http://motherjones.com/politics/1998/03/theo-colborn
Uma controvertida cientista fala sobre plásticos, QI e o útero.
Theo Colborn
— By Marilyn Berlin Snell
March/April 1998 Issue
Por seu trabalho pioneiro sobre o efeito diário que substâncias químicas comuns têm sobre as crianças, Theodora "Theo" Colborn tem sido chamado de "a Rachel Carson dos anos 90". Assim como Carson foi ridicularizada por seu livro “Silent Spring”, em 1962, quando alertava para os perigos do agrotóxico organoclorado DDT, Colborn esteve na berlinda por seu livro de 1996, “Our Stolen Future”, ‘Nosso Futuro Roubado’ (co-autoria com Dianne Dumanoski e John Peterson Myers). A mensagem controvertida de Colborn é que exposições, mesmo em baixas doses para muitos dos produtos químicos sintéticos encontrados em plásticos comuns, produtos de limpeza e cosméticos, podem afetar recém-nascidos e fetos em desenvolvimento. Além disso, podem causar uma série de problemas, incluindo baixo QI, malformações genitais , baixa contagem de espermatozóides e infertilidade.
Embora os cientistas manifestam preocupações há mais de 25 anos sobre substâncias que prejudicam as glândulas endócrinas (ou os receptores hormonais), pesquisadores como Colborn vêm utilizando uma abordagem multidisciplinar, fundindo áreas como toxicologia, endocrinologia, embriologia e psicologia, o que resultou em avanços recentes. Alguns críticos têm julgado Colborn trabalho como pseudociência o medo. No entanto, em dezembro de 1997 um relatório publicado pelo National Institutes of Health (nt.: um dos maiores centros oficiais de pesquisa no mundo), um pesquisador designado para rever os estudos citados no livro com relação à baixa contagem de espermatozóides, fica surpreso ao descobrir que a contagem tanto na Europa como nos EUA são ainda inferiores àquela que Colborn havia relatado inicialmente.
Agora aos 70 anos, Colborn criou quatro filhos e trabalhou tanto como um farmacêutico como criadora de ovelhas, antes que suas preocupações ambientais lhe inspirasse a retornar à universidade. Recebeu seu doutorado em Zoologia aos 58 anos e agora é uma cientista sênior do World Wildlife Fund, onde dirige seu Programa da Vida Selvagem e Contaminantes
Q: Um relatório recente dos NIH demonstrou que um numeroso grupo de poluentes orgânicos e químicos industriais agem como hormônios, como estrogênicos que podem tanto apresentar características femininas como bloquear os hormônios masculinos.
A: Exato.
Q: Que implicações isso acarreta?
A: O que eu sempre digo é que estamos a castrar a população. Estamos tornando as fêmeas mais masculinas e os machos mais femininos. Até 56° dia a partir da concepção, não se pode afirmar qual o sexo do feto. O tecido que lá vai se construindo, no devido tempo, produzirá testículos ou ovários. Agora então, será preciso apenas um ligeiro ajuste de um hormônio para fazê-lo desenvolver em um tecido do sexo masculino e tornar-se um testículo, ou outro ajuste na direção contrária e se tornará um tecido do sexo feminino. O que estamos descobrindo em peixes e aves e até mamíferos são agora ovotestes (nt.: órgão reprodutivo hermafrodita que produz tanto espermatozóides como óvulos, encontrada em certos moluscos), ou testículos que têm tecido ovariano neles.
Nós descobrimos uma nova série de efeitos sutis, o que provavelmente ocorrerá durante o desenvolvimento embrionário e fetal e que têm efeitos em longo prazo que afasta o indivíduo de alcançar o seu pleno desenvolvimento masculino ou feminino.
Q: Que tipo de efeitos?
A: Temos observado um aumento de hipospadia em meninos. Hipospadia é uma condição onde a uretra não alcança o final do pênis. Esse processo particular de desenvolvimento começa no útero no 56° dia de gestação e termina no 84°.
Q: E não tem nada a ver com a predisposição genética?
A: Absolutamente não. Mas o que causa esta condição é a dioxina e o DDT. E não é só este tipo de hipospádia que está aumentando, mas também a forma mais grave, quando o fim da uretra sai realmente do escroto. É quase impossível a reparação cirúrgica. Hipospádia e criptorquidia, ou testículos retidos – é uma outra condição que resulta em machos não completamente desenvolvidos no útero –, que expõe os jovens a maiores riscos de desenvolverem cânceres testiculares, que é um dos cânceres que mais cresce no mundo. Ele está ocorrendo em homens cada vez mais jovens. Finalmente, os machos com hipospádia e testículos retidos sempre produzem menos espermatozóides, o que significa que eles estão mais propensos a ter problemas reprodutivos.
