Em nome da flora nativa, reservas se rendem a agrotóxico
Ameaçadas por pragas, reservas ecológicas no país estão fazendo testes com agrotóxicos com o objetivo de garantir a sobrevivência de espécies nativas.
A ideia é combater plantas exóticas e invasoras, como a braquiária, um tipo de capim usado em áreas de criação de gado que ameaça o crescimento de outros vegetais.
O estudo mais recente ocorre no Parque Nacional das Emas, em Goiás. A unidade, com área equivalente a 132 mil campos de futebol, registra a presença de cinco espécies de plantas invasoras.
“É uma situação grave, já que as espécies exóticas ameaçam a diversidade”, afirma o diretor do parque, Marcos Cunha.
As primeiras aplicações de glifosato, ainda em nível experimental, começaram neste mês, depois de tentativas com várias outras técnicas, sem sucesso.
O contato com o produto, porém, ainda está restrito ao entorno do parque. “Estamos analisando os resultados para depois utilizar no interior, se necessário”, afirma.
Autorização - A iniciativa, ainda tímida no Brasil, já é aplicada em outros países.
A Monsanto, uma das maiores fabricantes mundiais de herbicida, doa glifosato desde 2005 à reserva ecológica de Galápagos, arquipélago equatoriano onde Charles Darwin (1809-1882) fez parte de seus estudos.
No Brasil, outras unidades federais de conservação que fazem pesquisas semelhantes são a Floresta Nacional de Bom Futuro, em Rondônia, e os parques Aparados da Serra e da Serra Geral, na divisa de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
“Simplesmente cortar [o capim] não resolve”, diz o chefe do parque de Aparados da Serra, Deonir Zimmerman, que luta contra a braquiária há 12 anos.
Reservas estaduais do Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo também possuem estudos avançados com herbicidas para o combate de espécies exóticas, segundo a ONG Instituto Hórus, que participa de projetos nesses locais.
Uma portaria do Ibama de maio de 2010 autoriza pesquisas com até três tipos de agrotóxicos em florestas nativas, desde que estejam em situação de emergência –e com possibilidade de cancelar a autorização em caso de contaminação.
Em muitas unidades nacionais, no entanto, segundo o ICMBio (Instituto Chico Mendes), o plano de manejo sequer considera o uso desses herbicidas.
Silvia Ziller, do Instituto Hórus, afirma que os produtos são uma alternativa mais barata, eficiente e com menor impacto ambiental do que deixar espécies como a braquiária se propagarem.
O maior problema, segundo ela, é o risco de incêndio agravado pelo capim. “Se antes o cerrado pegava fogo a cada cinco anos, agora isso acontece em todos eles”, diz.
Divisão – A ideia de mudar aplicar agrotóxicos em parques do país ainda provoca desconfiança entre ambientalistas e pesquisadores.
Os próprios diretores das reservas reconhecem que o produto pode sim afetar as espécies nativas.
Em 2007, uma pesquisa da USP mostrou que um agrotóxico aplicado nas cerca de 40 lavouras do entorno do Parque das Emas contaminava aves ameaçadas de extinção. Uma liminar chegou a suspender em 2008 o uso de alguns agrotóxicos em uma faixa de até 2 km ao redor do parque. A decisão, no entanto, referia-se aos tipos mais tóxicos dos produtos, como inseticidas, e foi suspensa meses depois.
O pesquisador Sady Valdes, responsável pelo estudo na época, diz que a aplicação de herbicidas pode até “mudar a paisagem do cerrado”.
Para a engenheira agrônoma Ana Maria Junqueira, que estuda métodos alternativos aos agrotóxicos, produtos como herbicidas trazem riscos de contaminação também ao ser humano.
Segundo ela, uma alternativa pode ser a aplicação tópica, em que o produto é usado apenas no local onde há a ameaça. Mesmo assim, ela diz que os órgãos ambientais precisam ficar atentos para, a partir disso, não perder o controle sobre o uso desses produtos.
(Fonte: Natália Cancian/ Folha.com)
http://envolverde.com.br/noticias/contaminantes-proibidos-com-excecoes/
29/4/2011
Contaminantes proibidos, com exceções
por Isolda Agazzi, da IPS

Isolda Agazzi/IPS
Os COP em produtos reciclados e novos.
