Disruptores endócrinos

Paul Goettlich (texto original revisado pelo autor em 02.jul.2003)

 

·        O que são disruptores endócrinos (DEs)?;

·        Sistema endócrino;

·        Geração dos disruptores endócrinos (DEs);

·        Bioacumulação;

·        Sinergia;

·        Na escuridão;

·        Exposição humana;

·        Efeitos dos disruptores endócrinos sobre a saúde (DEs);

·        As crianças estão sob grande risco;

·        A medida dos disruptores endócrinos (DEs), em partes trilhão;

·        Por que eu nunca ouvi nada sobre os disruptores endócrinos (DEs) ?;

·        O quê as indústrias químicas (pólos petroquímicos) têm a dizer ?;

·        Não estão as estruturas públicas se responsabilizando por nossa saúde ?;

·        Princípio da precaução;

·        Evitando os disruptores endócrinos (DEs);

·        Recomendações;

·        Lista de disruptores endócrinos (DEs);

·        Bibliografia;   e

·        Referências bibliográficas.  

1.      O que são os disruptores endócrinos ?

 

Disruptores endócrinos são produtos químicos sintetizados artificialmente e os fitohormônios (estrogênios naturais produzidos por plantas ou metabólitos de fungos) que atuam sobre o sistema endócrino dos animais e humano, ao mimetizarem, bloquearem e/ou interferirem, de alguma maneira, com as instruções naturais dos hormônios às células.

É um agente exógeno* que interfere com a síntese, a secreção, o transporte, a conexão, a ação ou a eliminação dos hormônios naturais no organismo que são responsáveis pela manutenção da homeostase**, da reprodução, do desenvolvimento e/ou do comportamento. (R.J.Kavlock et al.).

 

*O dicionário Webster’s define exógeno, como algo que é introduzido de fora ou produzido externamente ao organismo ou sistema, ou seja, que não é sintetizado especificamente dentro do próprio organismo ou sistema.

** (nt.: o dicionário Aurélio define homeostase como estado de equilíbrio do organismo vivo em relação às suas várias funções e à composição química de seus fluidos e tecidos).

            O organismo dos animais e humanos (nt.: tomaremos a liberdade de tratar todos nós, animais e humanos, somente como animais, sem a distinção que o autor faz) está subordinado a uma série de eventos, complexos, integrados e concatenados, dos quais a liberação de hormônios aos vários órgãos, é vital. Quando o ritmo da liberação e/ou a quantidade de hormônios são desarranjados, os resultados podem ser devastadores e definitivos.

            A disfunção pode ser tanto na forma de quantidades inapropriadas como na desconexão da resposta ao estímulo, bloqueando os efeitos hormonais em partes sensíveis do organismo a isto. Pode também ser pela estimulação ou inibição do sistema endócrino que poderá produzir uma quantidade inadequada de hormônios. Qualquer uma destas interferências no sistema endócrino pode afetar o desenvolvimento físico em geral, do aparelho reprodutivo, do desenvolvimento cerebral, do comportamento, da regulação da temperatura e de muitos outros.  

2.      O sistema endócrino.

 

O sistema endócrino é constituído de glândulas, hormônios e receptores, encontrados em inúmeros locais no organismo. Faz a conexão entre o sistema nervoso e a reprodução, a imunidade, o metabolismo e o comportamento. Secreções internas são liberadas diretamente no sistema circulatório tanto quanto outras que, não sendo liberadas no fluxo sangüíneo, afetam o metabolismo e outros processos orgânicos. Fazem parte órgãos como o hipotálamo, a pituitária, a tireóide, as paratireóides, o timo, os ovários, os testículos, o pâncreas, os “paraganglia” ***, as glândulas supra-renais (ou adrenais), a glândula pineal, os intestinos, além de regiões especializadas do cérebro. As glândulas endócrinas são órgãos sem ducto, que secretam substâncias específicas, “hormônios”, liberadas diretamente no sistema circulatório e que influenciam o metabolismo e outros processos orgânicos.

Quase todos os animais multicelulares têm dois sistemas essenciais para controlar e coordenar os processos orgânicos internos. Comparando superficialmente com o sistema endócrino, o sistema nervoso responde extremamente rápido, através de sinais elétricos, pelos nervos, a órgãos particulares e tecidos. Já o sistema endócrino é mais lento, apoiado-se em mensageiros químicos, os hormônios, podem alcançar todos os pontos do organismo. Os dois operam conjuntamente para controlar todas as funções e processos orgânicos. Os receptores são estruturas moleculares dentro ou nas superfícies das células que seletivamente conectam-se, neste caso, com os hormônios. Processos retroativos entre órgãos e glândulas controlam a produção e os níveis que estão circulando e mantendo a homeostase do organismo.

Alguns dos processos do sistema endócrino são: o hipotálamo produz hormônios de liberação que estimulam a atividade da pituitária; a pituitária produz hormônios tróficos estimulando a atividade da tireóide, das supra-renais (ou adrenais), das gônadas e do pâncreas; a tireóide produz seus hormônios típicos que regulam o metabolismo, o crescimento e desenvolvimento, o comportamento e a puberdade; a glândula adrenal produz hormônios corticosteróides e catecolaminas para regularem o metabolismo e o comportamento; o pâncreas produz insulina e glucagon que regulam os níveis de açúcar no sangue; as gônadas produzem os hormônios sexuais esteróides que regulam o desenvolvimento e crescimento, a reprodução, a imunidade, começo da puberdade e comportamento (via androgênios e estrogênios). 

