http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2011/02/17/66523-estudo-vincula-intensificacao-de-cheias-a-mudancas-no-clima.html

Estudo vincula intensificação de cheias a mudanças no clima

O aquecimento global provocado por atividades humanas aumentou a intensidade de chuvas, nevascas e, consequentemente, das cheias registradas ao longo da última metade do século XX, demonstraram estudos publicados nesta quarta-feira (16).
Dois estudos divulgados na revista científica britânica Nature estão entre os primeiros a estabelecer um vínculo direto entre as mudanças climáticas e seu impacto em eventos climáticos potencialmente destrutivos e mortais.
Brasil, Austrália, Sri Lanka e Paquistão têm sofrido cheias maciças, dando origem a questões sobre se o aquecimento global seria pelo menos parcialmente responsável pelo problema.
Modelos de computador já previram há muito tempo que o aumento das concentrações de gases causadores do efeito estufa aumentaria os episódios de temporais.
Mas até agora, o vínculo estabelecido foi amplamente teórico.
“O artigo fornece a primeira evidência específica de que este é realmente o caso”, disse Francis Zwiers, pesquisador da Universidade de Victoria, no Canadá, e coautor de um dos estudos.
“Os humanos influenciam a intensidade das chuvas extremas”, disse o cientista a jornalistas em uma coletiva por telefone.
Dados reunidos entre 1951 e 2000 em Europa, Ásia e América do Norte demonstram que, em média, a precipitação mais extrema em 24 horas de um ano dado – seja chuva, neve ou granizo – aumentou de intensidade nos últimos 50 anos do século XX.
Quando este pico mensurável foi comparado com mudanças simuladas por modelos climáticos, a marca da influência humana nos padrões climáticos da Terra se tornou inquestionável, disse Zwiers.
“A mudança observada não pode ser explicada por flutuações naturais e internas do sistema climático sozinho”, acrescentou.
Segundo ele, o estopim principal foi, simplesmente, uma concentração maior de água no ar. “Em um mundo mais quente, a atmosfera tem maior capacidade de reter umidade”, explicou.
Isto não significa necessariamente que em um lugar onde não chove muito as precipitações aumentarão, acrescentou. De fato, alguns lugares da Terra provavelmente ficarão mais secos.
Mas isto significa que quando um furacão ou uma nevasca acontece, há mais água disponível.
Mas por que demorou tanto para que os cientistas começassem a estabelecer conexões sólidas entre o aquecimento global e eventos climáticos extremos? Uma razão é que só nas últimas décadas a concentração de gases capazes de reter calor ficou mais óbvia.
“Consideramos cada vez mais fácil detectar este indício nas observações”, declarou Zwiers.
No segundo estudo, que procurou descobrir a atuação do aquecimento global do outono mais úmido já registrado na Inglaterra, no ano 2000, um grupo de cientistas, chefiado por Myles Allen, da Universidade de Oxford, contou com o poder das redes sociais na internet.
Os pesquisadores compararam dois modelos climáticos, um baseado em dados climáticos históricos detalhados e outro em um outono de 2000 “paralelo”, simulando condições sem os gases estufa emitidos no século XX.
Eles descobriram que o aquecimento global teria dobrado a possibilidade de tal evento ocorrer.
“Para realmente detectar a diferença entre estes dois mundos, tivemos que repetir esta simulação milhares de vezes”, explicou o chefe das pesquisas, Pardeep Pall, que iniciou o projeto quando ainda era estudante da graduação, em 2003.
“Nós pedimos que as pessoas ao redor do mundo rodassem as simulações para nós em seus próprios computadores, usando seu tempo livre”, acrescentou.
Com base nos resultados deste estudo, o departamento britânico responsável pelo clima está desenvolvendo ferramentas para medir a influência humana em eventos climáticos futuros.
“Este tipo de estudo vai nos permitir quantificar como as mudanças climáticas estão afetando as pessoas agora de forma que deixe de ser uma projeção hipotética no futuro”, disse Allen.
A ferramenta também seria útil, afirmou, para legitimar as demandas de países em desenvolvimento que queiram se candidatar a receber as centenas de bilhões de dólares destinados a medidas de adaptação para as mudanças climáticas.
Pessoas interessadas em emprestar a potência de seus computadores para impulsionar o projeto podem obter informações no site climateprediction.net, que atualmente é realizado com a ajuda de 50 a 60 mil computadores pessoais.
(Fonte: G1)

 

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=86713&edt=1

Mudança Climática e conflito social estão associados?
Por Sérgio Abranches, do Ecopolítica, 11/02/2011
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Eventos climáticos extremos podem ter tido efeito importante nos levantes populares no Oriente Médio e Norte da África? A mudança climática já está afetando as relações sociais?

A questão pode parecer uma dessas vias forçadas para alertar sobre a mudança climática. Mas não é. É uma preocupação relevante e essa conexão já vem sendo estudada por cientistas das mais diversas áreas, climatologistas, ecologistas, sociólogos, economistas. A pergunta é mais complexa do que ela aparenta à primeira vista. Ela indaga sobre duas relações nada triviais: entre eventos climáticos extremos e mudança climática e entre anomalias climáticas e conflito social.