Genebra, Suíça, 29/4/2011 – A V Conferência das Partes do Convênio de Estocolmo sobre Contaminantes Orgânicos Persistentes, que termina hoje em Genebra, pode aumentar o número dessas substâncias proibidas internacionalmente e, ao mesmo tempo, manter exceções em casos como o combate à malária. As alternativas ao DDT (dicloro difenil tricloroetano), um dos contaminantes orgânicos persistentes (COP) usados na luta contra a malária, estão ganhando popularidade, mas sua proibição completa não está na agenda.
“Os COP são as piores substâncias que o ser humano já criou. Deixam um legado tóxico para as gerações futuras. São persistentes no ambiente, permanecem intactos durante muitos anos e são levados por todo o planeta. Podem ser detectados inclusive no Ártico, onde nunca foram usados”, disse à IPS Björn Beeler, coordenador internacional da Rede Internacional para a Eliminação dos COP (Ipen).
Esta rede reúne 700 organizações não governamentais de aproximadamente cem países. Foi criada durante as negociações do Convênio de Estocolmo, adotado em 2001 e em vigor desde 2004, para proibir ou limitar fortemente os produtos químicos mais perigosos. Quando esse tratado foi adotado, na lista estavam incluídas 12 substâncias. Na última Conferência, realizada em 2009, outras nove foram acrescentadas.
Os COP são pesticidas, substâncias industriais e subprodutos que se propagam facilmente através do solo, da água e do ar; acumulam-se nos tecidos adiposos dos organismos vivos, entre eles os humanos, e são tóxicos tanto para pessoas como para a fauna e a flora. Também podem ser transmitidos pelo leite materno, podendo causar câncer, desordens reprodutivas e alterações no sistema imunológico. O Convênio de Estocolmo prevê sua eliminação, com poucas exceções para alguns deles, como o DDT.
São três as principais questões na agenda da Conferência deste ano. Primeiro, a inclusão na lista do endosulfan, “um assunto pelo qual a sociedade civil faz campanha há décadas”, explicou Beeler. Esta substância é um pesticida tóxico proibido em 80 países, mas que ainda é usado na China e na Índia, na maior parte da África oriental, na Argentina e no México. “O endosulfan é tão prejudicial que mesmo alguns dos países que ainda o utilizam pedem uma proibição internacional mediante o Convênio, porque isso os ajudaria a aprovar legislação nacional e a lutar contra o comércio ilegal”, disse Beeler à IPS.
A segunda prioridade da Conferência é a eliminação total de dois bromodifenis (pentaBDE e octaBDE), dois COP que acrescentados há dois anos, mas com exceções para sua reciclagem. “Acabamos de realizar um estudo que mostra que estes BDE são tão tóxicos e perigosos quanto os proliclrolobifenis (PCB) e o DDT”, disse Beeler. “Mas o Convênio permite que seus dejetos sejam reciclados para obter outros produtos, como espuma e plástico”, acrescentou.
O estudo do Ipen argumenta que o material para tapetes comumente vendidos a consumidores nos Estados Unidos e em outros países industrializados contém perigosos produtos químicos que podem causar danos ao sistema nervoso, particularmente em bebês e crianças pequenas. “O comitê de especialistas recomendou proibi-los, e a conferência deveria seguir essa recomendação. Ignorá-la por motivos políticos ou econômicos seria um crime”, disse Beeler.
A Conferência também estudará a eliminação da exceção do perfluorooctanosulfonato (PFOS), outro COP que há dois anos foi acrescentado à lista com exceções. “Este COP nunca se desintegra”, ressaltou Beeler. “Esperamos que seja adotada uma ação séria para promover a paulatina eliminação das exceções, porque este é tão tóxico quanto o DDT”, acrescentou. O DDT é, provavelmente, o COP mais conhecido. Completamente proibido no final da década de 1970 na maior parte do mundo industrial, ainda é usado em muitos países em desenvolvimento.
Embora o Convênio o proíba, pode ser usado para combater a malária, sob rígido controle da Organização Mundial da Saúde e em certas circunstâncias, somente em espaços interiores e se não há alternativas efetivas disponíveis. A Índia é o único país que ainda produz DDT.
“A Conferência avaliará se ainda há uma exceção para a malária”, disse à IPS Michael Brander, encarregado de programa na Fundação Biovision, da Suíça. Os presentes “podem concluir que não deveria haver nenhuma exceção, mas não o farão. Alguns países da África estarão a favor da proibição do DDT, mas outros são completamente contra e o problema é que deve haver consenso”, afirmou Brander. A Biodivision promove alternativas ao DDT e a pesquisa sobre soluções orgânicas na agricultura.