Resumindo, este é quase um sistema global que se ocupa com a maioria das funções orgânicas. Sem ele, nós não poderíamos estar vivos. Sem seu funcionamento dentro de determinados limites de normalidade, nós viveríamos muito precariamente. Conseqüentemente, é um sistema vital.   

  ***(nt.: conforme coleta de várias fontes, são ‘corpúsculos encontrados próximos às regiões da artéria aorta, do fígado, dos rins, do coração e das gônadas, e que agem como fontes extra-adenais de adrenalina e noradrenalina’).

3.      Geração dos DEs.  

A geração dos disruptores endócrinos pode ser intencional e/ou como sub-produtos não intencionais de processos industriais tais como o branqueamento de papel e celulose, emissões das fundições de aço e de motores de veículos bem como na queima de produtos que contenham cloro como o PVC, seja em incineradores, caldeiras de fundo de quintal ou vindo de incêndios de prédios.

Os disruptores endócrinos mais insidiosos são os produtos químicos sintetizados pelo homem. Estamos rotineiramente expostos a eles na maioria das áreas de nosso dia-a-dia como casa, trabalho e lazer. Disruptores endócrinos tanto conhecidos como sob suspeita, vem em produtos que somos persuadidos a acreditar como se tivessem sido testados em relação à segurança da saúde humana e ambiental. Fazem parte desta lista: produtos de beleza e de higiene (cosméticos, filtros solares, perfumes, sabonetes); fármacos (pílula anticoncepcional); selantes para dentes; solventes; surfactantes (nt.: também conhecidos como tensoativos); agrotóxicos (como o herbicida “Roundup” da Monsanto [1] e muitos outros);  e os plásticos (PVC [2], poliestireno-estiropor-“isopor”, e outros). Mais adiante terá uma lista mais extensa destas substâncias químicas. Os disruptores endócrinos têm uma ampla série de tamanhos moleculares, volumes e potências. A potência depende de sua ação sobre o órgão ou a célula alvo, além da finalidade específica.  

4.      Bioacumulação.  

As concentrações dos DEs vão aumentando progressivamente através da bioacumulação na cadeia alimentar. Fitoplânctons precisam coletar sua alimentação em uma grande quantidade de água em razão de seus nutrientes estarem em baixas concentrações na massa hídrica. Os DEs aderem aos nutrientes na forma de moléculas químicas sintetizadas artificialmente. Neste estágio, suas concentrações são extremamente difíceis de serem mensuradas. Estas moléculas acumulam-se no fitoplâncton, atingindo níveis muito mais elevados do que no seu entorno. Pequenos peixes e zooplânctons alimentam-se do fitoplâncton, promovendo aumento em seus organismos das concentrações dos níveis de DEs. Estes por sua vez serão ingeridos por outros animais maiores e assim sucessivamente.

O processo de incremento da bioacumulação é repetido até as concentrações de DEs fazerem com que os predadores que estejam no topo da cadeia alimentar atinjam níveis suficientemente elevados a ponto de causarem deformidades físicas, redução na fertilidade e morte. A bioacumulação se dá nos tecidos adiposos dos animais até o topo da cadeia alimentar quando então poderá ser milhões de vezes mais alta do que a concentração presente na água onde em primeiro os DEs estavam depositados.

Para avaliar a bioacumulação, o Capitão Charles Moore, da Fundação de Pesquisa Marinha Algalita****, escumou a superfície da grande curvatura do Pacífico Norte, usando uma rede de malha fina tramada sobre uma área de mais de 100 quilômetros. Encontrou uma estranha inversão, havia seis vezes mais plástico em peso do que o do zooplâncton que ali ocorre naturalmente. Já outros pesquisadores detectaram que os fragmentos de plástico absorvem e concentram toxinas como os PCBs (nt.: produto utilizado, entre outros, em transformadores elétricos, com o nome comercial –ascarel-), e o DDE (nt.: metabólito do agrotóxico DDT) em níveis milhões de vezes acima de seus teores no ambiente da água do mar. Pássaros e peixes ingerem os fragmentos plásticos ao confundi-los com o zooplâncton. E em razão destes materiais exercerem uma “atração magnética” sobre o PCB/DDE, os animais ao consumi-los concentrarão massivas doses destes disruptores endócrinos.[3]

Estando os humanos no topo da cadeia alimentar apresentam algumas das maiores concentrações dos DEs. Tanto o feto humano como as crianças em crescimento estão no mesmo patamar ou estas num mais elevado. Como os disruptores endócrinos atravessam a barreira placentária, atingem o feto. Já o lactente se contaminaria ao se alimentar com o leite materno. Recentes pesquisas indicam o aleitamento materno como o método preferencial aos leites formulados.[4] E deve ser mencionado que há redução de riscos na infância à leucemia aguda, quando associada a este método natural de alimentação.[5]

****(nt.: para ter mais informações a respeito deste tema, acessar, na pagina inicial, aos itens ÁGUA ou PLÁSTICOS e conectar o site: ftp://ftp.sccwrp.org/pub/download/PDFs/1999ANNUALREPORT/10_ar11.pdf).    

5.      Sinergia.  

A combinação de mais de uma substância química pode gerar um efeito sinérgico, incrementando a toxicidade muitas vezes acima do que cada uma separadamente. O   herbicida da marca comercial “roundup” da indústria Monsanto, é um excelente exemplo de sinergia. O seu aditivo surfactante (nt.: muitas formulações empregam como tal o nonilfenol/alquilfenol, identificado com o tensoativo não iônico) tem uma toxicidade aguda maior do que a do princípio ativo do agrotóxico chamado “glifosato” e esta combinação dos dois é ainda muito mais tóxica. [6] A combinação de dois estrogênios ambientais fracos como os princípios ativos para agrotóxicos dieldrin, endosulfan ou toxafeno, é mil vezes mais potente do que cada um separadamente. [7]  

 

6.      Na escuridão.  

A tecnologia disponível é totalmente incapaz até mesmo de uma tosca avaliação dos efeitos sobre a saúde pela exposição, no mundo real, a esta miríade de substâncias químicas. Da mesma forma, estará impossibilitada de fazê-lo em qualquer tempo num futuro previsível. A magnitude das variáveis envolvidas na exposição humana a esta química, a cada dia, é infinita.