Os cientistas resistem sempre a atribuir a emergência de eventos climáticos extremos específicos à mudança climática. Argumentam, com razão, que não há base científica para associar um evento em particular ao fenômeno global e de longo prazo da mudança climática. Mas o climatologista Kevin Trenberth, diretor da Seção de Análise Climática do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, nos Estados Unidos, defendeu recentemente uma visão diferente desse problema, conhecido na ciência climática como “o problema da atribuição”. Em entrevista exclusiva ao editor do blog Climate Progress, o físico Joseph Romm, Trenberth disse que:

Os cientistas sempre começam com a afirmação de que não se pode atribuir um evento isolado à mudança climática. Mas ela tem uma influência sistemática sobre todos esses eventos climáticos atuais, segundo ele, por causa do fato de que há mais vapor d’água circulando na atmosfera do que se tinha, digamos, trinta anos atrás. É uma quantidade extra de 4% de vapor d’água. Ele aumenta a força das tempestades, dá mais umidade para essas tempestades e é ruim que o público não veja isto como uma manifestação da mudança climática. A perspectiva é que esse tipo de coisa só aumentará e piorará no futuro.

A quantidade de gases estufa na atmosfera, segundo a maioria dos cientistas, já tem um efeito de aceleração do aquecimento da Terra. Portanto, a mudança climática decorrente deve ser vista como um processo em curso com tendência de agravamento ao longo do tempo. Ou seja, é de longo prazo, mas as coisas não acontecem todas no futuro de uma vez só. Vão acontecendo progressivamente, com aumento de freqüência e intensidade.

E qual a relação com os fatos no Oriente Médio e na África do Norte?

Tivemos um período atípico de grande quantidade de eventos climáticos extremos em 2010 e no início deste ano. Secas, enchentes, ondas de calor e frio, tempestades intensas, nevascas, queimadas. Esses eventos afetaram negativamente a produção agrícola mundial em todas as partes do mundo: os casos mais exemplares foram no Casaquistão, na Rússia, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos, na China e no Brasil. O resultado foi uma forte alta dos preços internacionais das commodities agrícolas e inflação de preços de alimentos. Uma inflação climática.

O blog Climate Progress organizou uma série de referências de cientistas e da imprensa a essas relações. Entre elas, estudo dos economistas Rabah Arezki, do FMI, e Markus Brückner, da Universidade de Adelaide na Austrália. Eles estudaram o efeito de variações nos preços internacionais de alimentos sobre as instituições democráticas e conflitos internos em mais de 120 países, entre 1970 e 2007. Essa análise mostra que existe uma clara relação para os países de baixa renda: observa-se a deterioração das instituições democráticas e o aumento da incidência de conflitos de rua, demonstrações anti-governo, e movimentos de massa.

Por que nos países de baixa renda? Nos países de renda alta essa relação não é significativa. Porque quanto menor a renda do país, maior a participação dos alimentos no orçamento doméstico e, portanto, maior a sensibilidade da população a elevações fortes do preço da comida.

Estudos históricos mostram que há relação entre mudança climática e colapso social. Quebras de safra e consequente elevação dos preços de comida são causas frequentes de levantes populares e revoluções na história da sociedade moderna e contemporânea. A história do próprio Egito registra casos históricos de conflitos associados aos preços dos grãos (infelizmente não tenho cópia digital deste artigo). Na Índia, também foram muitos os episódios. O mais notável talvez tenha sido a “revolta dos grãos” de 1918, provocada por desabastecimento e elevação de preços dos grãos resultante de monções com chuvas excepcionalmente fracas.

Em vários desses episódios históricos a relação era direta: a elevação dos preços dos alimentos causava a revolta. No caso atual, as causas são outras. Para entender o que se passa no Egito, por exemplo, é preciso distinguir entre o que causa o descontentamento profundo e o que detona a revolta. O que causou o descontentamento foi a própria tirania. Um governo autocrático, um ditador no poder por 30 anos, uma administração corrupta. Repressão, censura, prisões arbitrárias, tortura. No plano social, muita pobreza, imensa desigualdade de renda e de riqueza, falta de perspectiva de mobilidade social para os jovens. Nos últimos anos houve várias manifestações de protesto, todas duramente reprimidas, mas nenhuma do porte da revolta de massas que começou no dia 25.

O que detona o levante das massas? Uma conjuntura, isto é, uma convergência de fatores, antes dissociados, que se encontram e formam “a gota d’água”, provocam a virada, o tipping point, que levam um protesto como outros inúmeros se transformar em explosão de descontentamento geral, em revolta incontrolável e espontânea da massa.

No Egito houve fatores econômicos, políticos e aceleradores importantes que criaram essa conjuntura. O econômico foi a elevação dos preços dos alimentos, que atingiu duramente as famílias mais pobres. A subida dos preços do petróleo, moradia e educação, bateu no orçamento da classe média. Esse choque de preços ocorreu em uma economia debilitada, na qual o desemprego de jovens é muito alto. O desemprego agrava uma situação de baixa mobilidade social, anulando as perspectivas de futuro dos jovens. Em alguns casos, jovens com qualificação sofrem descenso social, sendo forçados a trabalhar em setores de baixa qualificação. O desespero dos jovens se transmite facilmente para os pais e famílias.

O fator político foi a notícia de que o filho de Hosni Mubarak, Gamal Mubarak, seria seu sucessor, provavelmente já como candidato nas eleições de cartas marcadas previstas para setembro. A possibilidade de uma dinastia Mubarak provocou enorme rejeição, em um país de passado dinástico.

O quadro sócio-econômico no Egito não é muito diferente do que se observa nos outros países. Na Tunísia, no Sudão, mesmo na Arábia Saudita, há tirania, muita pobreza, desigualdade de renda e riqueza, desemprego de jovens e elevação de preços de alimentos. Ouvi recentemente entrevista de um dos príncipes sauditas, na CNN, falando que a situação em seu país é diferente, mas que há, realmente, insatisfação com o aumento de preços dos alimentos e da moradia. O governo aumentou os salários para que pudessem absorver o custo adicional. A evidência mostra que subsídios e aumentos salariais para compensar os efeitos da inflação alimentar têm efeito temporário e acabam por realimentar os preços.

