http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2010/08/05/AR2010080506807.html
Soa o alarme sobre a queima de lixo nas zonas de Guerra no Afeganistão e Iraque
By Maria Glod
Washington Post Staff Writer
Friday, August 6, 2010
Centenas de membros do serviço militar e funcionários contratados cairam doentes com câncer ou problemas severos de pulmão depois de servirem no Iraque e no Afeganistão (Iraq and Afghanistan). Dizem terem sido envenenados pela espessa e negra fumaça produzida pela queima de toneladas de lixo geradas pelas bases dos EUA.
Em um processo na corte federal em Maryland, 241 pessoas de 42 states estão processando a firma terceirizada com sede em Houston, Kellogg Brown & Root, que operou em mais do que duas dezenas desses “buracos quentes” nos dois países. Esses buracos foram usados para disporem as garrafas plásticas, as embalagens de isopor para alimentos, tintas, pedaços de metal, solventes, lixo de ambulatórios médicos e mesmo animais mortos. Todo esse resíduo era ali jogado e após ser encharcado com gasolina, era ateado fogo.
O pessoal do exército e os trabalhadores civis contam que inalavam esta neblina tóxica que vinha desses buracos e que causava severas enfermidades. Seis morreram com leucemia e cinco estão sendo tratados dessa doença, um câncer do sangue e da medula óssea. À noite, mais do que uma dúzia está entubado para poderem respirar ou estão monitorando suas respirações, já outros usam inaladores.
"Tossia-se com aquela fumaça preta e nem se conseguia recuperar o fôlego. Os olhos estavam sempre queimando", disse Anthony Roles, 33 anos, da cidade de Little Rock, pai e aposentado da Força Aérea. Foi-lhe dito que apresentava uma desordem no sangue logo depois de seu retorno do Iraque, em 2004. "Ainda posso sentir aquele cheiro até hoje".
Roles disse que havia um apelido para aqueles sintomas: "Nojo Iraquiano".
Se os litigantes, onde estão os antigos e atuais membros do serviço militar ou os empregados da KBR, puderem comprovar na justiça que a queima a ar livre tornou-os enfermos – ou que a KBR tem alguma responsabilidade – fica na dependência de complexas questões jurídicas e médicas. Não há garantia de que a Justiça consentirá de que seus casos sejam levados a julgamento. Mas essa ação judicial chamou a atenção do Congresso e levou o governo a limitar essas queimas de lixo em buracos.
Em março (nt.: desse ano de 2010), os militares baniram a maioria das queimas a céu aberto em lixões de plásticos, pneus, latas de aerossol e outros materiais. Em abril, o Departamento de Assuntos dos Veteranos identificou estes buracos de queimar lixo como um perigo ambiental. No mês passado (nt.: julho de 2010), a Associação Americana do Pulmão, citando o risco de saúde dos soldados, exigiu que os militares encontrem imediatamente outros meios de disposição do lixo.
“É trágico quando os soldados retornam e sem terem recebido nenhum arranhão do inimigo, portam problemas que provavelmente vão lhe alterar suas vidas por causa das queimas dos lixões”, diz a congressista democrata Carol Shea-Porter, uma dos muitos legisladores que buscaram alterar os limites de tais lixões.
Os funcionários da KBR dizem que os militares decidiram quando usar estas queimas a céu aberto bem como onde instalar estes lixões e quando fechá-los. Eles apontaram para um estudo dos militares de 2008 sobre o local de queima o lixo na Base Aérea de Balad. Esse estudo, amplamente utilizado para avaliar os riscos à saúde da queima de lixo nestes buracos, concluiu que não houve efeitos de longo prazo.
“Questionamos o exército se eles acreditavam de que estava tudo bem para nós no sentido de continuar com o serviço de queimar o lixo além de estar junto a esse processo. Na verdade, queríamos ter certeza de que nosso povo foi adequado protegido”, disse Jill Pettibone, vice-presidente sênior da KBR. "Eles nos garantiram que era".
Até 2007, a KBR era uma subsidiária de engenharia e construção da Haliburton, uma companhia de serviços de campos de petróleo, que é a ré no processo judicial.
R. Craig Postlewaite, diretor interino dos Programas de Prontidão e Proteção à Saúde da Força do Departamento de Defesa, disse no processo da justiça que o exército admitia que isso é “plausível e mesmo possível que um número relativamente pequeno de pessoas ... podem ter sido afetados por efeitos de saúde mais sérios e de mais longo prazo”. Um porta vez do Departamento de Defesa disse que o governo está estudando as exposições sofrida e que “nossa prioridade número um é a saúde dos membros envolvidos no serviço militar”.
Michele Pearce of McLean, tenente coronel da Força Aérea e mãe de dois filhos, disse que ela tentou ignorar a irritação de suas narinas e o nariz correndo durante os quatro meses de sua temporada em Camp Victory no Iraque. Ela permaneceu trabalhando, apesar de um desarranjo estomacal e uma erupção cutânea que se espalhou por seu rosto. E como uma corredora contumaz, muitas vezes ao se exercitar inalava essas fumaças no espaço da base.
Quando retornou para sua casa, Pearce, de 40 anos, ficou a par de que tinha dois tipos de raros cânceres. Disse que seu médico não sabia dizer se aquela fumaça havia causado o tumor na camada interna de seu estômago ou daquele em seu pulmão. Assim, ela se associou a esse processo para encontrar respostas.
“Quero saber a verdade sobre o que eu fui exposta”, diz Pearce. “Quero saber a verdade sobre os riscos que a gente teve quanto à minha vida e à minha saúde. Desejo que minha experiência possa de alguma forma beneficiar o processo e dar respostas, não só para mim, mas para outros”.
