ignorantes que ainda insistem em dizer que, uma vez que estamos em crise, podemos deixar a agenda ecológica de lado.
Há modelos econômicos melhores e piores no que diz respeito aos danos ecológicos?
No momento em que falamos, tenho que dizer que o modelo econômico americano não parece ser o mais adequado. Por outro lado, somos uma democracia, com maus políticos, mas também bons – que denunciam os problemas que põem em risco o futuro. Numa ditadura comunista, por exemplo, isso seria impossível. Gosto do sistema capitalista porque ele pressupõe competição, inclusive de ideias. Mas aprecio também o papel do Estado em interferir no capitalismo, evitando os monopólios e enfrentando grupos cujos interesses vão de encontro aos da maioria da população. Em comparação, eu diria que o modelo europeu de capitalismo, mais socializado e comprometido com o bem comum, é atualmente a alternativa menos ruim.
Alguns cientistas afirmam que não se pode dizer ao certo que o aquecimento global seja culpa da ação do homem; pode ser parte de um ciclo natural da Terra.
Sabe a palavra inglesa rubbish? Significa lixo, mas é usada em linguagem coloquial em referência a ideias ridículas. O argumento de que as mudanças climáticas que estamos presenciando hoje sejam apenas naturais é simplesmente ridículo. Tanto como aquele que nega a evolução das espécies. As evidências de que tais mudanças se devem a causas humanas são irrefutáveis. Os anos mais quentes registrados em centenas de anos se concentram nos últimos cinco que passaram. O planeta já enfrentou flutuações de temperatura no passado, mas nunca nos padrões registrados hoje. Não conheço um único cientista respeitável que afirme que as atuais mudanças de clima não se devam à ação humana. É por isso que eu digo: rubbish.
Seis anos depois do lançamento de Colapso, o sr. está mais otimista ou pessimista em relação ao futuro de nossa civilização?
Diria que me mantenho mais ou menos no mesmo nível. Tenho visto coisas ruins piorarem e boas tornarem-se melhores. O que mais me preocupa é que continuamos vendo um aumento vertiginoso do consumo no mundo, seja nos EUA, na China, na Índia ou no Brasil. O que me anima é que cada vez mais pessoas reconhecem a gravidade da situação e estão tomando iniciativas. Uma metáfora que gosto de usar é a da corrida de cavalos. Há dois deles correndo agora, o cavalo da destruição e o cavalo das boas políticas. Nestes últimos seis anos, eu diria que os dois têm corrido cada vez mais rápido, disputando cabeça a cabeça. Não sei qual vencerá a corrida, mas diria que as chances do cavalo do bem vencer são de 51%, enquanto o das más políticas tem 49%. E, se nossa destruição não é certa, nem um destino inescapável, é preciso saber que se não tomarmos medidas urgentes vamos ter grandes problemas.
A indústria do entretenimento mostra, cada vez mais, imagens do fim do mundo, prédios em ruínas, cidades abandonadas. Por que somos tão fascinados por nossa destruição?
Parte disso se deve à força romântica das imagens de civilizações passadas que entraram em colapso, como as ruínas dos maias, incas e astecas. Ou os escombros das guerras no Iraque e no Irã. E pensamos: quem construiu aqueles templos e monumentos, tinha uma cultura e arte admiráveis, podia imaginar que isso aconteceria? Por que essas civilizações entraram em colapso, sem poder evitar? E nos angustiamos: será que isso também vai acontecer conosco?
EcoDebate, 25/01/2011
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Questão de tempo, por Míriam Leitão
[O Globo] Chuvas despencam em volume espantoso sobre áreas do Sudeste, fazendo mais de duas centenas de mortos só na Região Serrana do Rio. Na Austrália, vive-se a maior enxurrada em 120 anos. O Ibama passa por mais uma crise — a terceira — provocada pela exigência de licenciamento da hidrelétrica de Belo Monte. Assuntos separados? Não, partes da mesma insensatez.