No Egito, o aumento dos preços dos alimentos foi muito forte, como se vê no gráfico em - http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Inflation-in-Egypt.jpg.

Os preços dos alimentos subiram 40% e os de moradia e educação, mais de 10%. Os pobres são sensíveis à inflação nos alimentos e na moradia. A classe média à inflação na educação, na moradia e nos combustíveis.

O que acelerou a revolta e permitiu que se transformasse em um movimento de massa, muito rapidamente? As mídias e redes sociais e o efeito-demonstração do levante na Tunísia, que se propagou por essas vias digitais. É evidente que as mídias e redes sociais não fazem revoluções. Elas são uma revolução na forma como nos comunicamos e trocamos informação. Nisso têm sido revolucionárias. Mas, na sociologia dos conflitos sociais seu papel é de acelerador e transmissor, permitindo, por exemplo, o contágio inicial, que depois passa a se dar por contato físico, nas ruas e nas praças, e na propagação de eventos que acabam tendo o efeito de aumentar a propensão à ação.

Além disso, podem ter o efeito de prolongar o contágio. A sociologia já decifrou como terminam os processos por contágio, como os arrastões, por exemplo: quando não há mais pessoas a contagiar e a cadeia se quebra. As redes e mídias sociais – no caso do Egito principalmente o SMS – trazem mais pessoas para o movimento e realimentam o contágio.

Não é por acaso que essas revoltas ocupam as ruas e praças das cidades. O meio urbano é muito mais propício ao contágio das massas. O crescimento da população com acesso à telefonia celular dá o principal instrumento de contágio. Veja os gráficos para o Egito (http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Egypt-Mobile-subs.jpg) e a Tunísia (http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Tunisia-Mobile-subs.jpg).

Mas a internet teve importante papel de manter o mundo informado sobre o que se passava no Egito, provavelmente evitando um banho de sangue, e na comunicação entre os egípcios. E por isso o governo fechou o acesso à Web.

Nada é simples nesse processo. Estamos falando da convergência de processos complexos no sistema climático, no sistema social e na sociedade global. Essa convergência só aumentará nos próximos anos e décadas. Viveremos mais turbulência climática e social, no meio de uma revolução científica e tecnológica sem precedentes.

Para ouvir o comentário do autor na rádio CBN acesse http://www.ecopolitica.com.br/2011/02/02/mudanca-climatica-e-conflito-social-estao-associados/.

(Envolverde/Ecopolítica)

 

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=86331&edt=1
03/02/2011
O Delta do Parnaíba e o clima
Por Alexandre Kemenes*, da Embrapa
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Os ambientes costeiros são encontrados em todo o Planeta e são compostos de ecossistemas aquáticos diversos como manguezais, restingas, dunas, praias, ilhas ocupadas com Mata Atlântica, rios e igarapés. De modo geral, são vastos depósitos de carbono orgânico, ferramentas ambientais essenciais para o equilíbrio climático do planeta. Estes locais receberam o apelido por alguns pesquisadores de “Carbono Azul”, por sua habilidade extrema em sequestrar e armazenar o carbono atmosférico na forma de matéria orgânica do solo.

A quantidade de carbono fixada por um ambiente costeiro como o manguezal pode chegar a ser cinco vezes superior à que é fixada por uma floresta tropical como a Amazônia, sendo que a velocidade de fixação pode chegar a ser até 50 vezes maior. Na maioria dos ecossistemas aquáticos naturais, o carbono fixado retorna rapidamente à atmosfera pela decomposição, este fenômeno pouco ocorre em áreas de manguezais, pois, boa parte do carbono sintetizado é armazenada e permanece presa em meio às camadas de sedimento por centenas e até milhares de anos, ficando pouco disponível para a decomposição e ao processo de aquecimento global.

Aos poucos o Planeta vem perdendo estes valiosos estoques naturais de carbono devido ao desmatamento, contaminação, mudança no uso de terra e água e ocupação imobiliária. Estes locais vêm sendo degradados num ritmo assustador, cerca de 2% ao ano, com isso, se nada for feito, em cinqüenta anos não existirá mais este importante ecossistema. A perda de um manguezal pode ter um valor ainda mais significativo do que a perda de uma mesma área de floresta tropical para o processo de Aquecimento Global. Para cada hectare perdido deste ambiente costeiro, milhões de toneladas de um carbono milenar são emitidas para atmosfera, além de paralisar um importante elo no ciclo global do carbono.
Conhecer, respeitar, conservar e até mesmo reconstituir estes frágeis ecossistemas costeiros é um desafio necessário, que deverá trazer amplos benefícios à mitigação das emissões de gases de efeito estufa e ao processo de mudanças climáticas, assim como importantes reflexos junto à biodiversidade e para o sustento das populações tradicionais.

Estes ambientes costeiros estão largamente espalhados pelo mundo tropical, na região NE do Brasil temos importantes representantes, sendo o Delta do Parnaíba um dos mais representativos. É considerada uma área de extrema importância ecológica. O ambiente é rico em diversidade biológica e apresenta diversos ecossistemas aquáticos, tanto de água doce e salobra quanto salgada. O Rio Parnaíba após percorrer um longo trajeto (1.484 km) deságua no Oceano Atlântico, mas antes de entrar no mar divide-se em três braços, separados por dezenas de ilhas repletas de floresta tropical, formando um acidente geográfico conhecido como Delta do Parnaíba. Sua área é estimada em cerca de 2.700 km2, se inicia numa forma retangular e abre-se num leque com mais de 15 km de extensão. Alguns pesquisadores afirmam que o Delta se inicia a cerca de 20 km acima da cidade de Parnaíba. É um produto não só do rio, mas uma combinação dinâmica com o mar, originando uma comunidade biológica única.