O maior e mais atualizado computador do mundo, o “ASCI White”, é um bom exemplo de quão limitada é a nossa capacidade para entender os fragmentos desta multiplicidade de variáveis. Para se ter uma idéia de sua dimensão, em meados de agosto de 2001, o ASCI White foi mandado para a cidade de Livermore em carretas de 28 eixos. Podia executar 12,3 trilhões de cálculos por segundo e é impressionantemente tão poderoso como 50 mil computadores pessoais, podendo armazenar 300 milhões de livros ou seis bibliotecas como a do Congresso norte-americano. Tem 8.192 microprocessadores conectados entre si por 83 ilhas (nt.: cada milha tem, mais ou menos, 1,6 km) de fios numa peça do tamanho de duas quadras de basquete. [a] Mas o ponto que se liga a este exemplo é que o ASCI White leva 15 dias (ou seja, 360 horas) para calcular os movimentos de simples 600 átomos por um trilionésimo de um segundo. [b]

O número de variáveis envolvido na exposição de uma criança a tóxicos está em ordem de magnitude [c] muito maior do que o número de átomos que o ASCI White pode rastrear. A Terra tem 6 bilhões de habitantes. Cada um poderá possuir muito acima de 153.478 genes únicos, em torno de 100 trilhões de células e DNA suficiente para ir e voltar do Sol mais do que 600 vezes. [d] A cada ano, milhares de novas substâncias químicas são sintetizadas e agregadas às 75 mil já existentes, muitas das quais trabalham juntas sinergisticamente, multiplicando de forma significativa a toxicidade.

  

 

·          [a] Bergstein, B. “Livermore Lab Univeils Supercomputer.” AP 15ago01.

·          [b] ASCI White, o computador mais poderoso do mundo. Science News v.160 25ago01.

·          [c] Em ordem de magnitude é uma mudança exponencial de mais ou menos 1 no valor da quantidade ou unidade. Um incremento numa ordem de magnitude é o mesmo que multiplicar a quantidade por 10. Exemplo: 100 é uma ordem de magnitude maior do que 10.

·          [d] Briggs, H. Discussão sobre o número de genes humanos. BBC 07jul01.

http://www.mindfully.org/GE/GE2/Genes-Number-Disputed.htm

 

   

7.      Exposição humana.  

            Enquanto poucas fontes de exposição humana aos disruptores endócrinos são naturais, a esmagadora maioria é de milhares de produtos sintetizados artificialmente. É falho colocar-se a responsabilidade em um só produto químico já que a exposição vem de múltiplas formas e substâncias, cada uma contribuindo para a acumulação total. Apesar da regulamentação atual ser dirigida a cada químico individualmente, a combinação na vida real é infinita e tem efeitos imprevisíveis.

            Uma exposição significativa aos disruptores endócrinos advém do plástico que está, progressivamente, substituindo produtos naturais num processo cada vez mais intenso. Menos do que cinqüenta anos atrás, produtos plásticos eram considerados inferiores e a população vivia uma vida saudável e produtiva sem eles. O PVC (polivinil cloreto) provavelmente contribuiu com a maior exposição aos disruptores endócrinos originários de todos os plásticos. Sua toxicidade atravessa a produção, o uso e o seu descarte.

            A capacidade de fabricação mundial de PVC em 1998 foi de 14 milhões de toneladas. [8] É produzido tanto para encanamento residencial e municipal, como para brinquedos, filme transparente para embalar alimentos, vestimentas, capas de chuva, sapatos, produtos de construção civil tipo janelas, persianas, pisos, forros além de equipamentos médicos ospitalares como bolsas de sangue e de soro, tubulações, cateteres e muitos outros produtos de uso generalizado.

            Além de conter ftalatos, durante a fabricação há a geração de dioxinas, sendo uma presença inevitável. A indústria do PVC aceita, indubitavelmente, esta constante geração de dioxina como um mal necessário. Por décadas, os trabalhadores desta indústria [9] têm tido enorme exposição tóxica em razão da presença do MVC (monômero vinil cloreto). Na posição de consumidores agregam ainda a  esta exposição a que a população em geral recebe normalmente.

            O contato direto com o PVC, seja na ingestão do alimento embalado ou no manuseio dos produtos, é perigoso em razão da presença de vários plastificantes e aditivos que são mpregados no produto final. O bisfenol A é o plastificante (nt.: presente nos selantes odontológicos e na lâmina plástica dos enlatados, conforme mostra o vídeo da BBC/Londres, “Agressão ao homem”) mais comum utilizado no PVC. O bisfenol A lixivia para o líquido e produtos gordurosos embalados com estes materiais. Os produtos de PVC flexíveis podem ter mais do que a metade em peso de plastificantes, mas a formulação química varia entre produtos e fabricantes. Em torno de 95% dos ftalatos são utilizados em PVC. [10]

            Geralmente o PVC não é reciclado. Grande porção do PVC que vira lixo, tem sido conduzida para a incineração. Mais dioxinas são geradas. Ironicamente este processo tem sido chamado de reciclagem pela indústria do plástico, estando incluído nas estatísticas oficiais de reciclagem. A incineração forma dioxinas. E novamente a indústria rontamenteaceita o câncer, a disfunção endócrina e a poluição ambiental por terem externalizado ***** estes custos.