Tudo isso deve ser levado em consideração quando se discute a gravidez, mas muitas vezes nos esquecemos do embrião. Mesmo a nova organização governamental ‘Children's Health Initiative’ fala sobre a criança de seu nascimento até sua puberdade. Eles não falam sobre a exposição pré-natal. Por alguma razão, há o temor de que se falarmos sobre o embrião, as pessoas misturarão com a questão do aborto.
Q: Você determinou que a exposição precoce a toxinas como o chumbo, os PCBs, as dioxinas é muito mais prejudicial do que a exposição mais tarde em suas vidas. Por quê?
A: Durante o desenvolvimento embrionário e fetal, o cérebro ainda não está desenvolvido, então temos um indivíduo que não tem o mecanismo de feedback para se proteger. O feto ainda continua desenvolvendo novo tecido, construindo seu sistema nervoso, a construção de elementos de seu sistema imunológico e do aparelho reprodutivo. Quando todos os nossos órgãos estiverem formados e com pleno funcionamento, precisa-se muito mais em energia para expandi-los.
Q: A transferência destes produtos químicos que geram disfunção endócrina ocorre não só durante a gravidez, mas também durante a amamentação. Segundo as estimativas da EPA, um bebê que é amamentado, durante um ano, vai receber entre 4 e 12 por cento de toda sua exposição a dioxinas no total de sua vida. Neste momento, a amamentação faz mais mal do que bem?
A: Nós não temos ainda provas suficientes. Mas eu vou lhe dizer francamente que eu não quero ter que tomar esse tipo de decisão hoje mesmo. Parece que a amamentação fortalece o sistema imunológico de um bebê, mas também sabemos como essas substâncias químicas podem estar interferindo com a competência imunológica nessas crianças. Até agora, os benefícios parecem compensar os riscos, mas nós simplesmente não sabemos.
Q: Existe alguma maneira de provar uma relação causal entre esses perturbadores endócrino e problemas de desenvolvimento nas crianças, tais como déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)?
A: Nunca teremos condições de provar uma relação causal de algo em seres humanos simplesmente porque não podemos administrar substâncias químicas para os humanos e esperar pelo seu crescimento e ver o que ocorre. Com a síndrome do ADHD/TDAH é muito difícil em razão de que o sintoma é provavelmente precipitado no período pré-natal ou nos primeiros tempos da infância através de algo que interfere com o desenvolvimento do cérebro. E a presença desse químico neste indivíduo mais tarde em sua vida pode ou não indicar que ele foi a causa. Apesar do fato de que houve muitas crianças que foram mal diagnosticadas, acredito que essa síndrome está em crescimento. E a evidência é quase esmagadora de que essas substâncias químicas estão envolvidas.
Q: Ainda com relação aos dados em seu livro, um jornal conservador afirmou categoricamente que não havia absolutamente nenhuma evidência conclusiva ligando problemas de desenvolvimento e químicos ambientais.
A: Isso não é verdade. Vou apenas mencionar um novo relatório da Agência dos EUA para Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças que diz que uma parte considerável da nossa população infantil está exposta aos PCBs e seus co-contaminantes e que esses químicos estão afetando nossas crianças em seus desenvolvimentos neurológico e neuromuscular.
Q: De acordo com estatísticas das Nações Unidas, de 1950 a 1955, a taxa global de fecundidade era de 5 filhos por mulher, hoje é estimada em 2,8. Muitos louvam este declínio e citam educação, planejamento familiar, a urbanização e casamentos mais tarde como as causas. Não se presta muita atenção a possíveis fatores ambientais.
A: Não é incrível? Começamos primeiro a ver um declínio em 1970. Esse foi mais ou menos o tempo que o primeiro grupo de indivíduos foi exposto, no útero, e que atinge a idade reprodutiva. Eu disse que há uma conexão o tempo todo, mas ninguém quer levar esses químicos em consideração.
Q: Mas, certamente, temos de reconhecer os fatores sociais.
A: Claro que sim. Mas fatores ambientais vêm sendo muito mais importantes que as pessoas imaginam. Mesmo Paul Ehrlich [um famoso biólogo populacional da Universidade de Stanford], que tem focado sobre mudanças demográficas causadas por mulheres que receberam educação que impacta as taxas de fertilidade, está recuando. Ele admitiu agora que temos também de incluir produtos químicos tóxicos em que a mudança demográfica.