Num breve passeio de barco de quatro horas pelo Delta do Parnaíba podemos registrar algumas informações importantes em relação à paisagem local, composta por matas tropicais, dunas, manguezais, ilhas cortadas por canais, praias e restingas numa combinação complexa. A vegetação é abundante, variada, apresentando nos terrenos mais baixos palmeiras e manguezais; nas inúmeras ilhas aparecem matas com madeiras de Lei e diversas espécies de palmeiras, ocorrendo frequentemente extensos cajueiros até mesmo nos terrenos mais baixos. Mas a maior extensão do Delta é ocupada por manguezais, que parecem não ter fim, são impressionantes e emolduram toda a paisagem.

Estes ecossistemas costeiros constituem um grande potencial para o sequestro do carbono atmosférico, ou seja, para a mitigação do processo de aquecimento global. As alterações antrópicas junto a estes ecossistemas podem trazer enormes prejuízos ao equilíbrio da dinâmica do balanço regional de carbono e com profundos reflexos em relação às mudanças climáticas globais.

O funcionamento deste sistema oferece uma boa oportunidade para a criação de novos mecanismos de incentivo à proteção ambiental, preservação e valoração da região costeira do Brasil e do mundo. Estes podem ser estruturados dentro dos mesmos moldes de projetos REED+ (Reduções das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), mecanismo criado para a preservação de florestas tropicais, e que funcionam pelo pagamento do carbono fixado anualmente por hectare em áreas de florestas tropicais preservadas.

Os ambientes costeiros, principalmente os manguezais, têm a vantagem da eficiência na fixação de carbono por metro quadrado, podendo chegar a ser centenas de vezes superior que nas florestas tropicais, sendo que o valor da tonelada de carbono seqüestrado deve permanecer o mesmo para estes dois ambientes. Entretanto, hoje existe pouco conhecimento nesta área de estudo, em todo mundo, assim, para chegar a valores quantitativos de seqüestro de carbono nas áreas costeiras, serão necessários amplos investimentos em longas pesquisas científicas a fim de determinar o potencial real destes locais na mitigação do processo de aquecimento global.

*Alexandre Kemenes é pesquisador da Embrapa Meio Norte e do Programa LBA do INPA.

(Envolverde/ECO 21)

 

 

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=40904

23/2/2011

Cientistas mostram que o aquecimento global é responsável pelas enchentes que têm assolado o mundo