Os cientistas estão avisando há tempos que os fenômenos naturais, que sempre estiveram conosco, como tempestades e secas, vão acontecer com mais frequência e com mais intensidade. No ano passado, o caudaloso, abundante e aparentemente infinito Rio Negro, na Amazônia, enfrentou uma seca que o transfigurou. As imagens que chegavam de seu leito seco em algumas áreas eram inacreditáveis para quem já o viu na cheia. Como outros rios amazônicos, ele tem oscilações fortes de volume de água, mas o extremo a que chegou na seca do ano passado foi impressionante. Anos atrás, uma seca na Amazônia exibiu o solo da região mais úmida do Brasil rachada como se fosse o Nordeste. É nessa região que o governo pretende construir a maioria das 61 novas usinas hidrelétricas, que, segundo matéria publicada no GLOBO, vão provocar o desmatamento de 5.300 km de florestas só nas áreas dos reservatórios e das linhas de transmissão. Uma dessas usinas é a mais emblemática e mais polêmica: a hidrelétrica de Belo Monte. Ontem, o presidente do Ibama, Abelardo Bayma, pediu demissão alegando motivos pessoais, mas a informação do Blog Político da “Época” é que ele saiu por discordar da licença de Belo Monte. Já houve outros episódios de desabamento no Ibama por causa da mesma hidrelétrica.
As cidades brasileiras não estão preparadas para o momento atual, o que dirá do futuro que os climatologistas prenunciam e alertam. A arquiteta e urbanista da Unicamp Andrea Ferraz Young me disse ontem que tudo foi feito errado no passado na ocupação do espaço urbano:
— Nunca foi considerado o funcionamento do sistema de margens dos rios e das várzeas, a vegetação foi suprimida sem planejamento. Toda a lógica das bacias e microbacias foi ignorada. As margens dos rios que deveriam ter matas ciliares foram cimentadas e concretadas. Os rios que serpenteavam foram transformados em canais retos. As galerias foram mal dimensionadas. O lixo obstrui tudo. Aí, quando vem a chuva, o solo não consegue absorver a água, e aumenta o volume que cai nos canais, que eram rios. Por não ter obstáculos, a água corre com mais velocidade e se transforma em enxurrada.
Ela acha que diante do aviso dos climatologistas de maior intensidade dos eventos extremos, é preciso repensar seriamente o espaço urbano. Uma das ideias mais óbvias e de mais difícil execução é a remoção de quem mora em área de risco:
— É preciso criar dentro das cidades áreas verdes para que o solo possa absorver a água, reduzindo o impacto da chuva, e, nas secas, elevar a umidade dos centros urbanos.
Tudo parece simples e é adiado. Só que o país corre contra o tempo. A Austrália parece um espelho avançado dos riscos que corremos com as mudanças climáticas. Teve quatro anos de secas extremas, consideradas as piores da história do país. Agora tem uma enchente que provocou em algumas áreas fenômenos chamados de “tsunami interno”. Brisbane, a terceira maior cidade do país, ficou submersa. O prejuízo já se conta em bilhões de dólares e o governo alerta que a população se prepare para o pior.
É neste contexto global de mudança do regime hidrológico que se pensa em construir às pressas e a manu militari hidrelétricas na nossa parte da maior floresta tropical do planeta. Belo Monte para ser construída terá que acabar com o que é hoje chamado de a Grande Volta do rio Xingu. Vai remover mais terra do que o necessário para fazer o Canal do Panamá. Terá uma instabilidade já prevista de geração de energia. A capacidade instalada será de 11 mil megawatts, na média pode ser de 4.000, se tanto. Mas pode-se chegar a apenas mil megawatts em alguns períodos do ano. Não estão bem dimensionados os custos fiscais, o governo estatizou o risco econômico através das empresas, do financiamento e dos fundos de pensão. Já os riscos ambientais não podem ser devidamente avaliados porque cada vez que o Ibama tenta fazer isso rolam cabeças. Foi assim que aconteceu em dezembro de 2009 com o então diretor de licenciamento Sebastião Custódio Pires e com o coordenador de infraestrutura e energia Leonildo Tabaja. Logo depois, em janeiro de 2010, o Ibama foi chamado à Casa Civil e enquadrado. Que o licenciamento saísse. Publiquei aqui neste espaço no dia 17 de abril, na coluna “Ossos do Ofício”, a reprodução dos documentos em que o Ibama foi simplesmente atropelado para dar a licença prévia. Agora querem a licença de instalação da mesma forma. A construção de Belo Monte enfrenta oito ações do Ministério Público.