“O principal programa de controle da malária na África, que usa inseticidas dentro das casas, é financiado pela Iniciativa do Presidente Contra a Malária por meio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid)”, disse Brander. Em “Uganda, os trabalhadores que fazem sua aplicação nas casas ganham por saco. Assim, para aumentarem sua renda precisam espalhar o máximo possível”, acrescentou.
Os ministérios da Saúde também consideram o DDT uma maneira efetiva e barata de matar mosquitos, “o que não é verdade: não é a solução mais barata e existe todo tipo de problemas e efeitos colaterais quando espalhado no solo e no ar”, destacou.
A primeira assembleia mundial da Aliança Mundial para as Alternativas ao DDT aconteceu esta semana. A Biodivision apresentou um projeto executado por seu instituto associado Icepe, no qual demonstra que os casos de malária diminuíram 60% no Quênia e 70% na Etiópia mediante o uso de plantas orgânicas e de um enfoque integrado que deu participação à população local.
“Já não usamos DDT para a malária, temos alternativas”, disse à IPS Ali Mohammad Ali Mahmoud, um delegado do Sudão, durante a Conferência. “No entanto, estamos buscando fundos para que nosso plano de ação nacional elimine paulatinamente os COP. Já temos algum dinheiro do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF), mas buscamos meios adicionais para colocar em prática cerca de 28 projetos”, disse.
“Por exemplo, temos velhos COP que estão ali durante anos, alguns transformadores elétricos que incluem PCB ou COP para controlar pestes na agricultura. Queremos nos livrar deles e atualizar nossa legislação para poder cumprir o Convênio”, ressaltou Mahmoud.
IPS
http://www.radioagencianp.com.br/9577-Os-perigos-dos-agrotoxicos-no-Brasil
Especial: Os perigos dos agrotóxicos no Brasil

O Brasil é o primeiro colocado no ranking mundial do consumo de agrotóxicos. Mais de um bilhão de litros de venenos foram jogados nas lavouras em 2010, de acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola.
Com a aplicação exagerada de produtos químicos nas lavouras no país, o uso de agrotóxicos está deixando de ser uma questão relacionada especificamente à produção agrícola e se transforma em um problema de saúde pública e preservação da natureza.
A RadioagênciaNP apresenta uma série especial de sete reportagens sobre os agrotóxicos no Brasil. Os programas tratam dos efeitos dos agrotóxicos na saúde humana (tanto dos trabalhadores rurais como dos consumidores de alimentos), no meio ambiente e na agricultura.
O consumo de agrotóxicos cresce de forma correspondente ao avanço do modelo do agronegócio, que concentra a terra e utiliza grande quantidade de venenos para garantir a produção em escala industrial.
Nesse quadro, os agrotóxicos já ocupam o quarto lugar no ranking de intoxicações. Ficam atrás apenas dos medicamentos, acidentes com animais peçonhentos e produtos de limpeza. Essas fórmulas podem causar distúrbios neurológicos, respiratórios, cardíacos, pulmonares e no sistema endócrino, ou seja, na produção de hormônios.
Leia e ouça agora os programas da série especial “Os perigos dos agrotóxicos no Brasil”, produzida pela Radioagência NP.
Programa 01 - Os modelos agrícolas em disputa
Programa 02 - O papel das grandes empresas no mercado dos agrotóxicos
Programa 03 - Mercado dos agrotóxicos, legislação e irregularidades
Programa 04 - Os danos dos agrotóxicos ao meio ambiente
Programa 05 - Impactos dos agrotóxicos na saúde dos trabalhadores do campo
Programa 06 - Contaminação dos alimentos e a saúde pública
Programa 07 - A campanha nacional contra o uso de agrotóxicos
Ficha técnica:
Coordenação geral: Danilo Augusto.
Reportagens: Danilo Augusto, Jorge Américo, Maria Mello, Pedro Carrano e Raquel Casiraghi.
Revisão de conteúdo: Edilson Dias Moura e Igor Felippe.
Locução: Ana Manuella Chã, Alécio Oliani (vinhetas) e Jorge Américo.
Arte: Aldo Gama e Marina Tavares.
Sonoplastia: Adílson Oliveira e Jorge Mayer.