http://revista.ibict.br/inclusao/index.php/inclusao/article/view/6/11

 

O cuidado essencial: princípio de um novo ethos
Leonardo Boff
Professor emérito de ética e ecologia da UERJ, professor visitante em Harvard, Salamanca, Basel e Heideberg, autor de mais de 50 livros na área da teologia, filosofia, ética e ecologia.
E-mail: cristianomiranda@leonardoboff.com.br
Resumo
Este artigo analisa o conceito de cuidado, em sua origem filológica, desde os tempos dos gregos e latinos. Trabalho está intimamente relacionado ao conceito de cuidado. Pelo trabalho a razão constrói seres simbióticos. Pelo cuidado se chega a uma sintonia com as coisas, a uma convivência amorosa. Trabalho é plasmação da natureza, atividade criativa. Cuidado é pathos, introspecção, emoção, um sentimento que permanece indelével.
Palavras-chave
Ethos; Filologia de cuidado; Conceito de cuidado;
Modo-de-ser-no-mundo do trabalho; Modo-de-ser do cuidado.
Essential care: principle of a new ethos
Abstract
This article analyzes the concept of care, in its philological origin, since the ancient times of Greek and Latin cultures. The concept of work is intimately related to the one of care. By the work reason builds up symbiotic beings. By care one comes to a syntonization with things, to a side-by-side love living. Work is remodeling of nature, creative activity. Care is pathos, introspection, emotion, a sentiment that lasts forever.
Keywords
Ethos; Philology of care; Concept of care; Way-of-being-in the labor world; Way-of-being of care.
 
Mais e mais hoje, na crise ecológica e civilizacional, recorre-se ao cuidado como categoria matricial, capaz de inspirar um novo acordo entre os seres humanos e uma nova relação para com a natureza. Nós mesmos, em um estudo mais alentado sob o título Saber Cuidar: ética do humano-compaixão pela Terra (Vozes, Petrópolis, 1999), procuramos dar corpo a essa demanda. Estamos convencidos da fecundidade dessa categoria, pois ela implica uma nova definição do ser humano e de sua missão no conjunto dos seres. A famosa fábula 220 do filósofo romano Higino definia exatamente o ser humano como um ser-de-cuidado, coisa que foi assumido com profundidade por Martin Heidegger em Ser e Tempo.
Vamos aprofundar um pouco esta questão, começado por traçar os contornos desta categoria matricial do cuidado. Comecemos pela fenomenologia do cuidado.
Por fenomenologia entendemos a maneira pela qual o cuidado se torna um fenômeno para a nossa consciência, mostra-se em nossa experiência e concretiza-se em nossas práticas. Não se trata, em fenomenologia, de pensar e falar sobre o cuidado como um objeto independente de nós, mas de pensar e falar a partir do cuidado como ele se realiza e se desvela em nós mesmos.
Nós não temos apenas cuidado. Nós somos cuidado. Isto significa que cuidado possui uma dimensão ontológica*, quer dizer, entra na constituição do ser humano. É um modo-de-ser singular do homem e da mulher. Sem cuidado, deixamos de ser humanos. Martin Heidegger (1889-1976), o filósofo do cuidado, por excelência, mostrou que realidades tão fundamentais como o querer e o desejar se encontram enraizadas no cuidado essencial (Ser e Tempo, § 41, p. 258). Somente a partir da estrutura do cuidado, elas se exercem como dimensões do humano.
O cuidado, comenta adiante este filósofo, é “uma constituição ontológica sempre subjacente” a tudo o que o ser humano empreende, projeta e faz; “cuidado subministra preliminarmente o solo em que toda interpretação do ser humano se move” (§ 42, p. 265). Quando diz “constituição ontológica”, significa: entra na definição essencial do ser humano e determina a estrutura de sua prática. Quando fala do cuidado como “solo em que toda a interpretação do ser humano se move”, significa: o cuidado é o fundamento para qualquer interpretação que dermos do ser humano. Se não tomarmos o cuidado por base, não conseguiremos compreender o ser humano. Ele funda um novo ethos, no sentido originário da palavra ethos na filosofia grega: a forma como organizamos nossa casa, o mundo que habitamos com os seres humanos e com a natureza.
A FILOLOGIA DA PALAVRA CUIDADO
Talvez uma primeira abordagem do núcleo central de cuidado se encontre na filologia da palavra. Como os filósofos sempre nos advertem, as palavras estão grávidas de significados existências. Nelas os seres humanos construíram uma acumulação de infindáveis experiências, positivas, negativas, experiências de busca, de encontro, de certeza, de perplexidade e de mergulho no Ser. Precisamos desentranhar das palavras essa riqueza escondida. Normalmente as palavras nascem dentro de um nicho de sentido originário. A partir daí, desdobram outras significações afins. Assim parece ser com a origem da palavra cuidado.
Consultando clássicos dicionários de filologia* (* Para a filologia da palavra cuidado, é útil consultar as seguintes fontes: cura, em Thesaurus Linguae Latinae vol. 4, Leipzig 1909, col. 1451-1476; Paulys Realencyclopediae der classischen Altertumswissenschaft vol. 8, Stuttgart 1901, col. 1773; A. Ernout e A. Meillet, Dictionnaire Ethymologique de Ia Langue Latine, Paris 1939, 245-246; cuidado, Caldas Aulete, Dicionário Contemporâneo da língua portugesa, Edições Delta, Rio de Janeiro 1985; Antenor Nascentes, Dicionário Etimológico resumido, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro 1966; Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa, Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1991).
Assim, chegamos ao seguinte resultado:
- em latim, donde se derivam as línguas latinas e o português, cuidado significa Cura. Cura é um dos sinônimos eruditos de cuidado, utilizado na tradução do famoso Ser e Tempo, de Martin Heidegger. Em seu sentido mais antigo, cura se escrevia em latim coera e se usava em um contexto de relações humanas de amor e de amizade. Cura queria expressar a atitude de cuidado, de desvelo, de preocupação e de inquietação pelo objeto ou pela pessoa amada Outros derivam cuidado de cogitare-cogitatus e de sua corruptela coyedar, coidar, cuidar. O sentido de cogitare-cogitatus é o mesmo de cura: cogitar e pensar no outro, colocar a atenção nele, mostrar interesse por ele e revelar uma atitude de desvelo, até de preocupação pelo outro. O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim. Passo então a dedicar-me a ele; disponho-me a participar de seu destino, de suas buscas, de seus sofrimentos e de suas conquistas, enfim, de sua vida.
Cuidado significa, então, desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato. Trata-se, como se depreende, de uma atitude fundamental. Como dizíamos anteriormente, cuidado implica um modo-de-ser mediante o qual a pessoa sai de si e se centra no outro com desvelo e solicitude. Temos, nas línguas latinas, a expressão “cura d’almas” para designar o sacerdote ou o pastor cuja incumbência reside em cuidar do bem espiritual das pessoas e acompanhá-las em sua trajetória religiosa. Tal diligência não se faz sem fino trato, sem zelo e dedicação, sem esprit definesse, como convém às coisas espirituais.
A atitude de cuidado por uma pessoa pode provocar preocupação, inquietação e sentido de responsabilidade por ela. Assim, por exemplo, dizemos: “essa criança é todo o meu cuidado (preocupação)”; ou como escreveu o Padre Antônio Vieira, clássico de nossa língua: “estes são, amigo, todos os meus cuidados (minhas inquietações)”. Um antigo adágio rezava: “quem tem cuidados não dorme”; ou “entreguei meu filho aos cuidados do diretor da escola” (coloquei-o sob sua responsabilidade). Os latinos conheciam a expressão dolor amoris (dor de amor) para expressar a cura e o cuidado para com a pessoa amada.
Cuidado, pois, por sua própria natureza, inclui duas significações básicas, intimamente ligadas entre si. A primeira designa a atitude de desvelo, de solicitude e atenção para com o outro. A segunda nasce desta primeira: a preocupação e a inquietação pelo outro, porque nos sentimos envolvidos e afetivamente ligados ao outro.
Com razão, o grande poeta latino Horácio (65-8 a.C.) podia finamente observar: “O cuidado é o permanente companheiro do ser humano”. Quer dizer: o cuidado sempre nos acompanha, porque nunca deixaremos de amar alguém e nos desvelar por ele (primeiro sentido); nunca também deixaremos de nos preocupar e nos inquietar por essa pessoa amada (segundo sentido). Se assim não fora, não nos sentiríamos envolvidos com ela. Mostraríamos negligência e incúria por sua vida e destino. No limite, revelaríamos indiferença, que é a morte do amor.
DOIS MODOS DE SER-NO-MUNDO: TRABALHO E CUIDADO
Os dois significados básicos que colhemos da filologia de cuidado nos confirmam a idéia de que ele é mais que um ato singular ou uma virtude ao lado de outras. É um modo-de-ser, isto é, a forma como a pessoa humana se estrutura e se realiza no mundo junto com os outros. Melhor ainda: é uma forma de ser-no-mundo e, a partir daí, de relacionar-se com as demais coisas.
Quando dizemos ser-no-mundo não expressamos uma determinação geográfica como estar na natureza, junto com plantas, animais e outros seres humanos. Isso pode estar incluído. Mas ser-no-mundo é algo mais abrangente. Significa uma forma de estar presente, de navegar pela realidade e de relacionar-se com todas as coisas do mundo. Nessa navegação e nesse jogo de relações, o ser humano vai construindo o próprio ser, a autoconsciência e a própria identidade.
Podemos dizer que há dois modos básicos de ser-no-mundo: o trabalho e o cuidado. Consideremos cada um deles e suas mútuas implicações. Ai emerge o processo de construção da realidade humana.
a) O modo-de-ser do trabalho
O modo de ser-no-mundo pelo trabalho se dá na forma de interação e de intervenção. O ser humano é um ser por natureza criativo. Não vive em uma sesta biológica com a natureza. Pelo contrário: intervém nela, procura conhecê-la, identifica suas leis e ritmos, tira vantagens dela e torna seu modo de viver mais cômodo. É pelo trabalho que faz tudo isso. Por ele constrói o seu habitat. Adapta o meio ao seu desejo e conforma seu desejo ao meio. Pelo trabalho ele prolonga a evolução e introduz realidades que, possivelmente, a evolução jamais iria produzir, como um castelo, uma cidade, uma máquina, uma rede de comunicação. Pelo trabalho, ele co-pilota o processo evolutivo que se faz, então, co-evolutivo, vale dizer, a natureza e as sociedades humanas com suas organizações, sistemas, máquinas e cidades entram em simbiose e co-evoluem juntas.
De certa forma, o trabalho está presente no dinamismo da própria natureza. Uma planta ou um animal também trabalham, na medida em que interagem com o meio, trocam informações, mostram-se flexíveis e adaptam-se em vista à sobrevivência. No ser humano inteligente, porém, o trabalho se transforma em modo-de-ser consciente e assume o caráter de um projeto e de uma estratégia com suas táticas de plasmação da natureza.