            De acordo com um estudo conduzido por Barry Commoner do Queens College de Nova York, as concentrações de dioxina no leite materno do povo esquimó Inuit que vive entre a Groelândia e a Escandinávia, são duas vezes maiores do que os níveis detectados ao sul de Quebec. Mesmo não existindo fontes significativas de dioxinas localizadas no território polar canadense de Nunavut, nem dentro de 500 quilômetros de suas fronteiras. O alto e alarmante nível é devido à deposição de dioxinas transportadas pelas correntes aéreas, das distantes fontes notadamente localizadas nos USA, um pouco menos do Canadá e irrisoriamente do México. [12]            A resina plástica poliestireno (nt.: tem a sigla PS e no interior do triângulo que normalmente está na base das embalagens, leva o número 6) é utilizada para recipientes de alimentos como carnes, peixes, queijos, yogurtes. Também para recipientes translúcidos, bandejas rígidas, recipientes para padaria, embalagens tipo “amendoim”, utensílios de audiocassete, capas de CDs, cutelaria descartável ou na forma de espumas (nt.: o estiropor, ou “isopor”, é o mesmo estireno, expandido com gás que anteriormente era o CFC). Testes mostraram que o monômero do estireno lixivia para a água, fria ou quente, e para uma mistura de 50% água-etanol. Muitas são as cidades que baniram a utilização de embalagens de poliestireno na forma de espuma para alimentação pré-embalada e de distribuição rápida (“fast-food”). [14]             O refino de óleo, a queima de carvão e óleo diesel para produção energética, o escapamento de automóveis e caminhões [15] e a fumaça de cigarros, [16] geram disruptores endócrinos. A utilização de químicos sintéticos para tratar jardins, detergentes domésticos, tintas, solventes, graxas e ceras além de milhares de produtos de uso comum, colocam a população, a vida em geral e o ambiente, em contato direto com os disruptores endócrinos.

  *****(nt.: sobre este conceito e suas implicações no mundo moderno acessar ao site: www.thecorporation.tv e assistir o documentário, feito no Canadá em 2003, “The Corporation”).  

8.      Efeitos dos disruptores endócrinos sobre a saúde.  

Alguns dos possíveis riscos à saúde incluem: defeitos de nascimento; alterações no desenvolvimento sexual e funcional [17]; desordens neurológicas, diabetes mellitus [18]; desordens imunológicas [19], [20]; puberdade precoce em meninas, [21], [22] cânceres: de mama, [23], [24] cólon, vagina, cervical, testicular, além da endometriose, [25] diferenciação sexual do cérebro e outros tecidos alvos do estrogênio; [26] anormalidades estruturais do oviduto, útero, cervical e vagina; fator contribuinte com a sub-fertilidade; [27] linfoma não-Hodgkin [28], [29], [30]; redução da disposição física [31], defeitos genitais de recém nascido: hipospadia e criptorquidismo [32], alteração da distância anogenital em meninos [33], redução no número dos espermatozóides [34] e aumento/redução da próstata [35]; desordens mental, comportamental e do desenvolvimento [36], irritabilidade, desatenção, decréscimo na capacidade mental, inabilidade para aprendizagem [37], dislexia, déficit de atenção/desordem de hiperatividade [38], autismo, propensão à violência [39], redução da coordenação motora e da coordenação fina e grossa olho-mão.

            A incidência de todos os tipos de cânceres entre crianças com menos de um ano de idade, em ambos os sexos e ajustada à idade, elevou-se em 36% quando se comparam os anos 1976-1984 e 1986-1994. A incidência de cânceres em célula germinativa (germ cell) para o mesmo grupo cresceu 124%. Os aumentos foram menores para crianças mais velhas, mas ainda assim são aumentos.  

·        Paracelsus.  

Quando o físico do século XVI, Paracelsus, escreveu: “somente a dose determina se algo será ou não veneno”, [a] (significa que quanto maior a dose, mais forte o veneno) ele estava no limiar da ciência. No entanto, este preceito é repetido ainda hoje pela maioria dos toxicologistas. Ignoram que doses tão baixas como uma parte por trilhão, num momento específico do desenvolvimento fetal, pode produzir incontáveis anomalias permanentes, físicas e mentais, que podem não ser reconhecidas após a puberdade. Menos da  metade dos 38 mil químicos de alta produção [b] foi testada quanto à sua toxicidade. E muito poucos dos 87 mil químicos comercialmente em uso, foram testados de alguma forma. Quase nenhum dos mais de 03 milhões de químicos registrados foi testado. E uma quantia irrisória das combinações entre estes químicos, presentes no nosso dia-a-dia, foi avaliada. [c]

Estes químicos tóxicos podem causar mutações do DNA de nosso corpo, perturbando a seqüência normal das combinações de seus nucleotídeos. O organismo tem uma organização emergencial de respostas, enzimas são geradas para arranjar a desordem feita pelos tóxicos ambientais. Elas usualmente se orientam no sentido de reparar o DNA alterado. Existem, no entanto, ocasiões em que o DNA não pode mais ser reparado. Desta falha de recuperação, células anormais proliferam-se, podendo desencadear o próprio câncer.

  

 

·          [a] Borzelleca J. Paracelsus: “Mensageiro da moderna toxicologia”. Toxicological Sciences, 2000, 53: 2-4.

·          [b] Volume de alta produção dos químicos representa aqueles que são tanto manufaturados nos USA  como importados em quantidades iguais ou maiores do que 220 mil kg/ano.