O problema da disposição final dos lixos
Onde e como dispor o lixo é um difícil problema em tempos de guerra. Os oficiais do exército dizem que a queima a céu aberto foi, muitas vezes, o melhor – se não a única – opção para jogar fora montanhas de lixo. Não existe sistema de coleta de lixo; os incineradores são caros e exigem tempo para serem construídos; e o exército não tinha tempo e espaço para construir aterros sanitários nas bases. As queimas nos lixões muitas vezes estavam perto de onde os soldados e os trabalhadores viviam e trabalhavam porque é muito perigoso colocar-se o lixo em locais longe do espaço das bases.
“Apesar de que a disposição de certas substâncias para queimar nos lixões, poderia não ser o ideal sob o ponto de vista da saúde. Mas em uma instalação em ambiente hostil em tempo de guerra, poderia não ter havido qualquer outra opção viável”, diz Postlewaite no corpo do processo.
O exército podia ter providenciado dados sobre quantos destes espaços de queima de lixo foram utilizados nas bases tanto no Iraque quanto no Afeganistão. A empresa KBR operou um total de 23 desde 2002 e atualmente opera 10, disse seu porta-voz. A companhia diz que não operou o lixão de Balad, um dos maiores do Iraque e a responsabilidade pela operação desse lixão é que é o ponto da contestação no presente processo judicial. Em muitos locais do Iraque, a disposição do lixo foi administrada pelos militares ou por outros contratados além da KBR.
O exército diz que está trabalhando para substituir tantos lixões quanto for possível por incineradores e tornar os restantes mais seguros de operação.
A porta-voz do Exército, Cynthia O.Smith, diz que a maioria desses focos de queima de lixo no Iraque, foram fechados. A partir de junho p.p, disse ela, estes lixões com queima estavam em pleno uso em 166 locais onde o exército dos EUA estava estacionado no Afeganistão.
Anthony Szema, professor da Escola de Medicina na SUNY (State University of New York), Stony Brook, disse ao Comitê de Política Democrata do Senado, em novembro do último ano, que o processo de queima lento e em baixa temperatura de garrafas de plástico produz ácido clorídrico e dioxinas, substâncias químicas associadas à disfunção imunológica, déficits de QI e anormalidades reprodutivas. Diz que copos de isopor e madeira tratada emitem substâncias cancerígenas quando queimados. E queimar madeira compensada ou painéis de partículas liberam ao serem queimados formaldeído, um químico associado com câncer de nariz e de garganta, doenças renais e do fígado e inflamação das vias aéreas.
Sob ordens
Durante uma recente audiência no Tribunal Distrital dos EUA em Greenbelt, onde foram todos os processos de queima de lixo que correu todo o país agregados, o advogado da KBR. Robert A. Matthews, pediu a um juiz para recusar o caso. Argumentou de que o empreiteiro seguia ordens dos militares e não deve suportar qualquer encargo legal.
"Os Estados Unidos tomaram a decisão, avaliando os riscos que observou no campo de batalha", disse Matthews no tribunal. "Os Estados Unidos continuam até hoje a dizer que foi uma decisão acertada.... E se eles estiverem errados, o dedo da culpa deve apontar para os militares dos Estados Unidos".
Susan Burke e outros advogados dos atingidos afirmam que a KBR falhou ao seguir os termos desse contrato, que obrigava-a a tomar precauções para proteger a saúde das pessoas na base.
O juiz Roger W. Titus considera a possibilidade da continuação do processo.
Kevin Robbins, 47 anos, de Ludington, Michigan, queimou o lixo em Camp Delta, em Al Kut, Iraque, durante três meses em 2005. O pai de sete filhos havia decidido fechar seu negócio de chapas “drywall” e se juntar ao Exército depois que seu irmão, Todd J. Robbins, foi morto no Iraque em 2003. Depois que um recrutador lhe disse que ele era muito velho, conseguiu um emprego com a KBR para auxiliar no que fosse possível.
"Nós apenas fazíamos buracos no chão, e quando o lixo vinha, colocávamos nos buracos e queimávamos", disse Robbins. "Tudo. Plásticos, pneus, portas dos blindados Humvee, veículos, resíduos hospitalares e o que mais eles traziam. Munição, foguetes.”
Christopher Sweet disse que sua mulher, Jessica, sargento da Força Aérea e mãe de três filhos, não falava muito sobre a queima de lixo quando ela trabalhava perto de um na base aérea de Bagram, no Afeganistão, durante sua permanência de quatro meses em 2007. Mas como era a encarregada do treinamento da aptidão para o seu esquadrão, ela fez exercícios e corridas de cinco quilômetros, diariamente. Depois de voltar para casa, a fatiga e a febre tomaram conta dela. Foi diagnosticada com leucemia mielóide aguda.
"Ela começou a relembrar o que ela vivenciou com a queima do lixo", disse Christopher Sweet, que vive em Brandywine com seus filhos. "Ela estava convencida de que a fumaça que inalava enquanto esteve no Afeganistão teve de ter contribuído para essa leucemia. Eu não me importei como isso havia acontecido. Só queria que ela melhorasse".
Jessica Sweet morreu em fevereiro de 2009. Estava com 30 anos.
O marido então juntou-se ao processo. "Se existem outras pessoas lá que estão ficando enfermas devido à exposição à essa queima", disse ele, "ela iria querer ajudá-las".
Tradução livre de Luiz Jacques Saldanha, dezembro de 2010.