Primitivamente o trabalho era mais uma interação do que uma intervenção na natureza. O ser humano mantinha uma relação de veneração e de comunhão com ela e somente utilizava aquilo de que precisava para sobreviver e tornar cômoda a vida. Podemos dizer que, desde o surgimento do homo habilis, entre 2 milhões a 1,6 milhão de anos atrás, quando se inventou o instrumento, começou o processo de intervenção do ser humano na natureza. Transformou-se em uma constante a partir do homo sapiens (do qual somos descentes diretos) cerca de 150 mil anos atrás. E institui-se como um processo orgânico a partir do neolítico, há cerca de 10 mil anos, quando o ser humano deixou as cavernas e começou a construir casas, vilas e sistemas de domesticação de animais e de plantas, processo que culmina com a tecnociência de nos nossos dias.
Foi pelo trabalho que os seres humanos formaram as culturas como modelação da natureza em consonância com seus projetos e valores. Nesse processo se revelava já a vontade de poder e de dominação sobre a natureza. Ela se reforçou quando o ser humano se sentiu desafiado pelos obstáculos que encontrava. Então aumentou sua agressividade e exasperou sua indústria e engenho. Começou a utilizar um tipo de razão, a instrumental-analítica, pois essa é apropriada para a intervenção profunda na natureza. Esta faz com que o modo-de-ser do trabalho exija “objetividade”. Quer dizer, imponha um certo distanciamento da realidade a fim de estudá-la, acumular experiências com ela e assenhorear-se dela.
Cumpre enfatizar que os “objetos” não são objetos em si. São feitos objetos pelo ser humano, pois ele isola os seres de seu meio, separa-os de outros companheiros de existência e os reduz a meros objetos do interesse humano, coisa que a natureza não faz. A “objetividade” é uma projeção da razão. Como veremos logo a seguir, os ditos objetos, na verdade, são sujeitos, pertencem à comunidade cósmica e terrenal junto com os seres humanos.
Mas, à medida que foi avançando neste afã objetivista e coisificador, o ser humano criou os aparatos que lhe dispensam o desgaste das energias e aumentam as potencialidades de seus sentidos. Hoje mais e mais o trabalho é feito por máquinas, computadores, autômatos e robôs que substituem, em grande parte, a força de trabalho humano. Surge o que se convencionou chamar de cibionte: o superorganismo híbrido, feito de seres humanos, máquinas e redes de informação, portanto, a articulação do biológico, do mecânico e do eletrônico que formam nossas sociedades atuais com seres humanos simbióticos (relacionados com essas realidades).
A lógica do ser-no-mundo na forma de trabalho é o situar-se sobre as coisas para dominá-las e colocá-las a serviço dos interesses pessoais e coletivos. No centro está o ser humano, o que deu origem ao antropocentrismo. O antropocentrismo configura aquela atitude mediante a qual somente se vê sentido nas coisas à medida que elas se ordenam ao ser humano e satisfazem seus desejos. Esquece-se da relativa autonomia que cada coisa possui. Mais ainda olvida-se a conexão que o próprio ser humano guarda, quer queira quer não, com a natureza e com todas as coisas. Ele não deixa de ser também natureza e parte do todo. Por fim, ignora-se que o sujeito da vida, da sensibilidade, da inteligibilidade e da amorização não somos nós, mas é o próprio universo, no caso, a própria Terra, que por nós e em nós manifesta sua capacidade de sentir, de pensar, de amar e de venerar. O antropocentrismo desconhece todas estas imbricações.
Essa atitude de trabalho-poder-dominação do mundo corporifica a dimensão masculina no homem e na mulher. É aquela dimensão que, como vimos anteriormente, compartimenta a realidade para melhor conhecê-la e subjugá-la; usa de poder e até de agressão para alcançar seus objetivos utilitaristas; lança-se para fora de si na aventura do conhecimento e da conquista de todos os espaços da Terra e, nos dias de hoje, do espaço exterior celeste. Ele começou a predominar a partir do neolítico e atualmente chegou ao seu ponto culminante, na ocupação e hominização de toda a Terra.
b) O modo-de-ser do cuidado
A outra forma de ser-no-mundo se realiza pelo cuidado. O cuidado não se opõe ao trabalho, mas lhe confere uma modalidade diferente. Pelo cuidado não vemos a natureza e tudo que nela existe como objetos. A relação não é sujeito-objeto, mas sujeito-sujeito. Experimentamos os seres como sujeitos, como valores, como símbolos que remetem a uma realidade fontal. A natureza não é muda. Ela fala. Evoca. Emite mensagens de grandeza, beleza, perplexidade e força. O ser humano pode escutar e interpretar esses sinais. Coloca-se junto às coisas, ao pé delas e sente-se unido a elas. Não existe apenas. Co-existe com todos os outros. A relação não é de domínio, mas de convivência. Não é pura intervenção, mas principalmente interação e comunhão. É de cuidado das coisas.
Cuidar das coisas implica ter intimidade com elas, senti-las dentro, acolhê-las, respeitá-las, dar-lhe sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com as coisas. Auscultar-lhe o ritmo e afinar-se com ele. Cuidar é estabelecer comunhão. Não é a razão analítica-instrumental que é chamada a funcionar. Mas a razão cordial, o esprit de finesse (o espírito de delicadeza), o sentimento profundo. Mais que o logos (razão), é o pathos (sentimento), que ocupa aqui a centralidade.
Este ser-no-mundo na forma do cuidado faz o homem e a mulher viverem a experiência fundamental daquilo que tem importância e definitivamente conta, em uma palavra, o valor. Não o valor utilitarista (só para o meu uso), mas o valor das coisas em si mesmas, oculto e revelado em sua natureza que irradia e se conecta com tudo e com todos. A partir do valor inerente às coisas, emerge a dimensão de alteridade, reciprocidade e complementariedade.
Todos nos sentimos ligados e religados uns com os outros, formando um todo orgânico único, diverso e sempre includente. Esse todo remete a um derradeiro Elo, que tudo religa, sustenta e dinamiza. Ele irrompe como Valor Supremo, que em tudo se vela e se revela. Esse Valor Supremo tem o caráter de Mistério, no sentido de sempre se anunciar em tudo e, ao mesmo tempo, recolher-se de tudo. Esse Mistério não é vivido como limite, mas como o ilimitado e o sem fronteiras do ser humano e do próprio mundo. Ele não mete medo. Fascina e se deixa experimentar como um grande Útero que, por ser Valor Supremo, realiza-nos supremamente. Ele também foi chamado de Deus.
Neste modo-de-ser do cuidado ocorrem também resistências e emergem também perplexidades. Elas, porém, são superadas pela paciência perseverante. No lugar da agressividade, há a convivência amorosa. Em vez da dominação, há a companhia ao lado e junto do outro.
Esse modo-de-ser do cuidado concretiza a dimensão feminina do ser humano, homem e mulher. Ela sempre esteve presente na história. Mas ganhou mais expressão histórica no paleolítico, quando as culturais eram matrifocais. Nesta época, vivia-se, como vimos anteriormente, a fusão com a natureza. As pessoas sentiam-se incorporadas no todo. Eram sociedades marcadas pelo profundo sentido do Sagrado do universo e pela reverência em face da misteriosidade da vida e do planeta Terra. As mulheres possuíam a hegemonia histórico-social e davam ao feminino, que não é exclusivo delas (os homens são também portadores de feminino), uma expressão tão profunda, que ficou na memória permanente da humanidade através de grandes símbolos, sonhos e arquétipos do feminino na cultura e no inconsciente coletivo.
A DITADURA DO MODO-DE-SER DO TRABALHO
O grande desafio para o ser humano é combinar trabalho com cuidado. Eles não se opõem. Mas se compõem. Limitam-se mutuamente e, ao mesmo tempo, complementam-se. Juntos constituem a integralidade da experiência humana, por um lado ligada à objetividade e por outro à subjetividade. O equívoco consiste em opor uma dimensão à outra, e não vê-las como modos-de-ser do único e mesmo ser humano.
A história, a partir das revoluções do neolítico, mostra-nos um drama de perversas conseqüências: a ruptura entre o trabalho e o cuidado. Lentamente começou a predominar o trabalho como afã nervoso, busca frenética de eficácia, de produção e de dominação crescente da Terra. Mas os últimos séculos, especialmente, a partir do processo industrialista do século XVIII, caracterizam-se pela ditadura do modo-de-ser trabalho como intervenção e produção. O trabalho não é mais relacionado com a natureza (modelação), mas com o capital (confronto capital-trabalho, analisado por Marx e Engels). O trabalho agora é trabalho assalariado, e não atividade de plasmação da natureza. As pessoas, homens e mulheres, vivem, então, escravizadas pelas estruturas do trabalho produtivo, racionalizado, objetivado e despersonalizado, e submetidas à lógica da máquina.
Um fino analista colombiano Luiz Carlos Restrepo diz, com razão, que todos nos fizemos herdeiros de Alexandre, o Grande (336-323 a.C.), o arquétipo do guerreiro e do conquistador (O direito à ternura, p. 21-24) Ora, a ideologia latente no modo-de-ser-trabalho é a conquista do outro, do mundo, da natureza, na forma da dominação pura e simples. Esse modo-de-ser mata a ternura, liquida o cuidado e distorce a essência humana.
Por isso, a dominação do modo-de-ser trabalho masculinizou todas as relações, abriu espaço para o antropocentrismo (dominação do ser humano, homem e mulher), o androcentrismo (dominação do homem), o patriarcalismo e o machismo. Estamos às voltas como expressões patológicas do masculino desconectado do feminino, o animus sobreposto à anima.
O cuidado foi difamado como feminilização das práticas humanas, como empecilho à objetividade da compreensão e como obstáculo à eficácia.
A ditadura do modo-de-ser trabalho está atualmente conduzindo a humanidade a um impasse crucial: ou pomos limites à voracidade produtivista, associando trabalho e cuidado, ou vamos ao encontro do pior. Pela exasperação do trabalho produtivo se exauriram recursos não renováveis e se quebraram os equilíbrios físico-químicos da Terra. A sociabilidade entre os humanos se rompeu pela dominação de povos sobre outros e pela luta renhida das classes. No ser humano não se vê outra coisa que sua força de trabalho a ser vendida e explorada ou sua capacidade de produção e de consumo. Mais e mais pessoas, na verdade dois terços da humanidade, são condenadas a uma vida insustentável. Perdeu-se a visão do ser humano como ser-de-relações ilimitadas, ser de criatividade, de ternura, de cuidado, de espiritualidade, portador de um projeto sagrado e infinito.
O ser-no-mundo exclusivamente como trabalho pode destruir o mundo. Daí a urgência atual de resgatar o modo-de-ser do cuidado essencial, como o seu corretivo indispensável. Então pode surgir o cibionte, aquele ser que entra em simbiose com a máquina, para melhorar sua vida, e não para desvirtuá-la.