Fomos nós que fizemos a chuva – O empresário Rodolfo Acri nunca imaginou que estivesse entrando em atividade de risco quando montou, ao longo dos últimos 17 anos, seu complexo turístico na cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Ele comprou o histórico teleférico da cidade, que opera desde 1974, e o ampliou para 1.500 metros de extensão (um dos maiores do Brasil). Ao lado do teleférico, abriu um hotel, um boliche e um parque de diversões. Na madrugada de 12 de janeiro, o complexo turístico de Acri foi atingido pelas chuvas que praticamente arrasaram a região. Parte do hotel e do boliche desabou. A água derrubou a base do teleférico e destruiu a casa das máquinas. Acri estima o prejuízo em R$ 5 milhões. “Nunca houve uma enchente tão grande quanto esta”, diz. O empresário espera que o BNDES libere metade do valor para começar a reconstruir as atrações e empregar novamente seus 50 funcionários. “Mesmo que eu não consiga a ajuda financeira, vou reconstruir tudo. Não quero ser vencido pela chuva.” Acri já tem um novo projeto para o teleférico, que terá a base elevada a 1,5 metro do solo, altura que as águas alcançaram em janeiro. Esse cuidado será o suficiente?
A reportagem é da revista Época Online e reproduzida por EcoDebate, 23-02-2011.
Segundo os cientistas, talvez não. Olhar os recordes do passado não nos ajudará a nos preparar. O conjunto de gases de efeito estufa que a atividade humana está lançando na atmosfera está mudando o clima. Entre as consequências esperadas estão o aumento da frequência e a intensidade das tempestades. Na semana passada, duas pesquisas independentes mostraram, pela primeira vez, que isso já começou a acontecer em larga escala. Os estudos, publicados pela revista científica britânica Nature, devem reduzir a cautela dos cientistas em associar as tragédias recentes ao aquecimento global. E têm um efeito imediato: quem planeja construir ou reformar o que foi atingido pelas chuvas precisa considerar que as próximas tempestades poderão ser ainda mais destrutivas e mais frequentes.
Os pesquisadores, das universidades de Edimburgo, no Reino Unido, e de Victoria, no Canadá, analisaram os recordes anuais de chuvas de 6 mil estações meteorológicas da América do Norte, Europa e Ásia durante o período de 1951 a 1999. Depois, usando dezenas de modelos diferentes de simulação do clima no computador, compararam como teria sido o comportamento da atmosfera em cada um desses lugares sem os gases de efeito estufa lançados por nós. A conclusão é que o aquecimento global gerado pela humanidade intensificou dois terços dos recordes anuais de chuva registrados pelas estações. A pesquisa não mediu qual foi o tamanho da contribuição humana para as chuvas recordes. A influência foi ainda pequena nessas cinco décadas, quando os gases começaram a se acumular na atmosfera. As maiores consequências são esperadas a partir da próxima década. Outro grupo de pesquisa, liderado por pesquisadores da Universidade de Oxford, se concentrou em um evento específico: as chuvas causaram no Reino Unido, no ano 2000, as piores enchentes desde que as medições começaram, em 1766. Segundo várias comparações com modelos de computador capazes de prever o clima para um local preciso, os cientistas concluíram que o aquecimento global aumentou entre 20% e 90% a chance de haver enchente.
Essas descobertas têm consequências imediatas. Até certo ponto chuvas fortes fazem parte da rotina. No verão, as cidades brasileiras convivem com os transtornos de tempestades, como a que fez um lago transbordar em São Paulo na semana passada. O que vem acontecendo nos últimos anos é diferente. Trata-se de uma onda inédita de grandes catástrofes, que seriam esperadas uma vez a cada século. No início deste ano, uma chuva recorde nas cidades de Friburgo, Petrópolis e Teresópolis (na região serrana do Estado do Rio de Janeiro) deixou quase 1.000 mortos, entre soterrados e afogados. Antes disso, houve as chuvas do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, em 2008, as enchentes e os deslizamentos que mataram quase 300 pessoas no início de 2010, no Estado do Rio, e a devastação de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo. Ainda em 2010, Alagoas e Pernambuco tiveram cidades arrasadas pelas chuvas. No resto do mundo, a tendência foi semelhante. A maior enchente da história do mundo matou em julho mais de 1.700 pessoas no Paquistão e mais de 3 mil na China – a destruição de plantações afetou mais de 30 milhões de pessoas. Em janeiro de 2011, as chuvas na Austrália alagaram uma área maior do que a França e a Alemanha juntas. Segundo a ONU, 2010 foi um dos piores anos da história em catástrofes naturais.
As tragédias e as previsões de mais alterações causadas pelo aquecimento global trazem um alerta para quem vai construir ou reformar pontes, ruas, prédios ou mesmo uma casinha na montanha. Os engenheiros costumam olhar para o histórico de chuvas da região e planejam sua obra para resistir ao pior evento que pode acontecer naquele lugar. É a chamada “chuva do século”, que cai uma vez a cada 100 ou 500 anos. Essa precaução não é mais o bastante. “O grande pressuposto é que o clima no futuro, ao longo da vida útil daquela estrutura, será o mesmo que o do passado”, disse Zuebin Zhang, um dos autores do estudo canadense. “Isso não vale mais. Os engenheiros vão precisar considerar as mudanças climáticas de agora em diante.”
Quanto vão aumentar as chuvas? Os cientistas não sabem. Os modelos climáticos revelam que, para cada grau de aquecimento da Terra, a umidade da atmosfera aumenta de 6% a 7%. Isso poderia levar a chuvas até 30% mais fortes daqui a 90 anos, segundo os cenários de mudanças climáticas mais considerados pelos cientistas. Alguns países e empresas já começaram a levar isso em conta. Há dois anos, a prefeitura de Londres começou obras para aumentar a altura das barragens que protegem a cidade das enchentes do Tâmisa.
No Brasil, as projeções do clima mostram que até 2050 as regiões Sul e Sudeste terão um aumento entre 10% e 30% na frequência e intensidade das chuvas. Elas serão, porém, irregulares. “O aquecimento global vai afetar o ciclo hidrológico e acelerar o processo de precipitação”, afirma José Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Isso quer dizer que os 100 milímetros de chuva previstos para cair durante todo o mês numa determinada região podem cair em apenas dois dias.” Serão, portanto, chuvas muito mais fortes. Nas regiões Norte e Nordeste, o volume de chuvas pode reduzir drasticamente. “As áreas quentes do Oceano Atlântico, responsáveis pela formação de nuvens que trazem umidade para o Nordeste, mudarão de posição.”
Isso significa que obras projetadas para aguentar o grande evento climático dos séculos passados estarão expostas com frequência aos riscos de enchentes, inundações e deslizamentos de terra no futuro. Segundo um estudo do ano passado feito pelo Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Inpe e pelo Núcleo de População da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mais de 20% da região metropolitana da cidade de São Paulo estará sujeita a inundações ou desabamentos, caso não ocorra uma mudança no padrão de uso e ocupação do solo. “O aquecimento global exige uma mudança na percepção do risco climático”, afirma Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe, o Departamento de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na semana passada, ele entregou à presidenta Dilma Rousseff um documento com sugestões para engenharia e planejamento na região serrana do Rio. Entre as medidas estão o mapeamento de áreas vulneráveis, sistemas de previsão e alerta, obras de proteção de encostas e educação ambiental para que a população aprenda a agir em situações de emergência.
Um passo inicial é a criação do Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais, do Ministério de Ciência e Tecnologia. A operação é coordenada por Carlos Nobre, do Inpe, um dos principais cientistas do clima no Brasil. O sistema juntará dados de áreas de risco de deslizamento com as previsões e observações de chuvas de radares meteorológicos. Seu cérebro será o supercomputador Tupã, que custou R$ 50 milhões e entrou em funcionamento em 28 dezembro. O sistema deverá estar todo pronto em quatro anos, mas já no próximo verão haverá dados das áreas mais críticas.
“A intenção é que o sistema identifique o risco de um desastre com no mínimo 24 horas de antecedência”, diz Nobre. “Poderemos lançar alertas de desastre iminente entre duas e seis horas antes, com a ajuda da Defesa Civil.” Humberto Viana, secretário nacional de Defesa Civil, diz que a entidade está trabalhando para criar uma aproximação mais intensa com Estados e municípios. “Hoje a comunicação é muito formal. Não podemos ficar isolados. Isso precisa mudar”, diz. Estão previstas também ações educativas nas comunidades, remoção de moradias em áreas de risco e aumento da fiscalização para que não ocorram ocupações irregulares.
Mas isso é só um passo. Também será preciso transformar o que está construído e mudar as regras para novas edificações. A mineradora Vale, que teve problemas recentes com inundação de ferrovias, está readaptando terminais de carga, pontes e armazéns, prevendo um aumento de 30% na chuva. Após as chuvas de janeiro, a prefeitura de Teresópolis, no Rio de Janeiro, optou por mudar de lugar todo o bairro de Campo Grande, praticamente destruído. “Grande parte do bairro virou área de risco”, afirma Flávio Castro, secretário do Meio Ambiente e Defesa Civil do município. “Mesmo que as chuvas aumentem, os antigos moradores de lá estarão em um lugar mais seguro.” Os terrenos para a construção das moradias, no entanto, ainda não foram definidos.
Os estudos divulgados na semana passada deixam pouca dúvida: a frequência de chuvas extraordinárias deve aumentar. Cabe a nós – governos e cidadãos – estarmos mais preparados. E apressar as ações para reduzir as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global, para evitar que as tragédias climáticas ameacem a civilização que nossos filhos vão herdar.