Que país é este, que mesmo diante dos alertas da Natureza de que todos os riscos ambientais precisam ser bem avaliados porque o clima está mudando de forma acelerada, acha que se deve soterrar as dúvidas com uma barragem de autoritarismo? Que país é este, que acha que pode continuar ocupando o espaço urbano sem planejamento, não corrigir os erros do passado e contratar a repetição de tragédias? Ontem, o Bom Dia Brasil mostrou que moradores estão voltando a morar no Morro do Bumba, em Niterói, que desabou porque era uma favela feita sobre um lixão. Que país canta “Às margens do Ipiranga”, mas soterra o Ipiranga sobre concreto, como fez com inúmeros outros rios, córregos, riachos? Se você mora em tal país, está na hora de exigir que ele comece a mudar. É uma questão de tempo.
Texto no Blog de Mírian Leitão, em O Globo.
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Clima: as cidades não podem esperar mais, artigo de Washington Novaes
[O Estado de S.Paulo] Postos mais uma vez, de forma dramática, diante da questão das inundações nas áreas urbanas, os habitantes da Grande São Paulo – assim como fluminenses, cariocas, mineiros e outros -, aturdidos, perguntam-se o que se fará, o que os espera, se o que prometem governos e autoridades será capaz de evitar repetições e agravamentos.
O autor destas linhas escreve há pelo menos 30 anos sobre mudanças climáticas e “eventos extremos” – como dizem os especialistas. Constata que tiveram e têm razão os cientistas que advertiram sobre a gravidade progressiva previsível. E vê que, do ângulo do poder, a visão não foi e não é essa: em geral, os desastres são encarados como fenômenos episódicos, excepcionais, sem a gravidade progressiva. Mas essa visão não corresponde ao que acontece no mundo, onde a cada ano centenas de milhões de pessoas são vítimas desses fenômenos e os prejuízos materiais crescem na casa das centenas de bilhões de dólares anuais. Em 2010 foram 950 “catástrofes naturais” no planeta. No Brasil, o balanço de 2010 (Estado, 6/1) é de 473 mortes em 11 Estados, 7,8 milhões de pessoas afetadas pelos desastres em 1.211 municípios, 101,2 mil desabrigados por eles (agora, mais de 700 só na Região Serrana do Rio de Janeiro). O Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) identifica no País 500 áreas de risco e 5 milhões de pessoas expostas.
Talvez uma das maiores evidências desse comportamento possa ser vista nas mais recentes inundações na cidade de Goiás, que é patrimônio cultural da humanidade declarado pela Unesco – e onde se repetiram agora, em grau menor, as enchentes de 2002 no Rio Vermelho. Naquela ocasião, o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios Históricos (Icomos), da Unesco, fez uma série de recomendações. Hoje se verifica que nada foi seguido.