 

O RESGATE DO MODO-DE-SER DO CUIDADO
O regate do cuidado não se faz às custas do trabalho. Mas mediante uma forma diferente de entender e de realizar o trabalho. Para isso, o ser humano precisa voltar-se sobre si mesmo e descobrir seu modo-de ser-cuidado.
Precisamos retomar a reflexão sobre a natureza do cuidado essencial. A porta de entrada não pode ser a razão calculatória, analítica e objetivística. Ela nos leva ao trabalho-intervenção-produção e aí nos aprisiona. Tanto é assim que as máquinas e os computadores mostram, melhor que os seres humanos, o funcionamento deste tipo de razão-trabalho.
Mas há algo nos seres humanos que não se encontra nas máquinas. Algo que surgiu há milhões de anos no processo evolucionário quando emergiram os mamíferos, dentro de cuja espécie nós nos inscrevemos: o sentimento, a capacidade de emocionar-se, de envolver-se, de afetar e de sentir-se afetado.
Um computador ou um robô não tem condições de cuidar do meio ambiente, de chorar sobre as desgraças dos outros e de rejubilar-se com a alegria do amigo. Um computador não tem coração.
Só os seres vivos, especialmente nós humanos, sim, podemos sentar à mesa com o amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro, tomar com ele um copo de cerveja e trazer-lhe consolação e esperança. Construímos o mundo a partir de laços afetivos. Esses laços tornam as pessoas e as situações preciosas, portadoras de valor. Preocupamo-nos com elas. Tomamos tempo para dedicarmo-nos a elas. Sentimos responsabilidade pelo laço que cresceu entre nós e os outros. A categoria cuidado recolhe todo esse modo-de-ser. Mostra como funcionamos na condição de seres humanos.
Em conseqüência desta reflexão, evidencia que o dado originário não é o logos (a razão, as estruturas de significação). Mas o pathos (o sentimento, a capacidade de simpatia, de empatia, dedicação, cuidado e de união com o diferente). Tudo começa com o sentimento. É o sentimento que nos faz sensíveis a tudo o que está a nossa volta. Que nos faz gostar ou desgostar. É o sentimento que nos une às coisas e nos envolve com as pessoas. É o sentimento que nos produz o encantamento em face da grandeza dos céus, a veneração diante da complexidade da mãe Terra e o enternecimento diante da fragilidade e da vitalidade de um recém-nascido. Recordemos a frase do Pequeno Príncipe,de Antoine de Saint Exupéry, que fez fortuna na consciência coletiva dos milhões de leitores:” É com o coração (sentimento) que se vê corretamente; o essencial é invisível aos olhos”. É o sentimento que torna pessoas, coisas e situações importantes para nós. Esse sentimento profundo, repetimos, chama- se cuidado. Somente aquilo que passou por uma emoção, evocou-nos um sentimento profundo e provocou cuidado em nós deixa marcas indeléveis e permanece definitivamente em nós.
Toda a reflexão contemporânea, especialmente a partir da psicologia profunda de Freud, Jung, Adler, Rogers e Hillman, e hodiernamente, a partir da biologia genética, da teoria do caos, das estruturas dissipativas (Ilya Prigogine) e das implicações antropológicas da física quântica à la Niels Bohr (1885-1962) e Werner Heisenberg (1901-1976), resgatou a centralidade do sentimento, a importância da ternura, da compaixão e do cuidado.
Mais do que o cartesiano cogito ergo sum (penso, logo existe), vale o sentio ergo sum (sinto, logo existo). O livro de Daniel Goleman Inteligência Emocional se transformou em um best-seller mundial, porque, à base de investigações empíricas sobre o cérebro e a neurologia, mostrou aquilo que já Platão (427-347 a.C.), Santo Agostinho (354-430), a escola franciscana medieval (com S. Boventura e Duns Scotus), Pascal (1623-1662), Schleiermacher (1768-1834) e Heidegger (1889-1976) ensinavam há muito tempo: a estrutura básica do ser humano é o pathos, é o sentimento, é o cuidado, é a lógica do coração. “A mente racional”, conclui Goleman (1995, p. 309), “leva um ou dois momentos mais para registrar e reagir do que a mente emocional; o primeiro impulso....é do coração, não da cabeça”.
O cuidado expressa execelentemente o caráter primacial do pathos e da emoção. O cuidado se encontra antes, está na origem da existência do ser humano. E essa origem não é apenas um começo temporal. A origem tem o sentido de fonte donde brota permanentemente o ser. Portanto, significa que o cuidado constitui uma presença ininterrupta, em cada momento e sempre, na existência humana. Cuidado é aquela energia que continuamente faz surgir o ser humano.
Um psicanalista atento ao drama da civilização moderna, como o norte-americano Rollo May, podia comentar: “Nossa situação é a seguinte: na atual confusão de episódios racionalistas e técnicos, perdemos de vista e nos despreocupamos do ser humano; precisamos agora voltar humildemente ao simples cuidado....; é o mito do cuidado – e creio, muitas vezes, somente ele – que nos permite resistir ao cinismo e à apatia, que são as doenças psicológicas do nosso tempo” (Eros e repressão, p.338; 340).
Nossa civilização precisa é superar a ditadura do modo-de-ser-trabalho. Ela nos mantém reféns do mundo das máquinas produtivas, escravos de uma lógica que hoje se mostra agressiva e destrutiva, da Terra e de seus recursos, das relações entre os povos, das interações entre capital e trabalho, da espiritualidade e de nosso sentido de pertença a um destino comum. Libertados dos trabalhos estafantes e desumanizadores, agora feitos pelas máquinas automáticas, recuperaríamos o trabalho em seu sentido antropológico originário, como plasmação da natureza e como atividade criativa, trabalho capaz de realizar o ser humano e de construir sentidos cada vez mais integradores com a dinâmica da natureza e do universo.
Importa colocar em tudo cuidado. Para isso, urge desenvolver a dimensão de anima, que está em nós. Isso significa: conceder direito de cidadania fundamental à nossa capacidade de sentir o outro; ter compaixão com todos os seres que sofrem, humanos ou não-humanos; obedecer mais à lógica do coração, da cordialidade e da gentileza do que à lógica da conquista e do uso utilitário das coisas. Dar centralidade ao cuidado não significa deixar de trabalhar e de intervir no mundo. Significa renunciar à vontade de poder que reduz tudo a objetos, desconectados da subjetividade humana. Significa impor limites à obsessão pela eficácia a qualquer custo. Significa derrubar a ditadura da racionalidade fria e abstrata para dar lugar ao cuidado. Significa organizar o trabalho em sintonia com a natureza, seus ritmos e suas indicações. Significa respeitar a comunhão que todas as coisas têm entre si e conosco. Significa colocar o interesse coletivo da sociedade, da comunidade biótica e terrenal acima dos interesses exclusivamente humanos. Significa colocar-se junto e ao pé de cada coisa que queremos transformar para que ela não sofra, não seja desenraizada de seu habitat e possa manter as condições de se desenvolver e co-evoluir junto com seus ecossistemas e com a própria Terra. Significa captar a presença do Espírito para além de nossos limites humanos, no universo, nas plantas, nos organismos vivos, nos grandes símios (gorilas, chimpanzés e orangotangos), portadores também de sentimentos, de linguagens e de hábitos culturais semelhantes aos nossos.
Estes são os antídotos ao sentimento de abandono que os pobres sentem e à percepção de descuido que os desempregados, aposentados, idosos e também jovens denunciam em todas as instituições sociais que já não se ocupam e preocupam com o ser humano, mas com a economia, com as bolsas, com os juros, com o crescimento ilimitado de bens e serviços materiais, apropriados pelas classes privilegiadas ao preço da dignidade e da compaixão necessária pelas carências das grandes maiorias. Este é o remédio que poderá impedir a devastação da biosfera e comprometer o frágil equilíbrio de Gaia. Este é o modo-de-ser que resgata nossa humanidade mais essencial, cuja força pode servir de plataforma para um novo ensaio civilizatório.
REFERÊNCIAS
BOFF, L. O princípio-Terra:volta à pátria comum. São Paulo: Ática, 1995.
_______ . O destino do homem e do mundo. Petrópolis: Vozes, 1976.
________ . O rosto materno de Deus: ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. Petrópolis: Vozes, 1995. BUYTENDIJK, J. F. F. La femme, ses modes d’être, de paraítre et d’exister, Desclée de Browe. Paris: [s.n.], 1967. p. 249 ss. Todo um capítulo dedicado ao cuidado.
CAPRA, E. O tao da física.São Paulo: Cultrix, 1990.
CARDOSO, João et al. Ossentidos da paixão.São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
CAROTENUTO, A. Eros e Pathos. São Paulo: Pautus, 1994. CAVALIERI, P.; SINGER, R. (Org.). Elproyecto ‘Gran Simeo” - la igualdad más allá de la humanidad. Madrid: Trotta, 1998.
CHARDIN, P. T. de. O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix, 1988.
CRESPO, J. História do corpo. Rio de Janeiro: Editora Bertrand, 1990.
DEMO, P. Conhecimento moderno: sobre ética e intervenção do conhecimento. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
________ . Ciência, ideologia e poder.São Paulo: Atlas, 1996. DUVE, Christian de. Poeira vital, a vida como imperativo cósmico. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
GADAMER, H. -G. A razão na época da ciência. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 199-?.
GIDDENS, A. A transformação da intimidade - Sexualidade, amor, erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora UNESP, 1993. GOLEMAN, D. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1995.
GUTIERREZ, R. O feminismo é um humanismo, Rio de Janeiro: Nobel-Antares, 1985.
HABERMAS, J. Conhecimento e interesse. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
HEIDEGGER, M. Ser e tempo, parte I. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Editora Vozes, 1989. p. 243-300. Todo o sexto capítulo, dedicado à cura-cuidado parágrafos 39-44. IMBASCIATI, A. Afeto e representação.São Paulo: Editora 34, 1998.
LEONARD, G. Educação e êxtase.Rio de Janeiro: Summus Editorial, 1988.
MAY, R. Eros e repressão, amor e vontade. Petrópolis: Editora Vozes, 1973. p. 318-340. O sentido do cuidado.
Inclusão Social, Brasília, v. 1, n. 1, p. 28-35, out./mar., 2005
________ . A coragem de criar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
MATOS, L. Corpo e mente. Petrópolis: Vozes, 1994.
MATURANA, H. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
_________ ; Varela, E. A árvore do conhecimento:as bases biológicas do entendimento humano. Campinas: Editorial Psy II, 1995.
__________ . De máquinas e seres vivos: autopoiese - a orgnização do vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1977.
MIRANDA, R. L. Além da inteligência emocional.Rio de Janeiro: Editora Campus, 1998.
MURARO, R. M. A mulher no terceiro milênio. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1992.
NEUMANN, E. História da origem da consciência.São Paulo: Cultrix, 1990.
NOVELLO, M. O círculo do tempo . Rio de Janeiro: Campus, 1997. OLIVEIRA, A. B. A unidade perdida homem-universo: uma visão aberta da physis no fim do milênio. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.
PARIS, G. Meditações pagãs: o mundo de Afrodite, Artemis e Héstia. Petrópolis: Vozes, 1994.
PAULON, E. John Bowlby num encontro de ciência e ternura. Niterói: Arte e Cultura, 1991.
RESTREPO, L. C. O direito à ternura. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
ROSNAY, J. de. O homem simbiótico: perspectivas para o terceiro milênio. Petrópolis: Vozes, 1997.
SAGAN, C. Pálido ponto azul. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
SCHNITTMAN, D. F. (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
SJOÕ,M.; MOR,B. The great cosmic mother: rediscovering the religion of the earth. San Francisco: Harper, 1991.
SMART, J. J. C. Nosso lugar no universo: uma questão de espaço-tempo. São Paulo: Siciliano, 1991.
SPINDELDREIER, Frei A. Feminilidade. Grande Sinal, n. 40, p. 83-92, 1970.
SUSIN, L. C. O homem messiânico: uma introdução ao pensamento de Emmanuel Levinas. Petrópolis: Vozes, 1984.
TOURAINE, A. Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994. UNGER, N. M. O encantamento do humano. São Paulo: Loyola, 1991.
VATTIMO, G. O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1997. WOOLGER, J. B. A deusa interior. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36635

 

Dardos contra a água engarrafada

 

O México é o país do mundo que consome maior volume de água engarrafada por pessoa, fato que alarma as organizações não governamentais porque evidencia a precariedade no acesso a água potável. A sociedade civil organizada também destaca a direta responsabilidade da indústria do setor nesta negativa primazia do país, segundo a empresa norte-americana Beverage Marketing Corporation, que assessora as empresas de bebidas.
A reportagem é de Emilio Godoy, da IPS, e publicada pela Agência Envolverde, 24-09-2010.
De acordo com o estudo, o consumo anual per capita no México, com 108 milhões de habitantes, chegaria a 234 litros, contra 110 litros dos Estados Unidos, que tem 310 milhões de pessoas. Outra estatística mais conservadora, do Instituto Nacional de Geografia e Estatística, mostra que, em 2008, foram vendidos quase seis bilhões de litros de água purificada, cerca de dois bilhões de litros a mais do que em 2001.
A desconfiança da população com a qualidade da água potável levou ao consumo do líquido engarrafado, embora os sistemas municipais de distribuição do recurso assegurem que a água pode ser bebida. Para Nathalie Séguin, da Rede Mexicana de Ação pela Água, também “existem dúvidas sobre a qualidade da água engarrafada. Além disso, é uma produção insustentável, pois as multinacionais vendem caro a água, que para elas é barata”, disse à IPS.
A comercialização da água engarrafada aumentou ao ritmo anual de 8,1%, segundo a Associação Nacional de Produtores e Distribuidores de Água Purificada. “Isto ocorre pela omissão da obrigação de fornecimento de água potável em um sistema no qual não há clareza sobre a limpeza da água recebida em casa”, disse à IPS Claudia Campero, coordenadora para a América Latina do canadense Projeto Planeta Azul, que busca proteger a água doce do mundo.
Esta semana, chefes de Estado e de governo de todo o mundo discutiram, na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, uma nova estratégia frente aos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) acordados pela Assembléia Geral em 2000.
Os ODM são reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem pobreza e fome, com relação a 1990; garantir a educação primária universal; promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil e a materna; combater a aids, a malária e outras enfermidades; assegurar a sustentabilidade ambiental, que inclui a meta específica do acesso a água e saneamento, e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Tudo isto até 2015.
O México praticamente já alcançou a meta de reduzir pela metade a proporção de pessoas sem acesso sustentável a água potável e a serviços básicos de saneamento entre 1990 e 2015, segundo o informe “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Avanços na Sustentabilidade Ambiental do Desenvolvimento na América Latina e no Caribe 2010”, da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
Contudo, esta agência alertou que, enquanto os municípios do norte mexicano, fronteiriços com os Estados Unidos, mostram níveis elevados de acesso a água potável, as localidades em piores condições estão no centro e sul do país. Contudo, 9,7% da população mexicana ainda carece de acesso a água e 13,6% a saneamento, segundo a Comissão Nacional da Água (Conagua).
Para 2011, o projeto de orçamento nacional, enviado pelo presidente Felipe Calderón ao Congresso, propõe redução de 21% para o setor de água potável e esgoto, baixando de US$ 1,4 bilhão este ano para US$ 1,116 bilhão. Em uma resolução sem precedentes, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou em julho o acesso a água e saneamento um direito humano, o qual aplicará em todo seu sistema de direitos humanos.
O México recebe por ano 1,489 bilhão de metros cúbicos de água em forma de chuva: 73,2% evapora, 22,1% alimenta rios e riachos, e o restante se infiltra no subsolo e recarrega os aquíferos, segundo o informe governamental Estatísticas da Água no México 2010. Dos 653 aquíferos do país, 101 estão superexplorados. Por isso, entre 1950 e 2007 a disponibilidade média por pessoa caiu de 18.035 metros cúbicos por habitante ao ano para 4.312.
Organizações sociais a favor do direito à água potável denunciaram que aquela que chega às casas pode conter bactérias, arsênico e minerais pesados. Por isso, pedem melhoria no sistema de monitoramento de sua qualidade, para que seja feito em tempo real. Desde 1996, a Conagua emprega a Rede Nacional de Monitoramento da Qualidade da Água, cujos objetivos são avaliar as tendências da qualidade da água, fortalecer o cumprimento da regulamentação sobre a contaminação dos corpos de água e identificar problemas associados com contaminantes, como arsênico e metais.
O volume de água tratada cresceu de 84,5% em 1991 para 97,1% em 2008. Um ano antes, as doenças infecciosas intestinais vinculadas à má qualidade da água foram a terceira causa de morte em crianças menores de quatro anos, com 1.465 falecimentos, segundo o Ministério de Saúde Pública. Neste país operam cerca de oito mil empresas engarrafadoras e distribuidoras de água, mas o mercado é dominado pelas norte-americanas Coca-Cola, e sua filial Fomento Econômico Mexicano (Femsa), e Pepsi Cola, além da suíça Nestlé e a francesa Danone, segundo a Associação Nacional de Produtores e Distribuidores de Água Purificada.
Em 2008, segundo a Conagua, a Coca-Cola recebeu 151 concessões para exploração de águas subterrâneas, com volume de extração anual de 29,5 milhões de metros cúbicos. A Pepsi Cola obteve 40 permissões, com 7,9 milhões de metros cúbicos, a Danone 32 licenças, 4,8 milhões de metros cúbicos, e Nestlé com 21 licenças e 5,2 milhões de metros cúbicos. As empresas citadas não responderam a consulta da IPS a respeito.
“O México precisou adotar políticas públicas para garantir o direito humano à água, o que teria que se expressar no acesso a água potável de qualidade por meio da rede de fornecimento”, disse Nathalie. “O esquema gera grandes injustiças em nível local, porque em lugar de ter acesso a fontes de melhor qualidade, as comunidades se veem relegadas a outras fontes de menos qualidade, como os poços”, alertou Claudia, que também representa a organização norte-americana Food and Water Watch.