·          [c] Moyers, B., S.Jones. “Segredos comerciais: Moyers repórter.” Documentário de tevê PBS que foi ao ar em 26mar01.

http://www.pbs.org/tradesecrets/transcript.hml

 

          ·        Mães.  

Todas as mães têm muitos anos de exposição. Muitos dos químicos acumulam-se mais rápido do que se degradam, sendo atraídos pelos tecidos gordurosos de nosso corpo. Quando as mães estão grávidas, estes estoques tóxicos podem afetar o embrião por várias vias. É comum dizer-se que a placenta protege o embrião de todas as agressões. A placenta é uma barreira eficiente quanto a bactérias, no entanto não bloqueia a maioria dos químicos sintéticos. Alguns cruzam a barreira placentária com facilidade, enquanto outros se transformam em novas substâncias ainda mais tóxicas, os metabólitos, e alguns chegam a danificar o funcionamento da placenta. [a]

A dioxina é um tóxico que atravessa com facilidade a placenta. É uma molécula sem valor comercial, extremamente tóxica, de larga duração e ubíqua. O PVC, também conhecido como vinil, é a maior fonte, isolada, de dioxina. Outros produtos como o papel branqueado com cloro, têm estas mesmas características tóxicas. A fabricação e a incineração de muitos materiais que contém cloro como o polivinil cloreto (PVC ou vinil) e papel branqueado com cloro, também são fontes geradoras. No entanto a maior geração vem da incineração de resíduos municipais e hospitalares por conterem entre os rejeitos, uma larga porção de produtos feitos à base de cloro. [b] A indústria do PVC sabe, há décadas, que a dioxina é um subproduto inevitável em sua fabricação. [c] Conseqüentemente há uma ação com ntencionalidade quando as indústrias colocam os lucros acima da população. Esta é somente uma das centenas de moléculas contaminantes estocadas nos tecidos gordurosos das mães e consumido pelo lactente, num nível que vai de 35 a 100 pg/kg (picograma****** por quilo) de peso por dia. A dose diária aceitável de dioxina pela Organização Mundial da Saúde é de 1-4 pg/kg. A “dose de risco específico” da EPA (nt.: Environmental Protection Agency dos USA/Agência de Proteção Ambiental dos USA) é de 0,01 pg/kg, [d] ou seja 10 mil vezes mais baixa do que uma criança lactente recebe.

***** (nt.: um picograma representa um trilionésimo de uma grama).      

 

·          [a] Steingraber, S. “Ter fé.” Cambridge, MA: Persius Publishing, 2001. p 34.

·          [b] US EPA. “Reavaliação da exposição e saúde humana da 2,3,7,8-tetraclorodibenzo-p-dioxina (TCDD) e seus compostos relacionados”. Maio 2000. Edição final.

www.epa.gov/neea

·          [c] Moyers, B., S. Jones. “Segredos comerciais: Moyers repórter.” Documentário da tevê PBS, que foi ao ar em 26mar01.

http://www.pbs.org/tradesecrets/transcript.html

·          [d] Schecter, A . Anotações pessoais de sua apresentação no “Macro encontro da Ação Popular sobre dioxinas”, UC Berkey, 10ago00.

 

 

·        Pais.

 

            A dioxina também está armazenada nos tecidos gordurosos dos pais. A dioxina foi o que transformou o Agente Laranja no dramático pesadelo à população do Vietnã e sua descendência. Esta herança continua ainda hoje tanto nos veteranos norte-americanos como no povo vietnamita, décadas (nt.: em torno de trinta anos!) após sua utilização.[a] Este e muitos outros contaminantes podem causar problemas aos espermatozóides destes homens que por sua vez passam a seu filho. A qualidade e a quantidade do esperma podem ter se reduzido, levando então o espermatozóide um DNA que pode estar danificado ou envolvido por tóxicos. O sêmen assim poderá entrar na vagina carregando estes mesmos tóxicos que impregnavam o corpo do pai. [b] A produção de espermatozóides do próprio pai pode ter sido limitada enquanto ele ainda era um embrião. O decréscimo na contagem de espermatozóides em muitos países industrializados gira em torno de 1,5% ao ano. [c]

 

 

·          [a] Schecter, A..,et al. “Contaminação recente de dioxina por Agente Laranja em residentes nas cidades do sul do Vietnam of .” Journal Occupational Medicine, 43:5, pp435-443, maio01.

·          [b] Schettler, T., Solomon, G., Valenti, M., e Huddle, A.. “Gerações em risco.” Cambridge; MIT Press, 1999.

·          [c] Swan, S.H., Elkin, E.P., e Fenster, L. “ Revisão sobre a questão dos declínio da densidade dos espermatozóides: uma análise dos 101 estudos publicados entre 1934-1996. (Abstract) Environmental Health Perspectives, vol.108, nº 10, otu00.

 

 

9.      As crianças estão sob grande risco.  

As crianças estão sob grande risco porque brincam no chão, levam regularmente as mãos à boca, olhos e nariz e em seus pratos de comida. Absorvem mais agrotóxicos de seus ambientes do que os adultos além de serem menos hábeis na desintoxicação e sua excreção.

Estão expostos em suas casas, escolas, creches, parques e áreas de brinquedos. Aproximadamente 90% dos lares norte-americanos utilizam agrotóxicos na casa. Movimentaram, em 1995, um mercado de mais ou menos 35 mi toneladas de venenos domésticos (nt.: no Brasil são chamados de domissanitários. Mas os princípios ativos destes venenos são os mesmos dos agrotóxicos!). A alimentação, incluindo a água potável, é a segunda fonte em importância de exposição das crianças aos agrotóxicos. [40] Em adição a estas fontes de disruptores endócrinos, deve-se considerar a exposição aos plásticos, aos fármacos, aos escapamentos dos motores dos veículos, xampus e etc., além do efeito sinérgico de todas estas fontes combinadas.