 

 

http://www.ecodebate.com.br/2011/02/15/paramo-indigenas-reativam-fabrica-de-agua-andina/

 

Páramo: Indígenas reativam ‘fábrica de água’ andina

Publicado em fevereiro 15, 2011

O Cayambe, um vulcão extinto a 60 quilômetros de Quito, tem uma geleira enorme que perdeu 40% de sua cobertura em apenas 30 anos; camponeses equatorianos disputam o uso da água com fazendas de flores e de gado. Foto de Cecília Puebla/Oxfam
O Cayambe, um vulcão extinto a 60 quilômetros de Quito, tem uma geleira enorme que perdeu 40% de sua cobertura em apenas 30 anos; camponeses equatorianos disputam o uso da água com fazendas de flores e de gado. Foto de Cecília Puebla/Oxfam
Água vale ouro para as comunidades andinas no Equador. A escassez nos vilarejos ao pé da cordilheira reduz a colheita, emagrece o gado e provoca o êxodo rural. Pouca água limita a vida. Mas há alguns anos as comunidades indígenas começaram a aprender como frear o processo aproveitando cada gota disponível. Trata-se de uma experiência insólita de adaptação à mudança climática.
A chave da equação está no manejo de um ecossistema único que existe nas montanhas andinas da Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, em uma área da Costa Rica e em partes da África e da Ásia. O páramo, como é chamado, lembra um manto de musgo em um charco. Não há nada parecido no Brasil. A vegetação é rala e nasce sobre terreno pedregoso, aparece em lugares altos e onde faz muito frio. Nos arredores do Cayambe, um vulcão adormecido a 60 quilômetros ao norte de Quito, o páramo surge nas encostas entre 3 mil e 4 mil metros. Nas rochas crescem pequenas estalactites, indicando que ali há água. À primeira vista, não se dá nada por ele, mas é miopia: o páramo é uma ‘fábrica’ de água. Reportagem Daniela Chiaretti, no Valor Econômico.
Funciona como uma esponja. É um ecossistema úmido que aparece em um contexto de chuvas frequentes e vegetação resistente, que armazena água e a distribui para lugares mais baixos. Chove, a água infiltra na terra, acumula e forma pequenos canais abaixo. A água é usada na irrigação das lavouras e para produzir eletricidade. Mas se a área estiver degradada, a chuva provoca erosão e se perde nas encostas.
Água é insumo disputado. As organizações sociais dizem que mais de 67% da água no Equador está concentrada em 1% a 2% dos produtores. No caminho para o pico nevado, o terceiro mais alto do país e cortado pela linha do Equador na face sul, há dezenas de grandes tendas brancas espalhadas. São as famosas estufas de flores. O setor emprega cerca de 100 mil pessoas no país e responde por 2% do Produto Interno Bruto de US$ 57,3 bilhões. Mas existe um custo ambiental na atividade e os pequenos reclamam que a distribuição de água na região é desigual. O consumo ocorre em larga escala nas fazendas de flores e o uso de agrotóxicos pode contaminar os riachos também utilizados nos pequenos cultivos de batata, milho, cebola, frutas e plantas medicinais. Mas o conflito não era apenas com os grandes. “Os companheiros que viviam acima colocavam um dique e não deixavam nada passar para quem vivia abaixo” diz Carlos Farinango, dirigente local. A guerra pela água já começou no Equador.
A moldura desse lugar é a bela cordilheira dos Andes, mas quem vive aqui aponta as montanhas com preocupação. No Equador, entre 1956 e 2006, as geleiras perderam 40% de sua superfície. Se o aquecimento for de 1°C, todos os pequenos glaciares do Equador irão desaparecer em uma geração, diz Bolívar Cáceres, um dos principais glaciologistas do país. “A primeira coisa que a comunidade sente quando percebe o derretimento das geleiras é que não há mais água como antes”, conta.
“Esse processo de derretimento é natural, mas é algo que o aquecimento global acelerou”, explica. A montanha de Cayambe tinha uma enorme geleira até 30 anos atrás. Em uma geração, perdeu 40% de sua massa. O Equador praticamente perdeu um terço de seu gelo.
As geleiras tropicais são as que realmente estão derretendo, esclarece o glaciologista brasileiro Jefferson Cardia Simões, coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, da UFRGS. “Estão diminuindo de tamanho rapidamente, algumas tendem a desaparecer, mas isso já ocorreu no passado. O que interessa é a rapidez do processo.” Não é só o aumento da temperatura que atinge as geleiras. Há outros parâmetros, como a quantidade de vento, a influenciar o derretimento. Os “nevados tropicais” que ficam a menos de 5 mil metros de altura são os que mais têm problemas. As geleiras, evidentemente, se relacionam com o ecossistema do páramo. Cáceres acredita que, no Equador, entre 10 mil a 20 mil pessoas dependem desses imensos rios de gelo para tocar sua vida.