 

 

 

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36782

 

Faça a sua parte. Reciclado, óleo de cozinha deixa de ser vilão ambiental
Talvez você não saiba, mas o óleo que você descarta no ralo da pia da cozinha ou no vaso sanitário tem um efeito devastador para o meio ambiente. Por mês, mais de 200 milhões de litros de óleo usado vão para os rios e lagos do País. "No Brasil, são produzidos por ano 3 bilhões de litros de óleos vegetais", diz Levi Torres, coordenador de projetos da Associação Brasileira de Coleta e Reciclagem de Resíduos de Óleo Comestível (Ecóleo). Somente 7 milhões de litros de óleo usado são recolhidos por mês. O Estado de São Paulo é responsável pela coleta mensal de 1,8 milhão de litros, um terço do total no Brasil.
A notícia é do jornal O Estado de S. Paulo, 29-09-2010.
1  Não jogue no ralo
Estima-se que uma família descarte 1,5 litro de óleo de cozinha por mês. O primeiro passo é não jogar o óleo que você usa na cozinha pelo ralo da pia. Ele deve ser primeiro resfriado e depois guardado para a reciclagem. Para guardá-lo, use um recipiente plástico com tampa. No dia a dia, vá acrescentando o resíduo de óleo ou gordura de frituras. O ideal é não reutilizar o óleo.
2  Sem dor de estômago
Se o reúso for necessário, observe se aparecem espuma e fumaça durante a fritura. A cor escura do óleo e do alimento frito, o odor e sabor não característicos são sinais de que é hora de comprar um novo. Reutilizar o óleo pode causar diarreia e outros problemas de saúde.
3  Em casa
Em condomínios como o do zelador Carlos Silva, na zona sul de SP, há um sistema de coleta em parceria com cooperativas que recolhem o material. Caso seu edifício não tenha uma parceria do tipo, leve o óleo guardado a um ecoponto ou local de coleta. Veja no site da Ecóleo os que ficam mais perto de sua casa.
4  Fora de casa
Restaurantes e lanchonetes, que utilizam volumes significativos do produto, devem entrar em contato com empresas ou entidades licenciadas pelo órgão competente da área ambiental da cidade e descartar o óleo em uma bomba, cuja capacidade varia entre 50, 100 e 200 litros.
5  Cooperativas
Diversas cooperativas estão cadastradas para receber o óleo usado e fazer a primeira etapa do beneficiamento. Consiste em uma filtragem para tirar os resíduos sólidos do material. O óleo é filtrado diversas vezes. Quando provém de residências, tem melhor qualidade do que quando vem de restaurantes.
Nota da IHU On-Line: Em São Leopoldo, RS, também existe uma cooperativa que recicla o óleo. Para saber mais, ligue para o IHU e fale com a Profa. Vera Regina Schmitz - 51-3590 84-73.
6  Nas empresas
O material é encaminhado a uma empresa que vai utilizá-lo para obtenção de outro produto. Primeiro, ele é novamente filtrado, depois é processado de forma a reduzir sua acidez e umidade. Isso porque a água oriunda dos alimentos produz alterações hidrolíticas - quebra ou mudança de uma substância pela ação da molécula de água.
7  Mil e uma utilidades
Entre os produtos que podem ser feitos a partir de óleo reciclado estão biodiesel, massa de vidro, sabão, graxas, lubrificantes, ração animal, tintas vernizes, fertilizantes, acendedores de churrasqueira (como o da foto ao lado) e massa asfáltica.
8  Biocombustível
Mais de 50% do óleo recolhido no Brasil vai para a produção de biodiesel. Só a Petrobrás Biocombustível fica com 10% de tudo o que se recicla. A fabricação de ração animal, massa de vidro e saponáceos aparece logo atrás, nesta ordem. Hoje o óleo é o maior poluidor de águas das regiões mais populosas do Brasil.
Para ler mais:

 

 

http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2010/10/06/61250-lama-vermelha-na-hungria-corre-para-o-rio-danubio-e-ameaca-causar-catastrofe-ecologica.html

 

Lama vermelha na Hungria corre para o rio Danúbio e ameaça causar catástrofe ecológica

Por clipping
Uma onda de lama vermelha tóxica que vazou de uma refinaria cobriu cidades na Hungria nesta terça-feira (5), matando ao menos quatro pessoas e ameaçando provocar uma catástrofe ecológica ao correr em direção ao rio Danúbio, um dos principais da Europa.
Na segunda-feira (4), um depósito de uma refinaria em Ajka (160 km a oeste de Budapeste) se rompeu por razões ainda desconhecidas, e cerca de 700 mil metros cúbicos de resíduos tóxicos foram espalhados pela região de Kolontar e outras duas vilas.
O vazamento carregou carros nas ruas, danificou casas e pontes, e levou cerca de 400 moradores a deixarem a região. Entre os quatro mortos está ao menos uma criança, de 3 anos. Seis pessoas estão desaparecidas e 120 ficaram feridas – duas em estado grave -, a maioria com queimaduras e irritação nos olhos causada por chumbo e outros elementos corrosivos presentes na lama vermelha. Muitos animais também morreram.
Este é o acidente químico mais grave da história da Hungria, afirmou o secretário de Estado do ministério do Meio Ambiente, Zoltan Illés, que visitou Kolontar, uma das cidades afetadas. “O vazamento de lama vermelha é uma catástrofe ecológica.”
O governo decretou estado de emergência em três Departamentos (Estados) –Veszprém, Gyor-Moson-Sopron e Vas. Testes mostraram que não há perigo de radiação na área atingida, disse o premiê húngaro em entrevista coletiva.
A lama vermelha é um resíduo do processo de transformação da bauxita em alumina, matéria-prima para a fabricação do alumínio. A produção de uma tonelada de alumínio gera quase três toneladas de lama vermelha.
“A substância espessa e altamente alcalina tem um efeito cáustico na pele. A lama contém metais pesados, como chumbo, e é levemente radioativa. Inalar sua poeira pode causa câncer de pulmão”, informa a Unidade de Desastres Naturais da Hungria em seu site. A unidade recomendou às pessoas limpar a lama com água para neutralizar a substância.
O incidente desta semana ameaça ultrapassar os estragos ambientais causados há dez anos, quando enormes quantidades de cianureto vazaram de um reservatório de uma mina de ouro, em uma cidade romena perto da fronteira com a Hungria, e caíram no rio Danúbio e em outros quatro rios menores, matando animais e plantas. A Romênia, a então Iugoslávia e a Ucrânia também foram afetados.
Culpados – O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, disse nesta terça-feira que o vazamento pode ter sido causado por falha humana, já que não há sinais de causas naturais.
“Não sabemos de nenhum sinal de indique que o desastre tenha causas naturais”, disse Orban. “E se um desastre não tem causas naturais, então pode ser considerado um desastre causado por pessoas. Suspeitamos que esse possa ser o caso.”
Segundo o premiê, a refinaria foi inspecionada duas semanas antes e nenhuma irregularidade foi encontrada.
Representantes de organizações industriais em Londres e nos EUA não souberam explicar como as vítimas na Hungria foram queimadas com o material, alegando que, se apropriadamente armazenado, ele não é perigoso.
É comum estocar o resíduo em tanques onde a água, aos poucos, evapora, deixando para trás um resíduo vermelho como terra, disseram autoridades. Porém, o ambientalista húngaro Gergely Simon disse que o resíduo envolvido no desastre estava se acumulando no reservatório por décadas e estava extremamente alcalino, com um pH em torno de 13 – quase o mesmo que a soda cáustica – e isso causou as queimaduras.
Como queimaduras químicas podem levar dias para aparecer, ferimentos aparentemente superficiais podem vir a ser letais conforme penetram em tecidos mais profundos da pele, explicou o médico Peter Jakabor, do hospital Gyor, à TV estatal.
A empresa MAL Rt, dona da refinaria de Ajka, disse que a lama vermelha não é considerada um resíduo perigoso segundo os padrões da União Europeia. A empresa também negou que deveria ter sido mais cautelosa com o reservatório.
Claramente irritado com o comentário da empresa, o ministro do Interior, Sandor Pinter, respondeu: “Eles deveriam nadar nele e então veriam.”
Desastre - Equipes de emergência vestindo máscaras e equipamentos de proteção se apressaram para jogar mil toneladas de argamassa no rio Marcal, numa tentativa de conter o mar de lama vermelha e evitar que ela chegue até o Danúbio, a cerca de 70 km.
No local, moradores desesperados tentavam salvar seus pertences protegendo-se no máximo com luvas de borracha.
O rio Danúbio passa por alguns dos lugares mais preservados do continente, desde sua nascente na Floresta Negra, na Alemanha, até desaguar no Mar Negro.
Agora de um verde turvo – não mais azul como imortalizado na valsa de Strauss – o rio passa por quatro ex-nações comunistas.
PERDAS
Em Kolontar, a cidade mais perto da refinaria, Erzsebet Veingartner estava na cozinha de casa quando a onda de 3,5 metros estourou, varrendo tudo em seu caminho.
“Eu olhei para fora e tudo que vi foi uma grande onda”, disse a viúva de 61 anos, observando os estragos em seu quintal.
“Perdi todas as minhas galinhas, meus patos, meu Rottweiler, e minha plantação de batatas. Todas as ferramentas e máquinas do meu falecido marido estavam no galpão e se foram”, lamentou a mulher, que sobrevive com uma pensão mensal de US$ 350. “Eu tenho lenha para um inverno inteiro no porão, e agora está tudo inutilizável.”
(Fonte: Folha.com)

 

 

mashttp://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=81267&edt=1

1

 

 

 

 

 

Luzes da África: as facetas positivas de um continente mal compreendido
Por Neuza Árbocz, especial para Envolverde

Experiência será relatada na Sport Adventure Fair, em São Paulo, dia 24/9 às 18h.

O que faz alguém subir num carro e rodar 40 mil km, atravessando um dos continentes mais temidos da Terra? Justamente a vontade de mostrar que essa região do planeta é, na verdade, repleta de belezas e gente talentosa e hospitaleira, com culturas admiráveis ainda desconhecidas, mesmo nesse mundo globalizado.

Esta foi a motivação que lançou o jornalista Haroldo Castro, premiado documentarista, em uma expedição de nove meses por 18 países africanos, onde se destacaram, além de uma natureza exuberante, comunidades fortes e bem organizadas, buscando superar as feridas deixadas por uma colonização voraz.

O noticiário internacional focado em conflitos locais e mazelas sofridas em pontos específicos fez da África um continente mal compreendido e visto de forma fragmentada. Antes de sua partida, o que Haroldo mais escutou é que sofreria assaltos, violência e correria risco de vida em sua viagem. Sem se impressionar, ele planejou com eficiência e entusiasmo a jornada que iniciaria pela África do Sul, subindo até o Sudão e retornando pelo lado oposto da ida.

A iniciativa batizada como “Luzes da África” ganhou um tom maior de emoção quando Mikael Castro, filho caçula de Haroldo, se dispôs a ser o companheiro para todo o trajeto. Formado em antropologia na Universidade George Washington, profissional de ecoturismo com quatro idiomas fluentes e boa desenvoltura com câmeras, recursos web e edição de vídeos, Mikael preencheu todos os requisitos de uma pequena concorrência para o posto, aberta no início dos preparativos.