Todas as crianças, sem exceção, estão expostas aos químicos sintéticos tóxicos antes mesmo de seu nascimento e, após, continuam pelo resto de suas vidas. Muito do seu tempo é gasto engatinhando, brincando e rolando pelos gramados ou pelos carpetes onde os tóxicos se acumulam. Quando a criança morde brinquedos, quaisquer tóxicos ali acumulados são ingeridos. Mesmo brincando com cachorros que rolaram pelos gramados da vizinhança, tratados com agrotóxicos, ou portando coleiras com venenos antipulgas, também transferem estes contaminantes diretamente para o corpo da criança. Em função de seu tamanho, elas são biologicamente mais vulneráveis do que os adultos. Proporcionalmente, eles sofrem uma exposição muito mais intensa e estão assim sob alto risco. [a]

Muito dos que as crianças comem, bebem, respiram e tocam, é tóxico.  Algumas destas exposições são evitáveis, outras são mais difíceis e o restante é irremediável. Produtos normais, de consumo diário, não são de maneira alguma inócuos e deveriam ser evitados. Uma pequena lista, indicativa da contaminação das crianças, incluem-se: químicos para gramados, jardins e hortas, produtos de cuidado da beleza, tintas, produtos de perfumaria, colas, solventes, escapamentos de veículos à gasolina e a diesel, plásticos, bronzeadores olares, vários fármacos, incluindo muitos métodos de controle da natalidade, além de muitos outros. 

 

 

 

 

·          [a] Landrigan, P.J., et al. “A  vulnerabilidade particular dos nenês e crianças aos agrotóxicos.” Environmental Health Perspectives. V.107, Supl. 03jun99.

 

 

·        Revisão de um típico dia de uma criança  

O nenê dorme num berço feito de plástico, coberto com lençóis de tecido sintético tratados com retardantes de chama e lavados com detergentes fortes, contaminados com muitos produtos químicos tóxicos. Os lençóis foram secos a alta temperatura gerando dioxinas pelos resíduos do branqueamento feito com cloro. [a] A flexibilidade da cobertura do colchão vem do uso de plastificantes e também foi tratada com um agente bactericida/acaricida. O novo carpete sintético e a tinta ainda fresca das paredes, liberam tóxicos. Fraldas descartáveis, confortavelmente adaptadas ao corpo do nenê, contém componentes tóxicos tais como oliacrilatos de sódio, colas à base de etilvinilacetato, resinas, agentes amaciantes e anti-oxidantes. [b] As loções para suas preciosas nádegas estão impregnadas de ftalatos, conhecidos mimetizadores hormonais. Suplemento fluoratado é prescrito se a água de beber vem de fontes naturais. Por outro lado a água poderá ser rica em nitratos e coliformes. [c]

Seus alimentos foram cultivados numa diversidade de agrotóxicos. Podem ser inseticidas, herbicidas ou fungicidas. Serem envolvidos ou embalados em plásticos, a vácuo ou mesmo enlatados. São aquecidos e consumidos em recipientes, pratos e talheres plásticos. As sobras de alimentos cozidos são guardados em embalagens plásticas e levados à refrigeração. [d] Os efeitos de poucos dos componentes químicos dos plásticos são conhecidos, mas o efeito conjunto é completamente desconhecido. A USFDA (nt.: United States Food and Drugs minisration/Administração de Alimentos e Fármacos dos USA), de maneira interessante, denomina as moléculas químicas que migram do plástico para os alimentos, de “aditivos alimentares indiretos”. As regulamentações definem que o uso do plástico em contato com alimentos oferece somente uma proteção limitada. [e]

Enquanto isto se um dos pais estiver dirigindo no meio do tráfico urbano, a criança levada no veículo estará acomodada numa cadeirinha apropriada feita com dezenas de tipos de plásticos, circulará num carro que tem aquele típico cheiro de novo, e que é oriundo de compostos exalados pelos plásticos. Roupas lavadas a seco, perfumes, cremes de mãos, desodorantes, spray de cabelos, esmalte de unhas, batons e a fumaça do cigarro também farão parte integrante da atmosfera do veículo. Se estiver indo atrás de um caminhão a iesel,o material finamente particulado, carregado de carcinogênicos e disruptores endócrinos, será profundamente inspirado até o mais recôndito do pulmão da criança.

Dirigem-se, em meio às emanações das fábricas, para pegar o pai que trabalha produzindo PVC ou agrotóxicos. Esperando, poderá estar fumando e ainda rescindindo a perfume da loção pós-barba ou mesmo suas roupas estarem carreando resíduos de alguma substância tóxica com que ele havia trabalhado. Se for dentista pode ter, há pouco, feito uma obturação com produtos mercuriais. Se for mecânico de automóveis, poderá ter aplicado pouco antes uma pintura ou algum corretivo plástico.

No caminho de casa, param para abastecer e o cheiro flui através da janela aberta com os odores de aditivos desengordurantes agregados ao combustível. Durante o verão, os níveis eozônio são altos e a névoa seca envolve as comunidades. No inverno, os subprodutos da queima de óleo, gás, carvão e/ou lenha permeiam a atmosfera, em função dos hábitos de cada região.