Mas nem sempre os camponeses equatorianos entenderam que o páramo era a salvação da lavoura. Há alguns anos, como efeito da mudança climática e do gerenciamento ruim dos recursos naturais, as zonas mais baixas das encostas estavam secas, tinham pouca água e muita disputa com as fazendas de gado e flores localizadas no pé da cordilheira. Isso obrigava os pequenos produtores a levarem suas vacas onde o pasto era mais verde, montanha acima, nos páramos, deteriorando justamente a fonte de água local. Para piorar, costumavam colocar fogo acreditando que poderiam revigorar o verde. A vegetação foi sumindo e a aridez piorando. A chuva provocava erosão na montanha sem cobertura vegetal. As famílias camponesas dependiam cada vez mais da chuva e plantavam só batata e cevada, cultivos de baixo rendimento.
“Quando começamos a trabalhar aqui, havia uma pobreza vinculada à falta de água. A maioria das comunidades camponesas e indígenas quase não tinha água”, lembra Iván Cisneros, secretário-executivo do Instituto de Ecología y Desarrollo de las Comunidades Andinas (IEDECA), uma ONG que trabalha na região estimulando melhores técnicas de uso no campo. O trabalho inicial dos agrônomos foi tornar os cultivos mais eficientes. “Até o dia em que uma liderança local nos disse: ‘Querem ajudar? Tragam água para cá.”
Em 1985, as comunidades da região do Cayambe começaram a se organizar. O primeiro passo foi limpar os canais e acertar que a água, mesmo pouca, seria repartida entre todos que trabalhassem no projeto. Foram 1.200 pessoas limpando canais e melhorando a rede de irrigação. No final, 18 canais estavam reformados, quase 100 km de extensão. “Começamos a pensar em cuidar das fontes hídricas, em melhorar solos e sementes, mas principalmente em organizar o manejo da água” diz Humberto Cholango, dirigente local. “Entendemos que os páramos tinham um papel fundamental.”
Os 18 sistemas de água abastecem 3.500 famílias de pequenos produtores que vivem nas encostas do vulcão extinto e que estão agrupadas em 48 organizações. Jeronimo Lanchiba, morador da comunidade Las Moras, lembra do tempo em que o canal próximo tinha vazão de 80 litros por segundo e agora já alcança 220. “Estávamos avançando com a fronteira agrícola e com os rebanhos sobre os páramos. O resultado é que toda a área estava secando.” A partir de 1995, eles deixaram de ocupar a área com gado e plantações. “Ele é o nosso futuro. Somos totalmente conscientes de que dependemos do páramo para viver”, prossegue Lanchiba. “Se não cuidarmos dele, isso vai virar um deserto.”
No ecossistema há setores com funções diversas. Nas áreas mais pantanosas, a água se acumula e a umidade é mantida. Em outras, há vestígios de bosques andinos. Outras são áreas de pasto e havia ainda as áreas degradadas. Na proposta de manejo considerou-se trazer o gado para as áreas mais baixas, ao contrário de mantê-lo acima – agora o rebanho sobe em número limitado de cabeças por família. Também começaram com técnicas para melhorar rebanho e produtividade. A prática de colocar fogo foi combatida, áreas foram regeneradas com espécies locais. “Os resultados não são grandiosos, mas lentos e acumulativos”, diz Cisneros. “Aos poucos o rebanho e a produção de leite foram melhorando, os cultivos foram diversificando e aumentando a vazão de água dos canais.”
O Estado, reclamam as lideranças locais, anda distante do processo. “Durante muito tempo o Estado abandonou o campo. Depois, fizeram a infraestrutura dos canais, mas com manejo pouco adequado” conta a socióloga Mayra Garzón, responsável pelo programa de vida sustentável da ONG Intermon-Oxfam. “A água é elemento dinamizador da ação social, uma luta ao redor da qual os movimentos sociais se articularam.”
Para eles foi um trunfo ter definido, na Constituição de 2008, que a água é direito humano “fundamental e irrenunciável”. Abriu-se a discussão sobre se um direito humano pode ser privatizado. A demanda dos movimentos sociais é pela revisão das concessões. “A concentração de água no Equador é muito maior que a de terra, que já é alta”, diz Mayra.
Uma lei sobre recursos hídricos devia ter sido votada pela Assembleia Nacional em março. Mas os pontos de conflito fizeram com que fosse parar no limbo onde está até hoje. Um ponto de divergência dos movimentos indígenas e camponeses é sobre quem deve ser a Autoridade Única da Água. O governo entende que essa figura deve ser ocupada pelo Executivo, pelo presidente da República. Os outros querem uma gestão mais participativa. Em outros tópicos, a oposição é com o agronegócio. “Com a mudança climática temos que ter um mecanismo de governança da água muito mais sofisticado”, reconhece Maria Fernanda Espinoza, ministra do Patrimônio Natural.
A experiência desenvolvida pelas famílias mostra a importância dos esforços de adaptação à mudança do clima, pontua Antonio Hill, especialista em mudança climática da Oxfam. “A comunidade andina vem construindo uma maneira muito eficiente de aproveitar cada gota de água disponível, tanto individualmente como por unidade de produção”, avalia. Em sua opinião, contudo, estes esforços não serão suficientes no longo prazo. “A menos que os governos estabeleçam limites de emissão de gases-estufa, os ganhos conquistados a duras penas pelas pessoas do Cayambe e em outras partes do mundo, não serão suficientes para conter catástrofes”, acredita.