Pai e filho iniciaram, assim, em novembro do ano passado, uma travessia que os marcaria para sempre. “O conceito de fazer uma viagem em busca da luz, do lado positivo da África, foi um dos principais elementos que fez da nossa viagem uma revelação profunda de sabedoria, criatividade e ternura”, comenta Mikael. “Vivemos muitos momentos que guardarei e compartilharei para o resto da minha vida”, completa o jovem, que, ao regressar, já se inscreveu para um Mestrado em Ecoturismo e Desenvolvimento Sustentável para propagar os benefícios que viagens conscientes podem gerar.

Viajar, uma escola dinâmica

Haroldo comenta que as “luzes” encontradas superaram em muito suas expectativas. “Quando você se dispõe a buscar as coisas boas, elas vêm ao seu encontro”. O jornalista é um grande defensor da viagem como uma escola dinâmica, “onde o conhecimento é acumulado através do contato direto com outros ambientes e outras culturas”, conforme explica em seu conceito de “Viajologia”.  Ele o criou em 1994 e, desde então, o vive na prática, já tendo visitado 156 países e territórios até o momento. "A riqueza do mundo externo impacta também a alma de quem viaja, promovendo profundas transformações internas", explica o viajólogo.

Sobre os imprevistos e riscos corridos, ele contrapõe: “Viajar aflora a consciência de que cada decisão tomada desenha uma nova jornada, com diferentes encontros e desencontros. Passamos a viver o presente com um entusiasmo crescente e a encarar os pequenos problemas apenas como enigmas do currículo da Faculdade de Viajologia". Seu filho concorda: “o convívio com meu pai foi tranquilo. Foram raros os momentos em que nos estressamos um com outro. E, muitas vezes, isso se resolvia comendo um bom sanduíche”, comenta rindo.  “Acho que uma viagem assim é uma boa maneira de estabelecer um bom relacionamento. Todo dia, tínhamos uma missão diferente, de chegar ao próximo lugar ou de filmar e fotografar. Isso nos dava o elemento comum, uma meta para nos unirmos e trabalharmos juntos”.

“Muitos pensaram que o mais difícil seria o final da jornada, que a gente não se aguentaria mais. Para mim o mais difícil foi no começo. Levou algumas semanas para entramos na dinâmica certa. Depois disso não tinha o que nos separasse”, confidencia. Sem saber desta declaração de Mikael – cada um foi entrevistado em momentos diferentes – Haroldo diz a mesma coisa: “pai e filho transformados em piloto e co-piloto, em colegas de trabalho, tornaram-se amigos inseparáveis”.

Estrada, poeira e gratidão


De fato, para esta boa camaradagem, foi essencial encontrarem o ritmo certo para ambos. Estar por vezes o dia todo atrás de um volante, em estradas esburacadas, sentindo o corpo sacolejar e se cobrir de fina poeira, enquanto a roupa gruda na pele de suor, pode ser um teste forte demais para o bom humor (e a amizade) de muita gente.

O fascínio das paisagens deslumbrantes e inesperadas, alternando grandes áreas selvagens com povoados e cidades barulhentas, modernas e cheias de gente, compensava. A sensação de ignorar o que vem pela frente aumenta a pulsação e deixa os sentidos em alerta: um vício prazeroso para um apaixonado pelo novo e pelo desconhecido como Haroldo Castro. Mikael parece ter herdado este gosto e logo desenvolveu o olhar fotográfico capaz de captar tanto as grandes imagens quanto os pequenos detalhes que podem fazer toda a diferença na passagem por um lugar. As imagens que a dupla captou encantam e surpreendem, mesmo experientes fotógrafos.

Pai e filho percorreram centenas de quilômetros onde a única companhia era a de animais selvagens. Mas, também tiveram encontros emocionantes, como o que relata Mikael: “Em Lalibela, na Etiópia, encontramos duas jovens, uma trançando o cabelo da outra. Percebemos que uma tinha um colar com a cruz cristã ortodoxa e outra tinha um colar com o símbolo muçulmano. Conversamos com elas sobre as diferenças das tradições religiosas. E uma respondeu ‘somos amigas de infância e sempre seremos amigas. Praticamos rituais e conceitos religiosos diferentes, mais Deus e Alah é tudo igual, só muda o nome’. Assim percebi que se mais gente no mundo tivesse essa simples sabedoria, poderíamos evitar muitas guerras”, concluiu Mikael, confirmando a tese de seu pai de que viajar constrói humildade, tolerância e pontes entre pessoas e povos, contribuindo para a paz mundial.

Durante os 201 dias de viagem, o carro, batizado de Nandi (“forte” em um dos idiomas do Quênia), superou milhares de quilômetros de estradas de terra, lama e pedra. Aconteceram apenas três ocorrências indesejadas: um pneu furado, um atolamento e uma roda presa em um buraco. Este último episódio causou um dos momentos tensos da viagem, já que anoitecia e estavam no meio de uma reserva. Mas não demorou um Maasai aparecer e se juntar aos esforços de tirar o carro daquela situação. De qualquer forma, um grupo de guerreiros Maasai  da pousada Il Ngwesi, onde ficariam hospedados, já estavam a postos para sair à procura dos dois, quando estes chegaram a aquele destino.

O apoio de amigos e simpatizantes ao projeto deu um colorido especial à expedição. Muitos agradeciam, comovidos, por estarem no continente com o propósito de mostrar o que ele tem de bom. Isto gerou um acolhimento hospitaleiro e uma animada solidariedade que acompanhou os Castros, em cada país por onde passaram.  A gratidão marcava tanto os dois viajantes quanto àqueles que eles conheciam em seu caminho, abençoado por um céu onde se revezavam pinturas em tons dourados, avermelhados e azuis de tirar o fôlego.

Cotidiano diversificado


Logo nas primeiras semanas a dupla se acostumou com o ritual de montar acampamento sempre antes do anoitecer e se alternarem na direção a cada 60 minutos, antes do cansaço pegar o piloto da vez. A cada troca, bebiam um copo d'água, regra que os manteve longe da desidratação, risco comum em temperaturas em torno de 40 graus.

Haroldo e Mikael apaixonaram-se pela Namíbia e principalmente seu extenso deserto de dunas vermelhas - algumas de até 350 metros de altura. Também visitaram as comunidades Himba, que ainda conservam seus hábitos nômades, assim como as Terras Comunitárias para Conservação, geradoras de renda e preservação. Essa iniciativa, apoiada pela WWF-Namíbia, aliou comunidades, governo e operadoras de turismo. As terras pertencem a quem nelas habita e estes recebem benefícios por acolher os visitantes. Um bom exemplo dos resultados é a recuperação do ameaçado rinoceronte negro na região, onde sua população quadruplicou nas últimas duas décadas.

Seguiram a viagem equilibrando dias de exploração e muita estrada, com entrevistas, fotos e filmagens constantes, com dias para descanso, edição de imagens e redação. Em nenhum momento, a jornada foi homogênea. Passaram longas semanas de descobertas no Quênia (39 dias), na Tanzânia (um mês), na Namíbia (23 dias) e na Etiópia (23 dias). Também realizaram visitas curtas a algumas nações menores, como Lesoto, Suazilândia e Burundi. No país de partida e chegada, a África do Sul, ziguezaguearam de ponta a ponta, por mais de 6.000 km.
Pernoitaram 89 vezes na barraca montada em cima do teto do carro, 51 vezes em pousadas de luxo como convidados, 38 na casa de amigos e 23 em hoteizinhos bem econômicos. Das pousadas,  Nuarro, ao norte de Nacala, em Moçambique, foi uma das preferidas. Lá foram acolhidos pela brasileira Laura Carneiro e seu parceiro inglês Steve Hodges, em um verdadeiro paraíso para mergulhadores, construído de forma a gerar o menor impacto possível e com muito diálogo e integração com o povo local macua.

Durante a jornada, todo apoio que receberam permitiu que realizassem a expedição com um gasto médio diário de 90 dólares para os dois. Menos de 80 reais para cada um, por dia, incluindo vistos, diesel, comida e manutenção da Nandi. “Muito mais barato do que esperávamos”, surpreendeu-se Haroldo, que fez a viagem com recursos próprios.

Melhores momentos

Como pontos altos desta jornada, pai e filho listam:

SUDÃO:  conhecer as pirâmides e os templos da cultura faraônica do norte do país, às margens do grandioso Nilo. Neste país, Mikael também se surpreendeu com o ritual dos sufis.  “Senti-me em uma gira de umbanda ou candomblé. Não foi tanto pelas roupas ou cantos, mas pela energia. Todos em uma roda, com tambores, cantando e dançando para entrar em uma conexão mais profunda com Alá, quando alcançam um transe profundo e giram sem parar. Perguntei-me "será que acabaram de incorporar um caboclo ou será que quando eu incorporo caboclo estou no fundo entrando em transe com a luz de Alá?"

ETIÓPIA:
passar a Páscoa nas igrejas escavadas na pedra, em Lalibela, e compreender os rituais da igreja ortodoxa etíope.

UGANDA e RUANDA:
caminhar na mata para encontrar um grupo de gorilas de montanha e passar uma hora a sete metros de distância dos animais.

TANZÂNIA: visitar os belíssimos parques Serengueti, Ngorogoro, Selous e Ruaha e assistir a cena raríssima de uma impala perdida ser devorada por sete leões famintos.

Os momentos mais difíceis foram um furto de uma câmera na Zâmbia e uma malária, contraída por Haroldo, em Uganda. O atendimento e tratamento ocorreram em Ruanda e, graças ao medicamento Coartem, à base de artemisinina da planta Artemísia, ele se curou em quatro dias. O tratamento custou menos de um dólar.

Mas nada disto tocou tão fundo o coração dos viajantes quanto o momento de desmontar todos os acessórios da valente Nandi. “Só ficou a poeira fina das estradas africanas... Já tiramos a barraca do teto, a geladeira e os 8 caixotes que guardavam nossas coisas: cozinha, equipamentos, artesanato, farmácia, peças para a Nandi e todas as tralhas. O que demorou 6 semanas para construir foi desmontado em 6 horas... A expedição acabou mesmo...”, escreveu Haroldo ao relatar este momento a um amigo. A maior saudade que ficou para ele? “A estrada”, diz sem hesitação alguma.

A viagem gerou mais de 77 mil fotos e dezenas de horas de filmagens. Uma pequena parcela de todo esse material pode ser lido nas crônicas do blog Viajologia (http://colunas.epoca.globo.com/viajologia/2010/03/31/projeto-il-ngwesi-uma-segunda-vaca-para-a-comunidade-maasai/) e no site Lights of Africa (em inglês http://www.lightsofafrica.com/) e Haroldo promete que vai deixar de viajar para poder escrever um livro.

Confira as matérias especiais publicadas na revista Época nos links:

Namíbia, um deserto com consciência verde (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI125534-15227-1,00-NAMIBIA+UM+DESERTO+COM+CONSCIENCIA+VERDE.html) – 15 de março de 2010

O melhor da natureza africana (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI135181-15228,00-O+MELHOR+DA+NATUREZA+AFRICANA.html) – 23 de abril de 2010

A fé no meio das pedras  (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI138721-15227,00-A+FE+NO+MEIO+DAS+PEDRAS.html) – 8 de maio de 2010

Existe um Sudão de Paz (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI143844-15227,00-EXISTE+UM+SUDAO+DA+PAZ.html) – 27 de maio de 2010

A face oculta de Uganda (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI148688-17820,00.html) – 18 de junho de 2010

Aqui os vídeos do Canal Futura:

5 de maio de 2010 - Tesouros preciosos de Cabo da Boa Esperança
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/0/uTbDGdSvPjo

12 de maio de 2010 - Como a cooperação entre países africanos preserva o meio-ambiente
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/1/8JHnoWwud4U

19 de maio de 2010 - Costa do Esqueleto, Dunas e Etosha, na Namíbia
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/0/HD44SL43pIk

26 de maio de 2010 - As vantagens do turismo sustentável na Namíbia
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/3/9Y31XZxAMS4

02 de junho de 2010 - Contrastes geográficos do sul da Angola
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/4/Q1wu6JNZ9Kw

09 de junho de 2010 - Os rios que cortam países como Namíbia e Zâmbia
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/5/Iz52WVss_Yc

16 de junho de 2010 - Temperos e sabores da Tanzânia
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/6/zqrCBojLOv4


23 de junho de 2010 – A cultura Massai, do Quênia
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/7/8kilzxUTKSY

30 de junho de 2010 - Igrejas e os monastérios da Etiópia
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/8/8qQayYcN0-k

07 de julho de 2010 – Descobrindo o norte do Sudão
http://www.youtube.com/user/canalfutura?gl=US&hl=en#p/search/2/XGABwdVPnNA

FOTO
Legenda:
Pai e filho no Cabo da Boa Esperança


(Agência Envolverde)

 

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=81354&edt=1

2

 

O inimigo dentro de nós

Por Vilmar Berna*, do Portal do Meio Ambiente

Ser, em vez de ter, tem sido apontado por alguns como uma das saídas para a crise ambiental. Trata-se de uma preocupação legítima, pois o Planeta tem recursos finitos. Entretanto, não temos como fazer tal escolha, pois somos matéria e espírito, ao mesmo tempo, cada qual com suas necessidades. Quando orientamos nossas escolhas para TER em vez de SER, também o fazemos por razões espirituais, no caso, a de querermos ser reconhecidos, importantes, poderosos, por exemplo. Existem limites para nossas necessidades materiais. Ninguém consegue comer além dos limites do próprio estômago. Mas não há limites para a ganância, a ambição humana, a insensibilidade com o outro, sentimentos que dizem respeito ao nosso espírito.  O mundo em que vivemos tem divulgado a idéia da posse de bens materiais e de riquezas como um indicador de sucesso e felicidade. Para o Planeta, o problema de um sistema assim é que a base de recursos naturais é finita, e a ganância por mais recursos, infinita. Para alguns, nenhum sucesso financeiro ou poder parece bastante!