Não são diferentes os casos atuais em outros lugares. Já em meados do ano passado o IBGE dizia (Estado, 21/8/2010) que só 6,1% dos municípios acompanhavam índices pluviométricos e adotavam comportamentos compatíveis. Em quase todos a situação era semelhante: bueiros obstruídos, ocupação intensa e desordenada do solo, lixo entupindo a drenagem urbana, etc. Dois meses depois (27/10), este jornal noticiava que o Sistema (estadual) de Previsão e Alertas sobre Enchentes falhara e não previra (duas horas antes, como deveria) o transbordamento de um ribeirão em Americanópolis, com vítimas de morte. Um mês antes, a Prefeitura dissera que a cidade estava “bem preparada para enchentes” (21/9). Mais curioso, na mesma notícia, é as autoridades municipais dizerem: “A atual gestão já encomendou pesquisas que indicam nova temporada de chuvas fortes a partir de dezembro”. De fato, neste janeiro, só até dia 11 caíram 221,2 milímetros de chuva, 93% das esperadas para o mês todo, de 239 milímetros (12/1). Melhor nem falar no Estado do Rio, onde, segundo o coordenador da Defesa Civil, caíram na Região Serrana 260 milímetros em 24 horas, ou 260 litros de água por metro quadrado de solo.
E que poderia acontecer, se nos Rios Tietê e Pinheiros se acumulam 4,2 milhões de metros cúbicos de sedimentos e outros detritos, suficientes para encher 350 mil caçambas? Que pensar, se no desassoreamento do Rio Tietê e aprofundamento da calha já foi aplicado mais de R$ 1 bilhão? Só se pode lembrar o que há anos já dizem técnicos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente: com mais de 30 córregos e rios sepultados, sedimentos continuarão a ser carreados para o Tietê, incluindo os depositados nas cabeceiras.
Há poucos dias, o Centro Democrático dos Engenheiros de São Paulo lançou manifesto em que lembra ser a causa principal dos problemas “a ocupação de áreas inundáveis de córregos e rios”, isto é, de áreas de inundação natural, periódica e previsível. Para isso contribuíram tanto a especulação imobiliária como populações carentes. E se somaram a erosão, dispersão do lixo, deposição de esgotos. Fora a “desconexão” entre órgãos encarregados de enfrentar os problemas. E esta última, diz o manifesto, é a questão mais grave que precisa ser enfrentada.
Muitas pessoas tentam, em mensagens ao autor destas linhas, expor suas propostas. É o caso do engenheiro naval Geert J. Prange, com 45 anos de experiência – inclusive em projetos de drenagem -, que propõe a “sifonagem de águas pluviais para a Baixada Santista”, na tentativa de aliviar a situação da capital, já que “no último verão caíram 720 milhões de metros cúbicos de água”. Isso poderia ser feito em tubos de dois metros de diâmetro, ao longo de dezenas de quilômetros. Já o engenheiro Braz Juliano, formado há 62 anos, recomenda que São Paulo estude com atenção o sistema de drenagem profunda da Cidade do México, que está 200 metros acima do nível do mar e para ele conduz, com poços e túneis, desde 1910, o excesso de água. Aqui, diz ele, as águas poderiam ser levadas para a Praia Grande, em direção ao Vale do Rio Juqueri.
São Paulo não pode adiar mais algumas decisões: 1) Implantar uma macropolítica que oriente toda a questão urbana e descentralize ao máximo a administração, de modo a colocá-la o mais próximo possível dos problemas em cada lugar; 2) estabelecer rigor máximo nos licenciamentos, para evitar novos impactos (adensamentos, congestionamentos, poluição, etc.); 3) rever todas as ocupações em áreas de risco e promover o reassentamento dos habitantes; 4) exigir em cada construção um sistema de retenção de água de chuvas (para minimizar o risco de inundações), até para utilização posterior; 5) impedir mais impermeabilização de solo e trabalhar para remover parte do que está feito; 6) aperfeiçoar o sistema de previsão e alerta de eventos extremos; 7) tomar decisões inadiáveis na área de transportes (rodízio mais abrangente? Pedágio em certas áreas, para aumentar a velocidade dos ônibus? Licenciamento de novos veículos só com a exigência de retirar outros de circulação?).
O importante é ter pressa.
Washington Novaes é jornalista.