Q: Como as corporações têm respondido a suas pesquisas?
A: Vamos ver como as coisas acontecem. Na noite passada eu vi, na televisão, uma novo propaganda sobre as maravilhas do plástico e como ele faz seguro o mundo para as crianças. Eu sei que isto é uma resposta direta ao nosso trabalho. E desta forma que eles estão gastando seu dinheiro: criando uma imagem de boa mãe e de um belo sorvete de creme onde eles sabem que serão destruídos assim que a ciência for avançando.
Q: Há algum trabalho com você?
A: Não são com os principais fabricantes de produtos químicos – os pólos petroquímicos, as indústrias de plásticos e os fabricantes de agrotóxicos. Mas as pessoas para quem fornecem, sim. As pessoas que realmente produzem e embalam os produtos de consumo que entram em nossa casa estão muito preocupados, porque sabem que no final eles serão responsabilizados.
Q: Mas se as substâncias que geram disfunção endócrina e seus sub-produtos estão sendo totalmente empregados na produção de papel, solventes e plásticos, como podemos evitá-las?
A: Teremos que fazer uma triagem. Precisaremos reconhecer de que há certos lugares em que iremos usar alguns destes produtos químicos, como nos aviões, em pontes ou em materiais de construção que não estaremos expostos diretamente. O fato é que alguns plásticos são muito mais duráveis do que o aço. Mas temos que nos livrar daqueles produtos químicos que desregulam o sistema endócrino empregados em brinquedos, cosméticos e em produtos de limpeza.
Q: O governo está fazendo mais do que apenas pedir mais estudos?
A: A EPA está se movendo muito rapidamente. Mas não pode fazer nada até que nós cheguemos com as recomendações para os métodos de triagem e as análises.
No entanto, todas as indústrias já começaram a testar seus produtos. Eles não estão esperando. Estou convencido, e eu tenho dito isso publicamente, que a indústria está principiando a fazer uma grande quantidade de mudanças antes que o governo sequer tenha se mobilizado para fazer a primeira regulamentação. As indústrias já estão modificando seus produtos.
Q: Quais produtos?
A: Por exemplo, costumamos ver "embalagem plástica para microondas" no supermercado. Agora, a maioria dos fabricantes só está colocando "embalagem plástica" na caixa e dando instruções claras quanto a seu uso no microondas. [Estudos têm mostrado que os produtos químicos lixiviam de alguns plásticos quando aquecidos.]
Q: Para um leigo, suas advertências sobre os perigos dos desreguladores endócrinos são convincentes. Mas quando a pesquisa tão acaloradamente é contestada, não se pode deixar de pensar que esta pode ser apenas mais uma campanha "a tecnologia é ruim".
A: As pessoas devem verificar nas revistas científicas como também devem observar, com muito cuidado, sobre quem está apoiando e financiando tanto os cientistas como a pesquisa além de ver quem está escrevendo sobre o assunto.
A questão é muito confusa, em parte porque há uma grande quantidade de indústrias envolvidas – de petróleo, da área química, dos agrotóxicos e de produtos farmacêuticos. Busca então dar uma olhada que tipo de cientistas estão buscando demonstrar que a desregulamentação endócrina é real. Onde eles conseguem o dinheiro para sua pesquisa? Segue a trilha do dinheiro. É isso que o público deve fazer.
Q: Significa então que os cientistas independentes vão ter que liderar esse caminho, mesmo que não tenham recursos financeiros para isso.
A: A responsabilidade deve recair sobre as indústrias que fizeram seus capitais em cima desses produtos. Eles poderiam facilmente dar-se ao luxo de levantar uma soma de 100 milhões de dólares por ano para apoiar o tipo de calendário de pesquisa que precisamos realizar. A indústria tem a responsabilidade moral de colocar esse dinheiro num fundo para essa finalidade. E, vamos enfrentar esse desafio. Afinal, eles não querem uma população saudável para quem possam vender seus produtos?
Q: Podemos ser realistas, por um momento? Será que realmente achas que a indústria está disposta a agir no interesse público, quando há tão poucos exemplos de isso acontecer?
A: É exatamente por isso que estou fazendo esta afirmativa. Rezo para que possamos encontrar um ou dois executivos de corporações que realmente sejam conscientes que estejam dispostos a dedicar o resto de suas vidas para as gerações futuras. Esta é a nossa única esperança. É por isso que eu estou fazendo este trabalho. Rezo para viver o tempo suficiente que possa amealhar um número suficiente de pessoas que façam isso.
Tradução livre de Luiz Jacques Saldanha, dezembro de 2010.