O mundo em que vivemos não é constituído apenas do que conseguimos ver e tocar, mas também das idéias que fazemos deste mundo. Por isso o mundo para um muçulmano é diferente do mundo para um cristão, ou para um ateu, ou budista, etc. A idéia que fazemos do mundo não é uma idéia nossa, mas foi sendo construída por nós, desde a infância, a partir da família, da escola, dos meios de comunicação, da sociedade e cultura em que vivemos. Entretanto, não temos que ser o resultado dessas influências, pois temos a possibilidade de pensar, de repensar, de escolher.

Como não será possível atender a todos, para que uns poucos possam ter acesso aos recursos naturais de todos, alguém terá de ceder a sua parte, consciente ou inconscientemente, por bem ou por mal. Na paz, através de mecanismos de mercado onde uns aceitam vender barato suas riquezas naturais e outros concordam em vender caro os produtos beneficiados fabricados com essas riquezas. Ou na guerra, quando países poderosos, mas dependentes de recursos inventam um pretexto qualquer, inclusive estimulando a intolerância religiosa, ou mentindo descaradamente, para se apropriarem do controle sobre recursos naturais estratégicos, como vimos recentemente na guerra entre EUA e Iraque em relação ao petróleo.

Nossa atual idéia de mundo associa lucro material (ter) a sucesso (ser), e a posse de bens materiais e dinheiro (ter) como o passaporte para a felicidade (ser), estimulando uma corrida de saque sobre os recursos do planeta. Quanto mais alguém possuir, dominar, controlar recursos naturais, mais bem sucedido será considerado. A existência de fracassados, de perdedores, de pobres, de excluídos não é um indicador, para os defensores de tal idéia de que exista algo errado com ela. Argumentam que a existência de pobres e excluídos não é algum indicador de problemas com o sistema, mas por que não gostam de trabalhar, de estudar, não tem coragem suficiente para empreender e correr riscos. E para reforçar tais idéias, divulgam histórias de empresários bem sucedidos que começaram pobres.

Trata-se de uma luta de conquista por recursos como no passado, só que agora os opressores, adeptos dos lucros crescentes e ilimitados, não usam mais chicotes, correntes ou escravos, mas idéias.  São beneficiados pelo  analfabetismo funcional em que pessoas que sabem ler e escrever, têm dificuldades para compreender as idéias num texto. Contam ainda com o crédito fácil a perder de vista, onde as pessoas se deixam escravizar em suaves prestações que a tornam obrigadas a trabalhar incansavelmente pela vida toda a fim de pagar as contas. E quando terminam de pagar por algum bem este já foi planejadamente tornado obsoleto e precisa ser substituído, numa ciranda permanente e crescente de produção que requer o uso intensivo de recursos naturais numa ponta e consumo e desperdício na outra, gerando esgotamento de recursos naturais, perdas de ecossistemas e montanhas crescentes de lixo.

Ao ser divulgada a idéia de uma sociedade onde ter é sinônimo de ser feliz e bem sucedido - onde se vende a idéia de que um mundo melhor é possível, desde que você tenha o dinheiro para ter acesso a ele - por que alguém iria querer se libertar?! Se libertar da idéia de ser feliz, de ser bem sucedido? Não parece fazer sentido para a maioria, principalmente quando o consumo numa ponta é o que gera os empregos na outra!

Numa era de comunicação globalizada e quase instantânea, talvez nossos problemas estejam na falta de reflexão sobre nossas idéias de mundo que, pelo fato de serem repetidas por milhões de pessoas, desde que as sociedades humanas começaram a se organizar, ou divulgadas exaustivamente, não se tornam verdadeiras.

Cada vez se torna mais difícil combater um inimigo que está dentro de nós e por isso mesmo pensar pode doer, pois significa ter de rever e rejeitar idéias que temos do mundo como nos fizeram acreditar, um mundo no qual todos à nossa volta acreditam sem questionar. E já que para a maioria a idéia de mundo é a idéia de um mundo criado por Deus, então não há como pensar o mundo sem pensar também na idéia de Deus! Não falo de Deus, por que não entendo, mas falo da idéia que fazemos dele, de um Deus que tudo sabe e que tudo vê, logo, também vê as injustiças, as desigualdades, as perversidades e, se quer ou permite que as coisas sejam assim pensar sobre uma nova idéia de mundo pode incomodar e até doer, pois significa ter de encarar o fato de que talvez Deus tenha nos abandonado, tenha escolhido ficar do lado dos ditadores e torturadores sanguinários, dos exploradores e poderosos, usando-os como pragas modernas para nos testar e mesmo para nos punir pelos ‘pecados’ de tratar a sua Criação da forma como tratamos!

Pretender reconstruir nossa idéia de mundo pode ser pretensioso demais. Entretanto, o mínimo que posso fazer é tentar pensar, livremente, defender-me de verdades que me parecem mentiras. E nada disso é fácil. Fácil é alienar-se ou manter-se alienado, deixar a vida nos levar, não tentar resistir! Creio que este é o meu papel social, contribuir, em minha esfera de influência, a combater o analfabetismo funcional estimulando nas pessoas o gosto e o acesso à leitura, a combater a verdade única, a democratizar a informação socioambiental, a dar voz e vez aos que pensam e escrevem.

O fato de não saber exatamente qual é este mundo melhor, não significa que não imagine que é possível muito menos que não seja capaz de recusar o que já sei que não é. Preciso enfrentar o desafio de construí-lo, junto com parceiros e parceiras, no próprio ato de caminhar, que pressupõe a ação e reflexão sobre cada passo dado a fim de não trocarmos de ditaduras ou de ilusões apenas.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente ( www.portaldomeioambiente.org.br  ).Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – www.escritorvilmarberna.com.br

(Envolverde/Portal do Meio Ambiente)

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=82110&edt=1

Recursos naturais diminuem em ritmo alarmante
Por Redação WWF-Brasil
6

 

 

As últimas análises demonstram que as populações de espécies tropicais estão em queda livre e a demanda humana por recursos naturais sobe vertiginosamente e chega a 50% a mais do que o planeta pode suportar.  Isto é o que revela a edição de 2010 do Relatório do Planeta Vivo, da Rede WWF, publicação que apresenta a principal pesquisa sobre a saúde do planeta.

O relatório bianual da Rede WWF, produzido em colaboração com a Sociedade Zoológica de Londres e a Global Footprint Network, utiliza o Índice do Planeta Vivo para medir a saúde de quase 8 mil populações de mais de 2.500 espécies.  Esse índice mundial demonstra uma redução de 30% desde 1970.  O declínio é mais acentuado nas regiões tropicais, onde se verifica uma queda de 60% em menos de 40 anos.

“É alarmante o ritmo da perda de biodiversidade que se verifica nos países de baixa renda, em sua maioria situados  nos trópicos, enquanto o mundo desenvolvido vive num falso paraíso, alimentado pelo consumo excessivo e elevadas emissões de carbono”, declarou Jim Leape, diretor geral da Rede WWF.

O Relatório mostra que, em algumas áreas temperadas, houve uma recuperação promissora de populações de espécies -- graças, em parte, ao aumento dos esforços de conservação da natureza e a um melhor controle da poluição e do lixo.  No entanto, nas áreas tropicais, houve uma queda de quase 70% nas populações aquáticas (água doce) que foram rastreadas – esse percentual corresponde ao maior declínio já mensurado em quaisquer espécies, em áreas terrestres ou nos oceanos.

“As espécies são a base dos ecossistemas”, afirmou Jonathan Baillie, diretor do Programa de Conservação da Sociedade Zoológica de Londres.  “Ecossistemas saudáveis constituem as fundações de tudo o que nós temos – se perdemos isso, destruímos o sistema do qual depende a vida”, completou Baillie.

A Pegada Ecológica -- um dos indicadores utilizados no Relatório -- demonstra que a nossa demanda por recursos naturais duplicou desde 1966 e que utilizamos o equivalente a um planeta e meio para sustentar nossas atividades.  Se continuarmos a viver além da capacidade do planeta, até 2030 precisaremos de uma capacidade produtiva equivalente a dois planetas para satisfazer os níveis anuais da nossa demanda.

"O Relatório demonstra que, se as tendências atuais de consumo forem mantidas, chegaremos a um ponto sem retorno,” acrescentou Leape.  A conclusão é de que “seriam necessários quatro planetas e meio (4,5) para atender a uma população mundial num estilo de vida equiparável ao de quem vive hoje nos Emirados Árabes Unidos ou nos Estados Unidos."

O carbono é o principal culpado por levar o planeta a usar uma espécie de “cheque sem fundos” ecológico.  Nossa pegada de carbono aumentou de forma assustadora e nesses últimos 50 anos multiplicou-se por onze. Isso significa que hoje o carbono é responsável por mais da metade da Pegada Ecológica mundial.

Os dez países com a maior Pegada Ecológica per capita são: Emirados Árabes Unidos, Catar, Dinamarca, Bélgica, Estados Unidos, Estônia, Canadá, Austrália, Kuwait e Irlanda.  O Brasil ocupa a 56º posição neste ranking.

Os 32 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre os quais se incluem as mais ricas economias mundiais, são responsáveis por quase 40% da Pegada mundial.  Os países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – têm o dobro dos habitantes dos países da OCDE e, segundo o Relatório, sua Pegada per capita atual segue na mesma trajetória da OCDE; se for mantido esse modelo de desenvolvimento, o BRIC irá ultrapassar o índice per capita da Pegada da OCDE.

"Países que mantêm um nível elevado de dependência dos recursos (naturais) colocam em risco sua própria economia”, alertou Mathis Wackernagel, presidente da Global Footprint Network. “Os países que conseguem proporcionar um nível mais elevado de qualidade de vida com a menor demanda ecológica atenderão o interesse mundial e, mais do que isso, vão se tornar os líderes de um mundo com recursos limitados”, completou Wackernagel.

O Relatório mostra novas análises que comprovam que o declínio mais agudo da biodiversidade ocorre em países de baixa renda.  Em menos de 40 anos, esses países sofreram uma queda de 60% em sua biodiversidade.

A maior Pegada é a dos países de alta renda. Em média, a Pegada desses países é cinco vezes maior do que a dos países de baixa renda.  Isso sugere que o consumo em nível não-sustentável das nações mais ricas está baseado, em grande parte, no esgotamento dos recursos naturais das nações mais pobres; e que, muitas vezes, essas nações mais pobres são também as mais ricas em recursos naturais e estão situadas em regiões tropicais.

O Relatório do Planeta Vivo (RPV) mostra, também, que uma grande Pegada e um elevado nível de consumo – muitas vezes mantido às custas dos outros – não se refletem num nível elevado de desenvolvimento.  O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas -- baseado na expectativa de vida, renda e nível de instrução – pode ser alto em países com uma Pegada média. 

O RPV aponta as soluções necessárias para garantir que o planeta possa aguentar a população mundial que, segundo projeções, será de mais de nove bilhões de pessoas em 2050.  Entre as questões críticas a serem abordadas para reduzir a Pegada incluem-se a dieta e o consumo energético, assim como maiores esforços para valorizar e investir em nosso capital natural.

“O desafio colocado pelo Relatório do Planeta Vivo é bem claro”, disse Leape.  “Precisamos, de alguma maneira, encontrar uma forma de satisfazer as necessidades de uma população crescente e cada vez mais próspera e, ao mesmo tempo, nos manter dentro dos limites dos recursos deste planeta, que é um só. Precisamos, todos nós, encontrar uma maneira de fazer melhores escolhas em nosso consumo e em nossa forma de produção e uso de energia", concluiu.