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
EcoDebate, 25/01/2011
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TERRAMÉRICA - El Niño e La Niña crescem e perturbam
Por Stephen Leahy*
Cientistas acreditam que o aquecimento pode estar influindo no sistema climático-atmosférico El Niño, cuja fase fria, La Niña, já repercute na produção de alimentos.
Uxbridge, Canadá, 10 de janeiro (Terramérica).- O planeta vive a manifestação meteorológica mais forte do La Niña em 50 anos, com inundações sem precedentes na Austrália e secas no Brasil, Uruguai e Argentina, que afetam inclusive os preços dos alimentos. Os cientistas começam a considerar que a mudança climática poderia estar potencializando os impactos do El Niño/Oscilação do Sul (Enos), um ciclo que afeta periodicamente os padrões meteorológicos em todo o mundo.
La Niña e El Niño são, respectivamente, as fases fria e quente do Enos, e fazem parte do sistema de regulação do calor no Oceano Pacífico equatorial. Ambos se apresentam quando as mudanças oceânicas e atmosféricas são simultâneas. Em condições definidas pelos especialistas em clima como “neutras”, as altas pressões costumam dominar a atmosfera do Pacífico oriental, enquanto as baixas predominam no oeste. A diferença de pressão gera os ventos alísios, que sopram de leste para oeste sobre a superfície do Pacífico equatorial, levando as águas quentes para o ocidente. As águas profundas e mais frias emergem, então, no leste para substituir as quentes.
Nos eventos do La Niña, estas diferenças de pressão são mais acentuadas, os alísios sopram com mais força e geram uma corrente fria mais intensa no Pacífico oriental. Por outro lado, com o El Niño a pressão alta se apresenta no Pacífico ocidental, e a baixa próximo das costas americanas. Os alísios enfraquecem ou mudam de direção e as águas quentes se expandem pelo leste do oceano. “Em 2010 houve uma transição muito rápida do El Niño para o La Niña”, disse ao Terramérica o especialista em clima Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, com sede no Estado do Colorado, centro dos Estados Unidos.
O El Niño foi forte, durou um ano e terminou em maio, e no prazo de apenas dois meses surgiu o La Niña, explicou. O atual La Niña não só pôs fim a dez anos de seca na Austrália como inundou cerca de 850 mil quilômetros quadrados nesse país, área equivalente à da França e Alemanha juntas. Também causou inundações mortais no norte da América do Sul e criou condições de seca nas partes central e sul do continente. Em consequência, foram afetados os rendimentos agrícolas. Os preços internacionais dos alimentos alcançaram um recorde em dezembro, informou no dia 5 a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).
“Desde a década de 1970 são registradas mudanças no fenômeno El Niño-La Niña. Trata-se de um ciclo complexo, mas as secas, inundações e outras manifestações associadas a ele foram mais fortes nos últimos 30 a 40 anos”, disse Kevin. Como o aquecimento altera os fundamentos do sistema climático mundial, prendendo mais calor e até 4% mais vapor de água na atmosfera, é razoável concluir que também influa no Enos. “Seria surpreendente se não o fizesse”, afirmou.
Foram os pescadores peruanos que criaram o nome El Niño, por causa do Menino Jesus, pois notavam os efeitos do aquecimento das águas nessa área do Pacífico próximo ao Natal. Com o passar dos meses, e às vezes dos anos, o calor superficial do oceano se dissipa e as águas mais frias e profundas sobem para a superfície. Assim são restauradas as condições naturais ou se apresenta o La Niña, que traz consigo correntes ricas em nutrientes que causam uma explosão da vida marinha e boas temporadas de pesca.
Os pescadores podem esperar um bom ano para 2011, pois um La Niña intenso domina o Pacífico. “Este é um dos eventos mais fortes do La Niña no último meio século, e, provavelmente, persistirá no verão boreal”, disse em um comunicado Bill Patzert, oceanógrafo e especialista em clima do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, a agência espacial norte-americana.