Sobre o mesmo tema leiam, também:

http://www.ips.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=6800

 

Carbono prestes a escapar do Ártico

Stephen Leahy

Uxbridge, Canadá, 21/2/2011, (IPS) - O derretimento do permafrost (camada de gelo permanente) do Ártico ameaça os esforços para impedir que o planeta esquente e se torne inabitável para os humanos.

Se não se reduzir de forma drástica o uso de combustíveis fósseis, pelo menos dois terços das gigantescas reservas de carbono congelado existentes no Norte do planeta poderão ser liberados, alerta um novo estudo. Isso elevaria em vários graus as temperaturas globais, deixando inabitáveis grandes partes da Terra.

Uma vez que o Ártico esquente o suficiente, as emissões de carbono e metano do permafrost derretido amplificarão o atual ritmo de aquecimento do planeta, explicou Kevin Schaefer, cientista do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC), de Boulder, no Estado norte-americano do Colorado. E isso seria irreversível. A Terra estaria a menos de 20 anos de seu ponto de inflexão. Kevin prefere usar o termo “ponto de início”, a partir do qual os 13 milhões de quilômetros quadrados de permafrost no Alasca, Canadá, Sibéria e em várias partes da Europa se converteriam em uma nova fonte de emissões de carbono.

“Nosso modelo projeta um ponto de início dentro de 15 a 20 anos, a partir de agora”, afirmou o cientista à IPS. O modelo utilizou um cenário “na metade do caminho”, calculando menor uso de combustíveis fósseis do que atualmente. Os cientistas concluíram que, mesmo nesse ritmo, entre 29% e 60% do permafrost mundial derreterá, liberando 190 gigatoneladas de carbono extra até 2200. O estudo é o primeiro a quantificar quando e quanto carbono será liberado do Ártico, e foi publicado na semana passada na revista sobre meteorologia Tellus.

“A quantidade de carbono liberada é equivalente à metade da que já foi lançada na atmosfera desde o começo da era industrial”, ressaltou Kevin. O carbono adicional do permafrost aumentará entre oito e dez graus as temperaturas médias no Ártico, informou o estudo. Isto não só transformará totalmente a região como também aumentará as temperaturas médias do planeta em cerca de três graus, alertou Kevin. E isto se somará ao aumento previsto entre três e seis graus nos próximos cem anos devido à contínua queima de combustíveis fósseis.

Kevin inclusive reconhece que o estudo subestima o que está acontecendo. O modelo não mede as liberações de metano, que são 40 vezes mais potentes do que o carbono em matéria de aquecimento. O metano poderá ter grande impacto nas temperaturas no curto prazo, acrescentou. “Haverá muitas emissões de metano. Estamos trabalhando para estimá-las”, afirmou.

O modelo tampouco inclui emissões de uma ampla região de permafrost submarino. A IPS informou anteriormente a estimativa de que oito milhões de toneladas de emissões de metano emergem a cada ano à superfície, a partir do pouco profundo Ártico do leste siberiano. Se apenas 1% do metano submarino no Ártico alcançar a atmosfera, a quantidade deste gás que existe atualmente nela será multiplicada por quatro, disse à IPS Vladimir Romanovsky, da Universidade do Alasca.

O modelo tampouco considera um processo chamado “erosão thermokarst”, reconheceu Kevin. Trata-se de um processo amplamente observado, no qual a água de degelo causa erosão no permafrost e o expõe a temperaturas mais altas, acelerando o derretimento. “Ainda não podemos calcular isso, mas poderia contribuir para grandes liberações de carbono e metano”, acrescentou.

Nada disto é considerado nas discussões políticas para reduzir as emissões de carbono e manter abaixo dos dois graus o aumento da temperatura global. Tampouco há um amplo reconhecimento de que este processo é irreversível. Mesmo se deixarmos, a partir de hoje, de usar todos os combustíveis fósseis, as temperaturas globais continuariam aumentando, e o permafrost descongelaria em outros 20 ou 30 anos, estimou Kevin. E uma vez que o carbono é liberado, “não há como recolocá-lo no permafrost”, destacou.

Entretanto, já perto do precipício, parece surgir uma saída segura. Uma nova análise acaba de demonstrar que os combustíveis fósseis poderiam ser eliminados de forma gradual até 2050, e com um estilo de vida cômodo para a população mundial. O Informe de Energia da Ecofys, consultora líder na Holanda, diz que a humanidade poderia atender 95% de suas necessidades energéticas com fontes renováveis usando a tecnologia atual.

“O informe demonstra que em quatro décadas podemos ter um mundo de vibrantes economias e sociedades usando energias totalmente limpas, baratas e renováveis, e com melhor qualidade de vida”, destacou o diretor-geral do Fundo Mundial para a Natureza, Jim Leape. Esta instituição contribuiu com a Ecofys no trabalho. “O informe é mais do que um cenário, é um chamado à ação. Podemos alcançar um futuro mais limpo e renovável, e devemos começar agora”, disse Jim em uma declaração.

IPS (FIN/2011)