Desafio do Brasil é crescer sem destruir

O Brasil possui uma alta biocapacidade, mas isso não nos coloca em uma situação confortável.  As mudanças nos hábitos de consumo da população brasileira e a demanda crescente por produtos agrícolas têm pressionado os recursos naturais, aumentado a Pegada Ecológica do país. Hoje, a média de consumo da população brasileira já chega a 2,1 hectares por pessoa e a soma do consumo de todas as pessoas mostra que no Brasil já estamos consumindo mais de um planeta.

Esse modelo é insustentável e preocupante. “A redução da desigualdade com aumento do poder aquisitivo da população brasileira é uma conquista positiva. No entanto, também nos coloca frente a um grande desafio que é o de crescer sem esgotar nossos recursos naturais”, destaca a Secretária-Geral do  WWF-Brasil, Denise Hamú.

As riquezas naturais são parte dos ativos necessários ao crescimento econômico que estamos presenciando, mas deve existir sempre um equilíbrio entre o que é consumido e o que a natureza pode prover.  Para Hamú, esta é a principal mensagem do Relatório Planeta Vivo 2010.“O estudo é uma ferramenta importante para os tomadores de decisão estimularem uma economia de baixo carbono, uma economia verde, criando novas oportunidades de crescimento para o País e protegendo os serviços ecossistêmicos que são a base de nosso desenvolvimento econômico”, afirma.

O Relatório traz indicadores que apontam  o quanto está sendo consumido - a pegada ecológica e a pegada hidrológica - e o quanto o planeta pode prover em recursos naturais renováveis - a biocapacidade.  “O desafio será manter esses fatores balanceados para que possamos garantir um desenvolvimento sustentável no Planeta”, diz o coordenador do Programa Pantanal do WWF-Brasil, Michael Becker.

Segundo ele, para que haja esse equilíbrio, além de políticas de proteção de áreas importantes para as espécies, é importante valorizar produtos sustentáveis e certificados e aperfeiçoar mecanismos de monitoramento que possibilitem a redução de impactos, como o cálculo da Pegada Ecológica pelas cidades.

Versão brasileira
A versão em português do Relatório Planeta Vivo 2010 está disponível no endereço http://www.wwf.org.br/informacoes/bliblioteca/?26162/Relatrio-Planeta-Vivo-2010. Esta é a primeira vez que o relatório é traduzido integralmente para este idioma.

(Envolverde/WWF-Brasil)

 

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36794

 

6

 

 

O que falta ao Brasil? Kumi Naidoo, diretor-geral do Greenpeace, responde
Um modelo de desenvolvimento "verde" pode ser o caminho para o Brasil se estabelecer como uma “superpotência” mundial e um exemplo a ser seguido, na avaliação do diretor-geral da organização ambiental Greenpeace International, Kumi Naidoo.
A reportagem é de Rogerio Wassermann da BBC Brasil, 29-09-2010.
Naidoo, que se tornou conhecido como ativista contra o apartheid em seu país natal, a África do Sul, dirige o Greenpeace desde novembro do ano passado. Ele é uma das personalidades ouvidas pela BBC Brasil como parte da série de reportagens "O que falta ao Brasil?", que discute os desafios do Brasil para se tornar um país desenvolvido.
“O Brasil está bem no caminho da transição entre uma economia ‘emergente’ e uma economia ‘industrializada’. Se eu pudesse dar apenas um conselho para o próximo presidente do país seria isso: Não baseie seu crescimento em modelos que não serviram bem ao mundo”, diz Naidoo. “Considerando a crise do aquecimento global, apenas os países que incluírem a preocupação ambiental em seus planos de desenvolvimento econômico, tecnológico e social terão sucesso como líderes do futuro”, afirma o ativista.
Mudanças climáticas
Para ele, o Brasil hoje está “à beira de se tornar uma superpotência”, mas pode cair para qualquer lado no que se refere a ser um modelo “verde” para o resto do mundo. “Nas décadas passadas, as superpotências eram estabelecidas por corridas por acumulação de armas e pelas viagens espaciais. Dado o perigo que o planeta enfrenta hoje como resultado das mudanças climáticas, a corrida hoje somente pode ser ‘verde’”, afirma Naidoo.
Para ele, “ao resistir os estímulos a emular modelos econômicos que provocaram a atual crise ambiental, o Brasil pode provar ao mundo que um novo caminho de desenvolvimento é possível - um com os melhores interesses de seus próprios cidadãos e do resto do planeta em mente”. “O mundo precisa de um Brasil verde”, afirma.
Naidoo disse ter se reunido com os três principais candidatos à Presidência do Brasil e ter ficado impressionado com o interesse aparente deles na proteção ambiental.
O diretor do Greenpeace se disse desapontado, porém, pelo fato de que as questões ambientais importantes, incluindo as discussões sobre o novo código florestal e de infraestrutura urbana, quase não foram tocadas durante a campanha presidencial.
Segundo ele, o Brasil até agora conseguiu manter um “incrível crescimento econômico” sem destruir muito seus recursos ambientais, na comparação com a Europa ou os Estados Unidos. “Seu território, apesar de pouco menor que o dos Estados Unidos, engloba seis biomas, 62% dos quais ainda cobertos de matas nativas. Vocês têm quase 8% dos recursos mundiais de água doce, e seus rios têm mais espécies de peixes do que todos os rios da Europa juntos. Seu país é o único no mundo com o potencial de conservar a biodiversidade em uma escala continental”, observa.
Segundo ele, o fato de que a matriz energética brasileira é composta em 80% por fontes renováveis pode servir de exemplo para o mundo de que é possível garantir um bom padrão de vida à população sem recorrer ao uso de combustíveis fósseis.
Como comparação, a China tem mais de 90% de sua matriz energética baseada em combustíveis fósseis (carvão, petróleo ou gás natural), apesar de ter construído a maior usina hidrelétrica do mundo, Três Gargantas, que superou em tamanho a usina de Itaipu, compartilhada por Brasil e Paraguai.
Naidoo se diz desapontado, porém, pelo fato de o Brasil “já ter começado a mostrar sinais perigosos de uma inclinação a colocar a produção de commodities acima da proteção ambiental e do respeito aos seus cidadãos”.
Ele critica o fato de, apesar de a matriz energética brasileira ainda ser prioritariamente limpa, a maior parte vem de grandes usinas hidrelétricas, cujas represas provocam um impacto social e ambiental grande. “O Brasil hoje deveria expandir o uso da tecnologia de pequenas hidrelétricas sem grandes projetos como Belo Monte”, afirma.
Para Naidoo, outro campo para preocupação é o cuidado com as florestas. “A Mata Atlântica, segunda maior floresta brasileira após a Amazônica, praticamente desapareceu como resultado de desmatamento sem controle. Quase 20% da Amazônia consiste hoje de pasto ou terras degradadas. Quase metade do Cerrado, cerca de 45 milhões de hectares, foram convertidos para o uso agrícola em menos de 20 anos”, cita o diretor do Greenpeace.
“Os biomas remanescentes no Brasil são raramente monitorados e, de uma maneira geral, o controle das florestas em todo o país ainda é extremamente fraco. Em 2008, os satélites do governo registraram quase 3 milhões de hectares de novas florestas degradadas na região”, comenta. “Hoje 80% da população brasileira vive em centros urbanos, onde um número assustador de 35 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso a sistemas de esgoto”, complementa.
Para ler mais:
O ativista e os candidatos

 

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36903

 

''Gaia sagrada'': as relações entre ecologia, feminismo e cristianismo. Entrevista especial com Anne Primavesi

6
A hipótese Gaia, ou a Teoria de Gaia, propõe que a biosfera e as demais esferas físicas da Terra estão intimamente integradas de modo a formar um complexo sistema interagente estável. Na visão da teóloga inglesa Anne Primavesi, a partir de seus estudos conjuntos com o autor da Teoria de Gaia, James Lovelock, Gaia (ou Mãe Terra, Pachamama etc.) é sagrada, assim como suas inter-relações, que moldam aquilo que somos.
“Uma valorização gaiana da criação vê as coisas como elas realmente são, como todos os seres vivos dependem uns dos outros tanto no tocante à possibilidade da vida quanto à sua qualidade”, afirma Primavesi. Por isso, na teologia coevolutiva, cada organismo é valorizado pelo que é em si mesmo.
Porém, a partir de uma perspectiva ecofeminista, a teóloga reconhece que “as mulheres e a natureza têm sido tradicionalmente rebaixadas e ignoradas numa concepção hierárquica do mundo”. A partir dessa concepção, “todos os seres não humanos podem ser usados e abusados para esse fim”, afirma ela, em entrevista gentilmente concedida por e-mail à IHU On-Line, em um delicado período de recuperação pós-operatório.