Poucos anos depois, quando a criança vai à escola leva uma lancheira de plástico no ônibus. A fumaça do diesel vai impregnando o interior do veículo que, mesmo sem o escapamento aparente, poderá expor a criança a níveis perigosos de inalação. Uma criança que anda de ônibus escolar pode ser exposta de 23 a 46 vezes o risco de cânceres considerado “significativo” pela EPA e as leis ambientais federais. [f] O ar das áreas rurais será impregnado de agrotóxicos, tipo herbicida, fertilizantes, poeiras, escapamentos de diesel e alguns outros contaminantes exportadas pelas áreas urbanas. Aviões a jato sobrevoam os paços aéreos, algumas vezes descarregam o combustível de suas turbinas nas alturas que se vaporiza antes de atingir nossas cabeças e o solo. 

Na escola, a criança sentará numa classe de plástico, sobre um piso coberto de material sintético, entre quatro paredes e forro feitos com PVC e sob luminárias fluorescentes. A escola tem ar condicionado sem suplemento de ar fresco, reciclando o ar estagnado através dos dutos liberando poeira, umidade e fungos. O perfume do professor mescla-se com o dos acelerantes dos marcadores de quadro. Agrotóxicos são regularmente utilizados por toda a escola, sendo ou não necessários. Muitas superfícies serão tratadas com produtos líquidos branqueadores ou antibacteriais. Os corredores estão impregnados pelos odores que exalam dos pisos de PVC. As áreas verdes estão pulverizadas com agrotóxicos, tipo herbicidas, e rtilizantes sintéticos que podem conter variados resíduos tóxicos.

Para a merenda, a criança come e bebe alimentos altamente processados, impregnados de agrotóxicos e irradiados com energia atômica. Terão conservantes e colorantes sintéticos, além de uma gama de substâncias inominadas que têm o único propósito de estender sua permanência nas prateleiras. O alimento é, na maioria das vezes, preparado em outro local, a quilômetros de distância, transportado em recipientes plásticos e servido e comido em pratos e talheres plásticos descartáveis feitos de poliestireno (nt.: sigla-PS, número 6). Antes de comer a criança lava suas mãos utilizando sabonete que é antibacterial/antifúngico, com água fluoretada.  

 

·          [a] Iniciativa Mundial da Água Limpa. 2010 Pleasant Hollow Drive. Plainsboro, New Jersey, USA 08536, tel.: 609-716-6716, fax.: 609-716-0041, email: wold@cosmo-environment.com, http://home.hawaii.rr.com/willi/cwwi/ NOTA: Makoto kohobu1@soseiworld.co.jp envia o documento “Um estudo sobre solventes de lavagem a seco e roupas: fonte de exposição à dioxina ?”

·          [b] Karlberg, A-T., e Magnusson, K. “Compostos resinosos encontrados em fraldas descartáveis”. Contact Dermatitis, 34, 176-180, 1996.

http://www.mindfully.org/Plastic/Diapers-Rosin-Components.htm

·          [c] A proximidade de uma fonte de uma região a quaisquer fossas sépticas, o ambiente e o tipo de solo têm uma relação direta com os níveis de nitratos e coliformes.  

·          [d] Relatório do Consumidor. Mimetizadores hormonais (disruptores endócrinos): presente em nossos alimentos, devemos nos preocupar ? jun98.

http://www.mindfully.org/Pesticide/Hormone-Mimics-In-Food.htm

·          [e] Sheftel, V.A., “Aditivos alimentares indiretos e polímeros: Migração e Toxicidade.” Boca Raton; CRC Press, 2000.

·          [f] Solomon, G. M., Campbell, T.R., Feuer, G.R., Masters, J., Samkian, A., Paul, K.A., “Não respirar nos corredores das escolas”. Ver também: “Escapamento do diesel dos ônibus ecolares em eu interior”. Natural Resources Defense Council/ Coalition for Clean Air. Jan01.

http://www.mindfully.org/Air/Diesel-School-Buses-NRDC-CCA.htm 

 

 

·        Está quase tudo legal.  

            Todas estas coisas enumeradas no desenrolar do dia de uma criança, se possível, podem ser evitadas. Muitas das substâncias sintéticas, presentes nos agrotóxicos, são comuns em plásticos, cosméticos e tintas. Sozinho, cada um destes químicos pode mimetizar os hormônios em nossos organismos. A combinação deles pode gerar uma sinergia, multiplicando sua toxicidade, criando significativamente um tóxico mais poderoso. 

            A maioria das pessoas supõe que os produtos que utiliza foram totalmente testados e seriam seguros.  A nossa profunda boa-fé na segurança destes produtos está deslocada, ermitindo que a raposa cuide do galinheiro. Não há testes pré-venda ou aprovação exigida porleis federais para centenas de itens com os quais as crianças entram em contato diariamente. A questão do segredo industrial, apoiada em lei, afasta os consumidores do conhecimento do que são a maioria dos produtos mascados, chupados, comidos, respirados ou com que brincam nossas crianças. As indústrias reivindicam de que o segredo industrial protege “a informação comercialmente sensível”. [a] No entanto, a compreensão sobre estes fatos é crucial. Pode ser um erro desconfiarmos de tudo e de todos, mas uma dose saudável de desconfiança é indispensável. [b] Pela auto-educação, poderemos nos transformar numa parte importante do processo que altere a postura de nossos governantes.

            Normalmente, se um produto que está no mercado é defeituoso ou tóxico, ao onsumidor é atribuído o ônus da prova. A indústria é que deveria provar a segurança de seu produto antes de colocá-lo no mercado. Nesta mesma linha de raciocínio, elas precisam ser responsáveis pelos danos tanto ao ambiente como à nossa saúde.

 

 

·          [a] Aventis entra com uma ação legal contra governo inglês com relação a agrotóxicos. Dow Jones Newswires, 07set01.