O Enos tem um ciclo de três a sete anos, com média de quatro anos para passar de El Niño para La Niña. Porém, varia consideravelmente, tanto em periodicidade como em força, segundo Kevin. Cada ciclo é diferente e imprescindível e no momento é impossível tentar reproduzi-lo mediante modelos climáticos informatizados, acrescentou. Apesar de haver provas de que as inundações e as secas pioraram, a ciência ainda não conta com provas claras de que a mudança climática afetou o ritmo do Enos, por exemplo, encurtando o ciclo, como ocorre agora, “mas poderia estar acontecendo”, afirmou.
As emissões poluentes em razão das atividades humanas agem como uma dupla coberta sobre a atmosfera, prendendo mais calor do que o retido naturalmente. Quase todo este calor extra é absorvido pelos oceanos. Estes vêm esquentando desde os anos 1970, e é provável que isso também influa no Enos, disse Julia Cole, cientista climática do Instituto do Meio Ambiente da Universidade do Arizona. O Enos sempre teve uma enorme variação, e suas forças motrizes ainda não são totalmente conhecidas, o que torna muito difícil determinar como é afetado pela mudança climática ou prever futuras modificações do ciclo, disse Julia ao Terramérica em entrevista por correio eletrônico.
Contudo, as últimas pesquisas sugerem que no futuro “poderemos, inclusive, termos novos ‘sabores’ do ENOS”, acrescentou a cientista. As inundações causadas pelo La Niña na Austrália não tem precedentes. Pelo menos dez pessoas morreram e as perdas são calculadas em milhares de milhões de dólares. Boa parte das inundações ocorreu no Estado de Queensland, cujos rios fluem para o Mar do Coral, e espera-se que tenham repercussões importantes na Grande Barreira de Coral.
As águas das chuvas varreram as terras, removendo e arrastando para o mar enormes quantidades de sedimentos e substâncias contaminantes. É provável que tenham “um impacto enorme” no maior sistema de arrecifes do mundo, disse Charlie Veron, ex-chefe científico do Instituto Australiano de Ciências Marinhas. “Sem dúvida, este La Niña tão forte está provocando as inundações, mas a mudança climática poderia estar potencializando seus efeitos”, disse Charlie por correio eletrônico.
As vastas plantações de cana-de-açúcar de Queensland submergiram, mas os cultivos no Brasil, Uruguai e Argentina estão ressecados pela falta de chuva que, no final de dezembro, já causou carestia dos alimentos, segundo um informe da FAO divulgado no dia 5. As contínuas secas na Argentina e o mortal frio na Europa e América do Norte poderiam ajudar a elevar ainda mais o preço dos alimentos, alerta a FAO. Embora o La Niña mantenha fria boa parte do Pacífico sul há meses, 2010 igualou 1998, quando o El Niño se manifestou com intensidade. São os dois anos mais quentes da história desde que começaram os registros.
* O autor é correspondente da IPS.
Crédito da imagem: Cortesia Nasa/FSFC, Modis Rapid Response
Legenda: A bacia do Rio Fitzroy, na Austrália, no dia 4 de janeiro de 2011. A superfície inundada aparece em azul escuro e as manchas celestes são nuvens.
LINKS
El Niño mostra no Peru sua pior face
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El Niño amansa ciclones
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Clima: Cada vez mais quente – Cobertura especial da IPS Notícias, em espanhol
http://www.ipsnoticias.net/_focus/cclimatico/index.asp
Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, em inglês
http://ncar.ucar.edu/home
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, em espanhol, inglês, francês e outros idiomas
http://www.fao.org/index_es.htm
Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em inglês
http://www.jpl.nasa.gov/
Instituto do Meio Ambiente da Universidade do Arizona, em inglês
http://www.environment.arizona.edu/
Instituto Australiano de Ciências Marinhas, em inglês
http://www.aims.gov.au/
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
(Envolverde/Terramérica)