“Nós agora temos de lidar com os efeitos do patriarcado e da desvalorização religiosa dos ‘corpos’ não só sobre as mulheres, crianças e povos indígenas, mas também sobre o corpo da Terra”. Isso exige uma “mudança no clima religioso”, defende. Nesse sentido, como resposta a uma das perguntas desta entrevista, Primavesi enviou à IHU On-Line, com exclusividade, seu “Manifesto pelo Ecofeminismo”, que aqui publicamos pela primeira vez em português. A tradução é de Luís Marcos Sander.
Anne Primavesi é teóloga inglesa, doutora em teologia sistemática, especializada em questões ecológicas. Membro do Centro de Estudos Interdisciplinares da Religião, do Birkbeck College, University of London, já lecionou na Bristol University. É autora de vários livros, incluindo Sacred Gaia (2000), Gaia's Gift: Earth, Ourselves and God after Copernicus (2003) e Gaia and Climate Change: a Theology of Gift Events (2009). Em português, publicou Do Apocalipse ao Gênesis: Ecologia, Feminismo e Cristianismo (Paulinas, 1996). Após conhecer o cientista James Lovelock, criador da Teoria de Gaia, Primavesi colaborou com ele no primeiro curso do Schumacher College sobre a Teoria de Gaia, em 1991.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Em seu livro Sacred Gaia (sem tradução para o português), a senhora discute a teologia a partir de uma perspectiva coevolutiva. A que se refere?
Anne Primavesi – A teologia tradicional classifica tudo numa hierarquia de importância, sendo que a parte superior dela está mais próxima de Deus, e a inferior, mais distante. Uma perspectiva coevolutiva surge de uma compreensão mais profunda e de uma valorização da forma como todos os seres vivos vêm a existir e mantêm sua existência através de uma interligação e interdependência ineludível.
 Na teologia coevolutiva:
• cada organismo é valorizado pelo que é em si mesmo;
• o valor de cada organismo “importa” em relação ao todo;
• cada entidade é um ser singular e, por conseguinte, essencialmente inclassificável em graus;
• o valor intrínseco de cada uma se baseia na gratuidade do amor de Deus por ela;
• cada uma está presente e vívida na memória de Deus;
• o valor das criaturas não humanas não reside na forma como contribuem para a qualidade da vida humana; cada uma tem direito à sua própria qualidade de vida;
Como diz o poema, “eu pedi que a árvore me falasse sobre Deus, e ela floresceu”.
IHU On-Line – Ao analisar a relação entre as mulheres e a ecologia, a senhora apresenta as ideias de uma ordem hierárquica e de uma ordem “Gaiana”. Qual é a contribuição do feminino para o cuidado da Criação?
Anne Primavesi – Ao longo das últimas décadas, as ecofeministas expressaram claramente como as mulheres e a natureza têm sido tradicionalmente associadas ao serem rebaixadas e ignoradas numa concepção hierárquica do mundo.
Nessa concepção, os homens estão sujeitos a Deus, as mulheres sujeitas aos homens, os animais sujeitos a ambos, e a própria terra é, simplesmente, o lugar onde nós, seres humanos, realizamos nossa salvação e esperamos o céu. Numa concepção hierárquica, todos os seres não humanos podem ser usados e abusados para esse fim. Esse ordenamento hierárquico valida, conscientemente ou não, relações violentas.
Uma valorização gaiana da criação vê as coisas como elas realmente são, como todos os seres vivos dependem uns dos outros tanto no tocante à possibilidade da vida quanto à sua qualidade. Rotineiramente, talvez não estejamos conscientes do presentear essencial por parte dos muitos seres que possibilitam que nós tenhamos vida. Mas uma consciência mais profunda desse presentear nos refreará para não cometermos excessos de egoísmo e violência que prejudicam a terra, que é o lar de todos os seres vivos.
IHU On-Line – Qual é o impacto das mudanças climáticas sobre a fé e a prática das nossas igrejas hoje? Qual é o papel dos cristãos nesse contexto específico?
Anne Primavesi – A ciência que forma nossa compreensão da mudança climática mostra quão profundamente a humanidade afetou o equilíbrio da vida na terra. Além da perda da biodiversidade, ela adverte que a sobrevivência da própria humanidade corre risco. Isso desafia o pensamento e a prática das igrejas.
Em termos de pensamento, temos de aprender a:
• nos ver e expressar como parte de toda a comunidade da vida na terra;
• ver e tratar a terra como um lar;
• aprender e demonstrar compaixão e respeito por todas as criaturas;
• em encontros litúrgicos, responder com um agradecimento formal, gratidão e respeito pelas dádivas que nos são dadas por todos os seres vivos e tornam possível nossa vida.
Em termos de prática, temos de aprender a:
• descobrir e responder ao valor intrínseco de toda a Criação;
• resistir ao imperialismo, consumismo, colonialismo e violência em nosso pensamento;
• aprender a humildade ecológica, um reconhecimento de nossa dependência do trabalho das muitas criaturas não humanas que mantêm limpo o ar, potável a água e nos fornecem os alimentos que comemos.
IHU On-Line – Em sua opinião, por trás da crise climática, há também uma crise ética e espiritual? Perdemos a nossa capacidade de conviver com os demais seres vivos da Criação?
Anne Primavesi – Não podemos separar o espiritual do ético, ou o social do ecológico. Só podemos fazer essas separações na linguagem, não na realidade. Como pessoa, eu ajo a partir da totalidade de meu ser. As tarefas são as seguintes:
• falar sobre nós mesmas de maneiras que não pressuponham que essa espécie de separação linguística descreva as coisas assim como elas são;
• mediar entre as ideias e a ação, o abstrato e o real.
Por exemplo, quando comemos, não deveríamos simplesmente abençoar a comida. Deveríamos reconhecer que a comida abençoa a nós e responder dando graças por isso. Antes de agradecer a Deus pela comida, deveríamos identificar e estar conscientes daqueles e daquelas cujo trabalho e cuja vida tornam possível que comamos agora e agradecer a eles e elas. E isso não apenas em palavras, mas na forma como vivemos, esperando que eles e elas tenham espaço para vicejar e não os/as considerando simplesmente meios para nossos próprios fins humanos.
IHU On-Line – O “Tempo para a Criação” de 2010 está relacionado com a campanha 10:10:10, que será o dia com o maior número de ações positivas contra as ações climáticas. A partir de que motivações teológicas ou bíblicas essa relação entre fé e ecologia pode crescer ainda mais?
Anne Primavesi – Essas coisas devem ser descobertas e expressas por cada pessoa e cada comunidade. Espero ter notícias das formas de fazer isso que vocês venham a criar durante esse período! O que vocês nos disserem sobre o que encontraram será o presente que darão a todas e todos nós.
Penso que o Manifesto pelo Ecofeminismo (1)  poderá ajudar nesse sentido.
Ecofeminismo
Definição
O termo “ecofeminismo” foi cunhado pela autora francesa Françoise d’Eaubonne e apresentado em seu livro Le féminisme ou la mort, publicado em 1974. Ela o usou para designar um tipo específico de movimento ecológico em que a consciência da opressão das mulheres é a principal força motriz.
Características
a) O discurso ecofeminista reúne visões feministas e política ecológica, com base na percepção de que há ligações entre a dominação de pessoas e a dominação da natureza não humana. Ele toma a crítica feminista das relações humanas e a coloca lado a lado com uma análise das relações entre seres humanos e não humanos.
b) As ecofeministas usam uma perspectiva ecológica para apontar em direção à ausência de hierarquia na Natureza e contrapor isto à presunção cultural, comumente aceita, de que uma espécie, a humana, tem o direito de dominar todas as outras.
c) O fato é que nós, seres humanos, não temos condições de viver à parte do resto da Natureza. Cada um de nós está internamente relacionado com todos os aspectos de nosso meio ambiente, e essa relação faz parte do que somos. Inspirando o ar, nós recebemos. Expirando-o, devolvemos. As ciências naturais nos deram informações sobre o meio ambiente global mais amplo: sobre a camada de ozônio, a chuva ácida, o desmatamento e a desertificação e as emissões de dióxido de carbono na atmosfera. Essas informações mostram não só que a Natureza poderia viver inteiramente feliz sem nós, e de fato seria muito mais feliz sem nossa interferência nela. Ao mesmo tempo, estamos ficando cada vez mais conscientes de que o inverso não é verdade: nós não podemos viver fora dos sistemas naturais que sustentam a vida.
d) As descrições culturais masculinas de nós mesmos como seres que estão “fora de” ou “no controle”, não só do meio ambiente, mas também de outros seres vivos nele, foram, entrementes, contestadas, porém não eliminadas. Ao longo de toda a histórica humana ocidental, as mulheres foram rotineiramente classificadas como escravas e tratadas como tais. Isto veio à tona com o movimento público pela emancipação das mulheres. Ele começou nos Estados Unidos com o movimento pela emancipação dos escravos, com a luta por seus direitos a seu próprio corpo, a seus filhos e à propriedade que viessem a adquirir. Então as mulheres se deram conta de que elas também não tinham esses direitos.
Esta lição foi compreendida claramente em 1840, na Convenção Mundial contra a Escravidão realizada em Londres. Elizabeth Cady Stanton e Lucretia Mott, junto com outras delegadas americanas, foram relegadas às galerias na condição de “observadoras”. Indignadas, elas realizaram uma conferência em 1848, em Seneca Falls, para tratar “da condição e dos direitos sociais, civis e religiosos das mulheres”. Os povos indígenas também não têm tido esses direitos. Até 1967, os aborígenes australianos eram juridicamente classificados como “flora e fauna”, isto é, como incapazes de passar da natureza para a cultura.
e) Essa desvalorização das mulheres e dos povos indígenas aconteceu numa cultura secular dominada por uma imagem dos seres humanos (ou, mais precisamente, dos homens) como “mentes”, e numa cultura religiosa dominada por homens que entendiam que seu “espírito” e sua mente controlavam não só seus próprios corpos, mas também, por extensão, os corpos das mulheres, das crianças, dos povos indígenas e, naturalmente, de toda a Natureza material. Isto remonta ao mito da criação de Platão, o Timeu. Sua desvalorização da corporalidade se arraigou no ensino cristão e atingiu seu ápice no conceito do pecado supostamente corporificado em Eva. A mentalidade platônica e a cristã se juntam numa passagem do Apocalipse (lida na festa do dia de Todos os Santos) a respeito dos 144 mil que serão salvos (Apocalipse 7, 1ss.; 14, 1-5). A passagem de Apocalipse 14, 4 sintetiza o ideal a que todos e todas nós deveríamos supostamente aspirar! Entretanto, sabemos que o espiritual só está vivo em nós onde o espírito e a matéria, a mente e o corpo fazem todos parte do mesmo organismo vivo. Nenhum aspecto tem precedência sobre outro, pois eles só podem funcionar juntos como um todo vivo.
f) Há um outro fator nessa história, “a regra dos fisicamente mais fortes”, que liga a sujeição das mulheres com a sujeição da Terra até o presente. Eu o chamo de “militarismo econômico”. Bismarck estava descrevendo o militarismo quando disse que a única realidade política prática é o poder e a única fonte do poder é a força física, ou seja, a capacidade de matar e ferir. Essa “capacidade” era e é um importante e ainda crescente produto de exportação dos países do Norte econômico para os do Sul econômico, a maioria dos quais são ex-colônias. Pois ela era a força física que estava por trás da colonização europeia de outros continentes e sua concomitante cristianização. Atualmente assume a forma de um complexo militar-industrial que continua a crescer, a consumir recursos em todos os sentidos e a deixar a destruição ambiental em sua esteira. Mais uma vez, as mulheres, as crianças, os povos indígenas, os pobres e suas terras são as principais vítimas. O Conselho Mundial de Igrejas, em sua preparação para a Cúpula das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, estabeleceu ligações explícitas entre essas questões em seu programa Justiça, Paz e Integridade da Criação. As ligações delas com a Terra foram ignoradas no programa católico romano Justiça e Paz.
g) Em termos religiosos, o modelo do domínio dos mais fortes é apoiado pelo conceito de hierarquia ou “domínio sagrado”, que é endêmico no cristianismo e nas instituições culturais do Ocidente. De forma literal ou figurada, ele assume a forma de uma pirâmide ou da “Grande Cadeia do Ser”. Em ambas, o Espírito, Deus ou Inteligência não material (mas masculino!) constitui o pináculo e a fonte do poder. O poder flui dele para os homens, e deles para as mulheres, as crianças e os povos indígenas. “Debaixo” de todos esses seres e sujeita a todos os “de cima” está a Terra.
h) As sociedades e instituições hierárquicas valorizam os seres de acordo com a posição que ocupam na pirâmide ou cadeia: Deus/Espírito/Inteligência no topo, e as mulheres, as crianças e a Terra na parte de baixo. Elas estão sujeitas, em termos religiosos e institucionais, ao poder vindo “de cima”, exercido em nome de um Deus todo-poderoso.
Implicações
Todas as características descritas acima ainda podem ser discernidas em nossa atual cultura secular e religiosa. Elas causam impacto sobre nossa autocompreensão e sobre o que é tido como opiniões e comportamentos aceitáveis. Uma conhecida afirmação de Dom Helder Câmara serve como forma de ilustrar esse efeito. Disse ele: “Se dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Se pergunto por que os pobres não têm comida, chamam-me de comunista/marxista”.
Isso pode servir de base metodológica para as críticas ecofeministas:
• se trabalho pelos direitos das mulheres, sou uma militante em defesa dos direitos humanos. Se pergunto por que as mulheres, as crianças e os escravos não têm esses direitos, sou uma filósofa feminista;
• se crio refúgios para mulheres vítimas de maus-tratos ou para vítimas da guerra, sou uma assistente social. Se pergunto por que os abrigos são necessários, sou uma filósofa ética feminista;
• se estudo a posição das mulheres ao longo da história do cristianismo, sou uma historiadora da Igreja. Se pergunto por que elas foram mantidas nessa posição, sou uma teóloga feminista;
• se estudo as inter-relações entre mulheres, povos indígenas e movimentos ecológicos, sou uma cientista social. Se pergunto por que essa inter-relação se baseou na desvalorização e na violência para com os corpos das mulheres e dos povos indígenas e contra o corpo da Terra, sou uma filósofa ecofeminista;
• se faço todas essas perguntas e pergunto que papel o cristianismo desempenhou nisso, sou uma teóloga ecofeminista.
O patriarcado, o domínio dos Pais [Padres], não foi acrescentado à formulação da doutrina cristã. Ele foi introduzido na formulação das próprias doutrinas.
Nós agora temos de lidar com os efeitos do patriarcado e da desvalorização religiosa dos “corpos”, não só sobre as mulheres, crianças e povos indígenas, mas também sobre o corpo da Terra. Esses efeitos são o que passamos a conhecer como “mudança climática”. Eles também exigem uma mudança no clima religioso.
Nota:
1.- O texto, de autoria de Anne Primavesi, foi apresentado na conferência anual da European Network Church on the Move, em Londres, 2009. O manifesto é inédito no Brasil e foi enviado pela autora à redação da IHU On-Line (Nota da IHU On-Line).
Para ler mais:

 

http://noticias.ambientebrasil.com.br/exclusivas/2010/09/24/60763-exclusivo-pesquisadores-vao-instalar-banheiro-seco-em-itapema-sc-como-parte-de-pesquisas-de-saneamento.html

EXCLUSIVO: Pesquisadores vão instalar banheiro seco em Itapema, SC, como parte de pesquisas de saneamento

Por Danielle Jordan / Ambientebrasil
No próximo sábado, dia 25, o Núcleo de Educação Ambiental, Neamb, do Centro Tecnológico, CTC, da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, em parceria com o Instituto Çara-Kura, Içara, e com a Prefeitura de Itapema, SC, vai construir um banheiro seco no município de Itapema.
A atividade faz parte de mais uma etapa da oficina sobre sistemas ecológicos de saneamento básico. O protótipo foi desenvolvido pelo grupo, que tem como objetivo criar um sistema funcional e de rápida montagem, com custo baixo. A região escolhida se deve à presença de comunidade de baixa renda com problemas sérios de infra-estrutura e saneamento.
O sistema consiste na desidratação ou com postagem dos resíduos sanitários, com a eliminação dos patógenos e destinação do resíduo sem a utilização de água. Com a comprovação da eficácia do sistema, o modelo poderá ser implantado em outras localidades.
O tema faz parte da pesquisa da pesquisa da doutoranda em Engenharia Sanitária e Ambiental, Maria Elisa Magri. A oficina, que acontece a partir das 8h30, é livre e gratuita, com certificada pelo Departamento de Apoio à Extensão. As vagas são limitadas e o horário previsto para o retorno é 20 horas.
*Com informações da UFSC.