·          [b] Baker, D.M., Discurso na cerimônia de formatura de 2001 do College of Natural Resources, University of Califórnia, Berkeley, 20mai01.

http://www.mindfully.org/GE/GE2/David-Baker-2001-UCB.htm

 

   

10.  A medida dos disruptores endócrinos em partes por trilhão.  

            Para um estudante de medicina ler que o estradiol (nt.: nome de um estrogênio, hormônio feminino) deve ser medido em partes por trilhão (ppt) pode não ser nada novo. Agora, tente visualizar o que 1 ppt pode representar. Imagine uma gota de água em seiscentos e sessenta (660) vagões-tanque. É uma fileira de vagões de trem de, mais ou menos, três quilômetros! [41] Não é possível ver-se três quilômetros como se vê um centímetro ou um milímetro ou mesmo uma única célula. Mas a diferença de poucas partes por trilhão de um hormônio poderá significar um mundo de diferença durante uma vida.

            A tese de pós-graduação de Frederick vom Saal, na Universidade do Texas, exemplifica o poder dos hormônios. Demonstrou que há influências permanentes entre os embriões de gêneros diferentes que ficam lado-a-lado no útero, numa ninhada de camundongos. Na fase adulta apresentam alterações em termos de agressão, sexualidade e reprodução. Se for uma fêmea que está posicionada entre dois machos, terá uma imensa chance de ser agressiva, baixa produção de feromônios de atração sexual, terá lento processo para maturidade e cios menos freqüentes do que uma que tiver sido gerada entre duas fêmeas. [42] Outros pesquisadores também detectaram que a posição no útero determinará a média de gêneros sexuais que terão estes camundongos em suas futuras ninhadas. [43]

            O resultado destas descobertas é que não está sendo mais adequado considerar o câncer como o ponto final mais importante ou único.   

 

11.  Por que eu nunca ouvi nada sobre os disruptores endócrinos (DEs) ?  

Várias são as razões. No entanto, a falta de percepção vem dos nossos sistemas educacional, legislativo e econômico. Cada um faz a sua parte para a manutenção deste status quo. A informação científica é grandemente reduzida face à fragmentação dentro dos campos de estudo, cada vez mais especializados. As corporações que financiam as pesquisas acadêmicas e as campanhas políticas, sem dúvida, reduzem a divulgação destes resultados. Os sistemas de saúde prosperam mais na medicação do que na prevenção e lucram mais do que curam. 

Através de suas próprias pesquisas, as indústrias químicas têm conhecimento, há décadas, dos perigos das moléculas que geram. Apesar das incessantes advertências feitas por cientistas e organizações sociais, elas não só refugam testá-las adequadamente antes de comercializá-las como também se organizam dentro de grupos de ação, despendendo alguns milhões de dólares em campanhas públicas para nos desinformar. O lucro é a única razão.

Em 26 de março de 2001, o canal de tevê PBS colocou no ar uma reportagem especial do jornalista Bill Moyers expondo a conspiração da indústria de PVC por ocultar a milhares de seus trabalhadores, a toxicidade do MVC (monovinil cloreto). Rotular como conspiração está longe de ser um exagero. O programa, Trade Secrets (nt.: Negócios secretos), foi consolidado após anos de pesquisas em centenas de milhares de documentos obtidos através de ações judiciais e da Lei de Liberdade de Informações. Muitos dos documentos estão acessíveis livremente, no website do Environmental Working Group (nt.: Grupo de Trabalho Ambiental). Pessoas de dentro das indústrias, movidos pela culpa, estão revelando muito mais dados que o livro irá divulgar. É uma fonte abundante de registros da indústria, detalhando a longa jornada desta história de ações ilícitas que comprometem a saúde e a confiança dos trabalhadores das indústrias de PVC. [44]    

12.  O quê as indústrias químicas (pólos petroquímicos) têm a dizer ?  

Os fabricantes das indústrias químicas declaram que os cientistas que falam em urgência em relação à precaução quanto aos disruptores endócrinos, são sensacionalistas histéricos.  Ameaçam que serão milhares os trabalhadores que ficarão desnecessariamente desempregados se a produção destes químicos tóxicos for estancada sem absoluta prova de dano. Dizem também que os testes feitos foram somente com animais de laboratório, não havendo provas de que os humanos seriam afetados como são os outros animais. Mas pelos acidentes industriais, testes inadequados ou prescrição de fármacos já se aprendeu bastante para conectar fortemente o efeito dos disruptores endócrinos aos seres humanos.

Alguns exemplos de casos que ilustram a conexão entre os disruptores endócrinos e os humanos: o DES (dietilestilbestrol) foi medicado a mais de 4 milhões de mulheres que apresentavam problemas durante a gestação; [45] a explosão da fábrica química em Seveso/Itália, em 1976, expôs milhares de pessoas à dioxina; [46] milhares de pessoas que viviam na baía de Minamata/Japão, ficaram envenenadas com o metil-mercúrio pelo consumo de peixes contaminados com as descargas intencionais de toneladas de produtos mercuriais lançados pela Chisso Corporation; e os efeitos do Agente Laranja, o desfoliante ubíquo utilizado durante a guerra no Vietnam, nos anos sessenta, e que ainda hoje é ativo no sul deste país e em muitas outras nações. [47]

Quando a indústria se sente ameaçada, ridiculariza a toxicidade em baixas doses como sendo “ciência de baixo nível” ou que tudo isto é “tempestade em copo d’água”. Toxicologistas pavoneiam-se diante da mídia declarando que “a dose é que faz o veneno”, ou que há um “nível inócuo para todos os produtos químicos”. Mas quando alguém faz as perguntas equivocadas, erros são inevitáveis. Testes podem e são conduzidos pela indústria para eliminar ou evi